Há uma imagem que se repete, ano após ano, sempre que se fala da Enfermagem em Portugal: a de profissionais exaustos, mal renumerados, a realizar horas extraordinárias sem fim e, muitas vezes, obrigados a emigrar para verem reconhecido aquilo que aqui lhes é negado.
Sou estudante do 3.º ano de Enfermagem e depois de já ter passado pelos mais variados contextos de Ensino Clínico, cada um confirmou, de forma diferente, o que significa cuidar com pessoas dentro de um sistema que continua a subvalorizar quem cuida.
Uma profissão de decisão, não apenas de execução
Ainda persiste, no imaginário coletivo, a ideia de que o enfermeiro é um simples “ajudante do médico”. Nada podia estar mais longe da realidade. Nada podia ser mais injusto para uma profissão que constitui um dos pilares do nosso Serviço Nacional de Saúde. O enfermeiro avalia, analisa, interpreta, formula, planeia e intervém com base na metodologia do Processo de Enfermagem, sustentado sempre por evidência científica recente e em competências reguladas pela lei.

O Estatuto da Ordem dos Enfermeiros, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 104/98, de 21 de abril, e republicado pela Lei n.º 156/2015, de 16 de setembro, juntamente com o Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (Decreto-Lei n.º 161/96, de 4 de setembro) e o Decreto-Lei n.º 118/2014, que estabelece a carreira especial de Enfermagem, reconhecem formalmente a autonomia técnica, científica e deontológica da nossa nobre profissão. No entanto, entre o que a lei reconhece e o que a sociedade e, muitas vezes, o próprio sistema de saúde pratica, existe um fosso que urge fechar. Ao longo dos vários contextos por onde já passei, tenho visto, uma e outra vez, enfermeiros a tomar decisões clínicas complexas, a assegurar com todas as suas forças aquilo que poucos têm a coragem de assumir, a lutar contra o impossível e a dar a alma por aquilo que não é seu, mas sim, de todos. Somos o retrato da resiliência, da coragem, mas muitas vezes da solidão.
O preço do cuidar
A desvalorização da Enfermagem não é apenas simbólica, é concreta e mede-se em números: salários que não acompanham a responsabilidade da função, progressões de carreira bloqueadas durante anos, rácios de enfermeiro por Pessoa muito acima do recomendado e uma carga de trabalho que empurra milhares de profissionais portugueses para fora do país. Portugal forma enfermeiros de excelência, reconhecidos internacionalmente, e depois vê-os partir porque não lhes oferece condições dignas para ficar.
Como estudante, sinto isto de forma antecipada: escolhi esta profissão por vocação, pelo meu amor à camisola, mas confronto-me, diariamente com a pergunta, que atravessa a maioria dos meus colegas: “Vou ficar ou vou seguir os que já partiram?”. Esta é uma pergunta que não devia sequer fazer parte da equação, de quem quer cuidar de outros no seu próprio país.
Valorizar Enfermagem é valorizar a saúde coletiva
É importante sublinhar: valorizar a Enfermagem não é uma reivindicação corporativa, é uma questão de saúde pública. Sistemas de saúde com melhores rácios de Enfermagem têm, de forma consistente, menos complicações, menos reinternamentos e mais ganhos em saúde. Cuidar de quem cuida é, no fundo, cuidar de todos os que um dia vão precisar de cuidados, e essa pessoa somos, mais cedo ou mais tarde, todos nós. Valorizar a Enfermagem passa por reconhecer, na prática e não apenas no papel, a autonomia profissional dos enfermeiros; por garantir salários e progressões de carreira condizentes com a responsabilidade e a exigência científica da função; por mostrar ao mundo o nosso poder, as nossas competências; por assegurar rácios de enfermeiro por Pessoa que permitam cuidados seguros e não apenas cuidados possíveis; e por valorizar socialmente uma profissão que, silenciosamente, sustenta o sistema de saúde português.
E, por vezes, a valorização não começa apenas quando iniciamos a profissão. Começa muito antes, começa no investimento contínuo na formação dos nossos futuros enfermeiros. Desde cedo, que o associativismo, para mim, é uma arma. Uma arma benéfica e poderosa na construção de gerações futuras mais empoderadas. Desde o começo da minha formação que integro o Núcleo de Estudantes de Enfermagem da Associação Académica da Universidade do Algarve e que sinto que, aos poucos fomos fazendo a diferença. Um Núcleo de Estudantes representa um coletivo, uma classe, uma geração de pessoas que têm nas mãos o poder de mudar, de impactar. Defende os direitos e os interesses de quem futuramente pode vir a mudar o panorama de algo pensado como inalterável.
Este ano, assumi funções como Presidente da Direção-Geral do Núcleo de Estudantes de Enfermagem da Associação Académica da Universidade do Algarve com uma equipa de jovens estudantes com ideias magníficas e que partilham o mesmo sonho que eu: Lutar por aquilo que é nosso e fazer a diferença. Não assinei apenas um documento oficial, mas comprometi-me em elevar um núcleo que pouca presença tinha para algo que brilha no mapa das associações estudantis de Enfermagem. Para algo que não será esquecido. Ao tomar posse referi: “Queremos que os nossos estudantes e futuros estudantes sintam orgulho em estar neste curso, sintam orgulho da sua escolha” e é esta a filosofia que sigo. A valorização não começa com uma cédula, começa com o empenho e a coragem a partir do momento em que escolhemos esta profissão. Começa em cada um dos futuros enfermeiros deste país.
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