O que é a Democracia, pelo menos a nossa, que se diz ser Liberal, havendo quem a reivindique de natureza diferente, noutras paragens?
Um regime no qual «o povo é quem mais ordena» e expressa a sua vontade através do voto, depositando-a em terceiros seus representantes?
E serão esses representantes, depois, fiéis depositários dela?

Jurista
Talvez não sejam necessários grandes estudos de ordem sociológica ou metafísica para compreender muitos dos votos expressos nas acabadas eleições para a Assembleia da República!
Um regime em que, como acaba de acontecer, os votos não convertidos em mandatos ascendem a mais de meio milhão, com, por exemplo, um partido, o ADN, apesar de ter obtido a nível nacional mais do quádruplo (!) dos votos do que um outro, o JPP, não elegeu nenhum representante para a Assembleia da República, enquanto este elegeu um, pela simples razão de ter obtido mais votos do que aquele no círculo da Madeira?
Por sua vez, o que é o povo?
Uma massa homogénea, que um dia vota com inteligência e saber e noutro manipulada e enganada?
Ou, ao invés, será uma massa heterogénea, comportando interesses diversos e até antagónicos, movendo-se num palco onde não faltam esclarecimentos e manipulações, verdades e mentiras, fidelidades e traições, tendo por cenário, em cada momento, a correlação de forças existente entre esses mesmos interesses, com a «festa» inicial das eleições terminando com uns a rirem e outros a chorar?
Post scriptum
– «Estudo revela que três em cada cinco portugueses não têm dinheiro para as necessidades básicas» – DN.
– «Votei no Chega para abanar isto tudo» – eleitor ouvido em reportagem do jornal Público.
Ou seja, talvez não sejam necessários grandes estudos de ordem sociológica ou metafísica para compreender muitos dos votos expressos nas acabadas eleições para a Assembleia da República!
Resta saber, entretanto, se, com tanta abanação, a casa da Democracia Liberal ainda não acabará por cair, com um novo «Salvador da Pátria» a subir ao poder, clamando que «não se discute Deus e a sua virtude, não se discute a Pátria e a Nação, não se discute a autoridade e o seu prestígio».
Só se discutindo os subsídios aos ciganos e a entrada de imigrantes no país, exceto na estrita medida da sua necessidade para a limpeza de sanitários em centros comerciais ou para trabalhar nas obras, ao sol e à chuva, por um mísero ordenado.
Entretanto, lembrando Bertolt Brecht:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
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