Um parasita capaz de provocar comichão intensa e pequenas lesões na pele foi identificado pela primeira vez em Portugal. A descoberta aconteceu na albufeira do Alqueva e resulta de uma investigação conduzida por cientistas do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa.
O estudo, publicado na revista científica Science in One Health e disponível através do repositório institucional da Universidade NOVA de Lisboa, confirmou a presença de Trichobilharzia franki, um parasita cujo ciclo natural envolve aves aquáticas e determinados caracóis de água doce.
Foram analisados mais de 7 mil caracóis
O trabalho de campo decorreu entre maio de 2023 e outubro de 2024, ao longo de oito campanhas realizadas em 25 pontos das margens da albufeira. No total, os investigadores recolheram 7.125 caracóis de água doce. Entre os exemplares adequados para análise molecular, quatro caracóis da espécie Radix auricularia, recolhidos em Campinho, no concelho de Reguengos de Monsaraz, em setembro de 2024, apresentaram o parasita.
As análises morfológicas e genéticas permitiram confirmar que se tratava de Trichobilharzia franki. Até esta investigação, a presença desta espécie não tinha sido confirmada em Portugal.
Afinal, o que é a ‘comichão do nadador’?
O problema para os seres humanos surge numa fase específica do ciclo do parasita. Os caracóis infetados podem libertar para a água larvas microscópicas, chamadas cercárias, que procuram normalmente aves aquáticas para continuar o seu ciclo de vida.
Uma pessoa que esteja dentro da água pode, contudo, tornar-se um hospedeiro acidental. As larvas conseguem penetrar superficialmente na pele e provocar uma reação inflamatória conhecida como dermatite cercariana, popularmente chamada “comichão do nadador”. Segundo os norte-americanos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), os sintomas podem incluir comichão, ardor, pequenas borbulhas avermelhadas e, em alguns casos, pequenas bolhas.
Parasita não consegue desenvolver-se no corpo humano
Apesar de conseguir penetrar na pele, o ser humano não é o hospedeiro adequado para este parasita. As larvas não conseguem amadurecer nem completar o seu ciclo dentro do organismo humano e acabam por morrer. O problema resulta sobretudo da reação do sistema imunitário à sua entrada na pele. A dermatite não é contagiosa e, segundo o CDC, os sintomas tendem geralmente a desaparecer progressivamente, embora a comichão possa persistir durante vários dias.
Foram relatados casos compatíveis na região, mas há uma diferença importante
O próprio estudo refere terem sido comunicadas na região situações humanas compatíveis com dermatite cercariana. Contudo, isto não significa que tenha sido demonstrado que essas pessoas foram infetadas por Trichobilharzia franki.
Os relatos clínicos são compatíveis com a doença, mas não existe no estudo uma confirmação laboratorial que permita ligar esses episódios diretamente aos quatro caracóis infetados identificados pelos investigadores. Por isso, é mais rigoroso falar na primeira deteção do parasita em Portugal, e não no primeiro “caso humano” português.
Descoberta não significa que todo o Alqueva tenha o parasita
Também não é possível concluir, a partir do estudo, que o parasita esteja presente em toda a albufeira. Os quatro exemplares positivos foram recolhidos no mesmo local, em Campinho, apesar de a equipa ter realizado amostragens em 25 pontos diferentes.
Os investigadores consideram, ainda assim, que a descoberta justifica uma vigilância continuada, sobretudo porque o Alqueva é utilizado para natação, desportos náuticos, pesca e outras atividades que aumentam o contacto das pessoas com a água.
Aves migratórias podem ajudar a explicar a chegada
As análises genéticas mostraram semelhanças entre os exemplares encontrados no Alqueva e linhagens de Trichobilharzia franki identificadas noutras partes da Europa e da Ásia. Uma das hipóteses colocadas pelos investigadores é que as aves migratórias possam desempenhar um papel na dispersão do parasita entre regiões geograficamente muito afastadas. O ciclo envolve precisamente aves aquáticas como hospedeiros definitivos e caracóis como hospedeiros intermédios, permitindo que o parasita se mantenha nos ecossistemas de água doce.
Risco tende a aumentar durante os meses mais quentes
Os meses mais quentes merecem especial atenção porque coincidem com uma maior utilização recreativa da água e com condições que podem favorecer a presença dos caracóis envolvidos no ciclo. O CDC refere que a chamada comichão do nadador é mais frequente durante o verão e que as larvas podem encontrar-se sobretudo em zonas pouco profundas junto às margens.
Como medidas gerais de prevenção, aquela autoridade de saúde recomenda evitar zonas onde exista um problema conhecido, não permanecer em áreas pantanosas com abundância de caracóis e secar bem o corpo ou tomar banho depois de sair da água. Estas são recomendações gerais sobre dermatite cercariana e não correspondem a uma interdição ou alerta específico das autoridades portuguesas relativamente ao Alqueva.
Investigadores defendem maior vigilância
A principal conclusão dos autores não é que se deva deixar de utilizar a albufeira, mas que a presença de um parasita zoonótico até agora não identificado em Portugal deve ser acompanhada. Os investigadores defendem a continuação da vigilância dos caracóis, das zonas recreativas e da relação entre saúde humana, animal e ambiental, de forma a identificar locais ou épocas de maior risco.
A descoberta coloca assim Portugal no mapa europeu da presença de Trichobilharzia franki, mas os dados atualmente disponíveis não demonstram um surto humano nem permitem concluir que as águas do Alqueva estejam, de forma generalizada, impróprias para atividades recreativas.
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