A pobreza em Portugal continua a crescer e há zonas do país onde a situação parece não ter solução à vista. De acordo com a CNN Portugal, site de notícias especializado, uma região apresenta a maior incidência de pobreza monetária do país, com 17,9% dos habitantes a viver com menos de 723 euros por mês, valor considerado o limiar da pobreza. Trata-se do Alentejo, território que enfrenta um fenómeno social que se arrasta há décadas e que tem vindo a agravar-se.
Imigração e estrutura económica em foco
Para António José Brito, presidente da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), esta realidade é uma “sina” difícil de alterar. Segundo o responsável, o crescimento da imigração precária e a ausência de uma estratégia de acolhimento eficaz por parte do Estado central contribuíram para o aumento da pobreza. “Muitos imigrantes chegam às redes de trabalho de forma desordenada, sem condições adequadas, vivendo em situações precárias e com salários baixos”, explicou à CNN Portugal.
Fernando Diogo, professor da Universidade dos Açores e investigador do CICS.NOVA, acrescenta que não existe uma única explicação para o fenómeno. O investigador aponta que a região, sendo rural e com forte peso da agricultura, atrai mão de obra estrangeira para funções pouco qualificadas, como agricultura, construção civil e serviços básicos, onde os rendimentos são tradicionalmente baixos.
A expansão da agricultura intensiva nas últimas duas décadas obrigou à mobilização de um elevado número de trabalhadores, sobretudo estrangeiros, em zonas como Beja, Serpa e Ferreira do Alentejo, com especial enfoque na emergência do olival.
Para além disso, a falta de investimento nas infraestruturas é outro fator que agrava a situação. Beja, capital de distrito, continua sem ligação direta a uma autoestrada, com a ferrovia limitada e sem planos concretos para o aeroporto local. “As infraestruturas não estão asseguradas”, sublinha António José Brito, acrescentando que esta realidade limita a atração de atividades económicas que poderiam reduzir a pobreza.
Desigualdade da pobreza em Portugal
Apesar do agravamento no Alentejo, o risco de pobreza no restante país registou uma descida para 15,4%, o valor mais baixo desde que há registos em Portugal, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Fernando Diogo alerta, contudo, que a redução da pobreza é desigual. “A diminuição deu-se especialmente no Norte, região mais populosa, o que acabou por influenciar a média nacional. Em termos reais, muitas regiões continuam a enfrentar dificuldades graves”, explica.
O investigador aponta também limitações do próprio Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, que não contempla pessoas em situação de sem-abrigo. No caso do Alentejo, mesmo imigrantes em situação irregular são contabilizados se estiverem alojados em camaratas convencionais, segundo a CNN Portugal.
Outro fator que impede uma melhoria significativa é o fraco impacto das transferências sociais na redução da pobreza.
Apesar de existirem instrumentos como o Rendimento Social de Inserção, o montante é considerado insuficiente para retirar as pessoas da pobreza, apenas mitigando a situação. Fernando Diogo acrescenta que, embora as leis estejam adequadas, o problema reside nos baixos valores alocados, que limitam a eficácia das políticas sociais.
Curiosamente, os dados do INE mostram que, a nível nacional, a pobreza entre os idosos tem diminuído, passando de 21,3% para 17,8%. No Alentejo, a situação é diferente.
A região é a mais envelhecida do país, mas não beneficiou da redução, possivelmente devido ao tipo de trabalho que esta população exercia e às reformas resultantes de carreiras pouco remuneradas, sublinha o investigador.
A CNN Portugal destaca, assim, um cenário complexo no Alentejo, onde fatores económicos, sociais e demográficos se conjugam para manter a região entre as mais pobres do país, contrariando a tendência nacional de diminuição da pobreza.
















