Dediquei-lhe, com profundo estima e admiração, o parágrafo que se segue:
“Alfora sente-se devedor da luz de Turner, pratica experiências torturadas na paleta que poderia ter pertencido a um Rembrandt, Delacroix ou Bonnington. Não sei porque não é possível associar igualmente Vermeer, Chagall ou Cézanne, tal a embriaguez destas cores coralinas, translúcidas, esmaltadas, por vezes, transgressoras quanto à coexistência entre volume, espaço e perceção do lugar onde se posiciona o viajante. Pontos centrais desta arte é estar, categoricamente, fora de todas as escolas e movimentos. Há, nesta imensidão de acrílicos, edifícios arruinados ou abandonados, mas captam-se vozes, recuperam-se memórias; a arquitetura desobedece à observação lógica de quem procura a nitidez ou a firmeza do casario. Como nos processos alquímicos, a luz torna-se contraluz, as formas são ditadas pelo sortilégio do campo, com fundos de cor homogénea que se dimensiona como um segundo plano. É impressionante este olhar caleidoscópico, aquilo a que nós chamamos o visível, o percetível, é recuperado torcido e retorcido, o resultado estético é deslumbrante.”

Nascido em Kings Lynn, Reino Unido, Chris Alford foi homem de muitos ofícios. Experimentou o exército, contou-me a sua experiência em Berlim, fez serviço militar em Spandau, onde estava preso Rudolf Hess, antigo homem de confiança de Adolf Hitler. Mas as artes plásticas mudaram tudo na década de 1980. Licenciou-se em Belas Artes, na Universidade de Staffordshire, seguiu-se pós-graduação, mestrado e pedagógicas, foi professor. Na década de 1990 veio viver para Portugal, onde começou por ser professor em Lisboa; a partir de 2001 dedicou-se exclusivamente à pintura. Ele que participara em exposições coletivas no Reino Unido, de 2001 a 2006 fez exposições individuais em Silves, Vila Real de Santo António, Lagoa, São Brás de Alportel, Almancil, Lagos e Alcoutim. Mas o pendor para fazer de parte grupos de artistas também foi muito forte, participou no grupo “Blank Canvas”.

Constituiu família, viveram primeiramente em Santa Bárbara de Nexe, domiciliaram-se em Tavira, aqui o visitei com alguma frequência. E olhava demoradamente as suas obras pretéritas, onde abundavam dólmens, transfigurados em autênticas pedras lascadas, elemento – signo que o acompanhou em toda a sua vida artística, bem como as reminiscências de escombros. A sua paleta, subitamente, ilumina-se. Viaja por todo o país, tira fotografias, elas serão muitas vezes ponto de partida para o endoidecimento da cor, e é por isso que retorno ao parágrafo inicial, aos escuros de Rembrandt, aos verdes voluptuosos de Dufy, às torrentes de luminescência que encontramos no seu compatriota Bonnington. Mas faço firmemente a ressalva de que a arte de Alfora não é o resultado de apanhados deste ou daquele outro artista, ao longo de pelo menos quinze anos que pintou no Algarve deu-se ao trabalho insano de experiência após experiência, todas aquelas cores esplendentes foram dobradas e multiplicadas.
Artista muito sóbrio e discreto, que se deixou prejudicar pela falta de falar um português fluente, que é um imperativo para a integração, mesmo nos meios artísticos, acaba de falecer depois de uma doença prolongada.

Vejo a sua imagem e comovo-me profundamente, ciente que toda a sua obra artística merecia ser vista, interpretada, facultada ao público. Não é por acaso que aqui fui buscar uma imagem de um dos seus trabalhos que se intitula Luz da minha vida, pois para mim a resposta é muito simples, ele adorava a luz do Algarve, andasse por onde andasse, quando se recolhia a casa, e ao seu estúdio, era esta a luz e todas estas cores vibrantes que se transmutavam no amor que ele sentia por este ambiente ensolarado, de céus tantas vezes translúcidos e onde as ruínas evocam um passado com quem poucos se sentem comprometidos.
Gostava muito que Tavira, onde ele viveu tanto tempo, pudesse ver a sua obra ardorosa, onde não falta um Algarve germinal; ele é bem merecedor desta lembrança póstuma. Não é por acaso que aqui não se reproduz um desses esplendorosos acrílicos de temática algarvia.

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