

























































































Tavira celebrou no passado domingo, 2 de fevereiro, o Dia de Santa Maria, com várias iniciativas que decorreram ao longo do dia e que foram organizadas pela União das Freguesias de Tavira, liderada por José Mateus.
O programa contemplou o XVII Cicloturismo “Terras de Santa Maria”, uma eucaristia na Igreja de Santa Maria e um espetáculo de fados com Raquel Peters e João Leote. No final da tarde, pelas 18 horas, foram ainda homenageados três ilustres tavirenses: menina “Bianita”, menina “Olguinha” e José Domingos Horta.
União de Freguesias homenageou as meninas “Bianita” e “Olguinha”
Em tempos que já lá vão, entre as décadas de 50 a 80, a realidade ao nível da educação nada tinha a ver com os dias de hoje. Muitas crianças não tinham possibilidade de ter o apoio escolar a que hoje chamamos “explicações”, mas tinham-no de outra forma, era então a chamada de “escola paga”.
Na cidade de Tavira foi marcante o papel de duas irmãs que dedicaram grande parte das suas vidas ao ensino das crianças, quer no apoio escolar, quer ainda no pré-escolar. Maria Bebiana Canceira Marçal Rodrigues, carinhosamente conhecida por menina “Bianita”, hoje com 82 anos, é proveniente de uma família remediada. A menina “Bianita” era filha do senhor Bebiano António Trindade Marçal e tem duas irmãs. “Bianita” frequentou a escola pública até ao 4º ano mas não teve possibilidade para continuar os estudos, uma vez que nesses tempos para continuar era necessário ir para Faro, o que se tornava bastante dispendioso.
Por influência de uma vizinha, que por ter um estabelecimento comercial não tinha tempo para acompanhar os estudos das suas duas filhas, por volta dos 11 anos, decidiu-se então pelo ensino às crianças. Paralelamente, com o gosto e dedicação que tinha pelo ensino, também pesava o facto da atividade contribuir para a ajuda financeira da família, pois recebia 5 escudos mensais por cada criança que recebia apoio escolar.
Quando começavam, as crianças faziam- se acompanhar de uma cadeira e um copo para beber água, que se mantinha na casa da professora até lá andarem. As crianças que ainda não frequentavam a escola primária iniciavam às nove da manhã e lá permaneciam até à hora do almoço, regressando depois para a parte da tarde. As que frequentavam a escola, apenas podiam ir depois de terminar as aulas, por volta das 15 horas e ficavam até à hora em que os pais os podiam ir buscar, durante todo o ano, fosse ou não tempo de aulas.
Exerceu a atividade até aos 28 anos, altura em que casou e foi morar para Almada.
Com a sua ausência e visto que a atividade se tinha tornado importante para as crianças e suas famílias, a sua irmã mais velha, Olga da Encarnação Canceira Marçal, de 87 anos, conhecida por menina “Olguinha”, dada a escassez de empregos dedicava-se apenas a ajudar o pai na sua atividade de encadernador, viu ali uma oportunidade de dar continuidade à atividade da irmã, obtendo também uma importante ajuda financeira.
Seguindo o mesmo trajeto de “Bianita”, Olga Marçal iniciou então a atividade aos 33 anos e prosseguiu o seu trabalho com muito gosto e dedicação durante muitos anos, fazendo dela a sua profissão, chegando a ter na sua sala de estudos mais de 50 crianças ao mesmo tempo.
As meninas “Bianita e Olguinha” receberam e ensinaram os filhos das mais diversas famílias tavirenses dessas épocas, assim como de quadros militares que por cá passaram, sentem orgulho por todos, e ainda hoje existe uma amizade recíproca com muitos dos alunos, que por vezes aparecem para visitá-las e recordar esses tempos, nomeadamente os que vivem fora do concelho.
Assim, foi com imenso “carinho e reconhecimento que a União das Freguesias de Tavira, no âmbito das comemorações do dia de Santa Maria 2020, decidiu homenagear as irmãs ‘Olguinha e Bianita‘”.
José Domingos Horta foi também homenagedo
Pode dizer-se que o instrumento musical que identifica o Algarve é o acordeão, que é o instrumento principal do nosso folclore, indispensável nos arraiais, bailes mais típicos e ranchos folclóricos, tendo como expressão maior a dança do corridinho algarvio. Um instrumento intrigante e de sonoridade fascinante, sendo um acompanhamento preferencial em várias formações musicais, nomeadamente, nos grupos de charolas que desfilam no concelho durante as festividades de Ano Novo e Dia de Reis.
José Domingos Horta, de 78 anos, nascido a 26 de abril de 1941, no Sítio de Malfrade, freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim, estabeleceu-se em Tavira com poucos meses de idade, iniciou-se nas suas lides musicais a tocar bandolim e só depois por volta dos 11 anos começou a despertar e a ganhar gosto pelo acordeão.
O seu primeiro acordeão foi-lhe oferecido pelo pai e durante cinco a seis anos foi autodidata a aprender os primeiros acordes musicais. Seguiu- -se o início de aulas de acordeão com a professora Isabel, que residia em Loulé, onde aprendeu muito, tanto na correção da posição dos dedos, como nas aulas de solfejo, no manual “Freitas Gasulo”.
Depois de adquirir o conhecimento base começou a ganhar cada vez mais gosto pela arte do acordeão, ao ponto de se dedicar totalmente à música e ao acordeão, sendo um “tocador” de eleição, abrilhantando bailes pelo concelho de Tavira e um pouco por todo o Algarve, bem como nas atuações de todos os ranchos folclóricos do concelho e até deslocações ao estrangeiro, havendo meses em que apenas tinha dois ou três dias sem atuações. Recorda com alguma nostalgia a sua primeira atuação, que foi no Sítio da Altura e recebeu 500 escudos.
Entre as muitas situações hilariantes que aconteceram na sua vida de acordeonista relatou uma que gosta de recordar e que foi “numa certa ocasião em que se deslocou para tocar ao Sítio do Beliche, bebeu uns copitos de aguardente de medronho a mais e acabou por adormecer numa moita de azedas perto da ribeira, valendo-lhe o facto de ter sido encontrado ao fim de poucas horas… “. A fase seguinte foi a sua passagem por diversos ranchos folclóricos, primeiramente no Rancho Folclórico da Conceição, no qual era presidente da direção o professor José Joaquim, seguindo-se depois os Ranchos Folclóricos da Luz de Tavira, Santo Estevão, Santa Catarina, Luz de Tavira, Cabanas de Tavira e Tavira.
Dedicou a sua vida a tocar acordeão, mas por volta dos 40 anos pôs em prática outra vertente da paixão que sentia por este instrumento, dedicando- se a estudar minuciosamente toda a sua engrenagem, tendo começado a construí-los. José Horta construiu cerca de 70 acordeões, com a particularidade de serem mais leves cerca de cinco quilos, em relação aos que são produzidos em fábricas. Os seus instrumentos eram bastante procurados, principalmente por mulheres, por serem mais leves.
Atualmente, tem uma oficina em Tavira, que pode ser visitada perto do Pavilhão Dr. Eduardo Mansinho, onde faz arranjos e aconselha acerca da qualidade dos instrumentos.
José Domingos Horta considera que até nesta área “os apaixonados do acordeão tendem a deslumbrar-se com a sua aparência e à primeira vista ficam mais atraídos por aqueles que apresentam uma decoração mais fascinante, o que nem sempre corresponde ao melhor instrumento, pois o mais importante para a finalidade a que se destina é mesmo a sonoridade e as teclas, para o efeito a beleza não é importante, por vezes até ofusca a atuação dos tocadores”.
Durante a sua carreira de acordeonista deu aulas de acordeão, ensinando muitas pessoas a tocar e a aperfeiçoar os acordes desse instrumento. Devido ao seu vasto percurso e dedicação, foi com “imenso carinho e reconhecimento que, entre outros concidadãos certamente merecedores de reconhecimento, a União das Freguesias de Tavira, no âmbito das comemorações do dia de Santa Maria 2020, decidiu reconhecer o ‘tocador de fole’, José Domingos Horta”.
















