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Cultura.Sul, Economia, Nacional

O Bafo do Diabo: o simples ato de respirar no planeta Terra será extremamente difícil a 1 de janeiro de 2100

Este não é um exercício meramente especulativo, são as projeções climáticas da NASA sustentadas em 11 terabytes de dados referentes à monitorização diária do planeta. Acorde. A sua casa, a de todos, está a arder

20:45 11 Novembro, 2021 12:22 29 Novembro, 2024 | Cristina Mendonça
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Uma nova era glaciar cobre o mundo. Poderá ser assim em 2100 uma vez que 0,1% da atmosfera estará comprometida, com concentrações de dióxido de carbono que atingem 900 partes por milhão (mais do dobro do que em 2015)

Certamente já parou para pensar naquilo que o futuro lhe reserva. Qual é o seu maior sonho? Qual é o seu maior medo? Agora, pare. Acorde. A sua casa, a de todos, está a arder. A realidade é o seu maior pesadelo e o futuro do planeta é agora.

2100, uma odisseia num espaço distópico: a Humanidade está em vias de extinção e o planeta já não tem defesas naturais para que o ser humano seja preservado como uma espécie protegida. Ficção científica? Não, é apenas Ciência. Basta olhar para as quase 4000 páginas do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Está tudo lá. E as consequências estão aí à porta. Quem deixou o mundo destrancado?

“É hora de dizer basta. Basta de brutalizar a biodiversidade, basta de matarmo-nos a nós mesmos com carbono; basta de tratar a natureza como uma sanita; basta de queimar, perfurar e extrair cada vez mais. Estamos a cavar as nossas próprias sepulturas”, advertiu António Guterres, secretário-geral da ONU, perante uma audiência composta por líderes políticos mundiais reunidos, em Glasgow, na cerimónia de abertura da cimeira do clima COP26, onde até sexta-feira será traçado o caminho a seguir.

Para onde vamos? Chegaremos a tempo ou a salvação ficou no passado? “Havemos de ir ao futuro”, escreveu Filipa Leal. E aqui o verso faz-se interrogação. “E, no futuro, estará finalmente tudo como dantes”?

I. PRESENTE ENVENENADO

Pintou um clima — e é bastante negro. Muitos poderão dizer que as alterações climáticas sempre fizeram parte da história do mundo, mas nunca como nos últimos 100 anos as mudanças ocorreram a um ritmo tão vertiginoso. O primeiro estudo a apontar para as alterações climáticas data de 1896, com sucessivos e intensificados avisos a partir de 1960. Aqui chegados, esgotou-se o tempo para alertas. A bomba rebentou nas mãos da Humanidade e é preciso reconstruir o mundo. O único luto possível pelos erros do passado é lutar no imediato.

Os níveis de gases que produzem efeito de estufa duplicaram desde 1880, o que fez a temperatura média na Terra aumentar 1ºC. Desde a Revolução Industrial, as emissões de CO2 multiplicaram-se a uma velocidade dez vezes superior.

Para António Guterres, o relatório do IPCC, divulgado a 9 de agosto, “é um código vermelho para a humanidade” e “deve soar como uma sentença de morte para os combustíveis fósseis, antes que destruam o planeta”. O secretário-geral da ONU afirma que “as soluções são claras” e pede “economias verdes e inclusivas, prosperidade e ar limpo”.

O único remédio é agir agora, neste presente envenenado, antes que o futuro seja tarde demais. O mundo, defende Guterres, “deve isso à família humana, em especial às comunidades e nações mais vulneráveis e pobres, que são as mais atingidas pela emergência climática”.

O QUE É O IPCC?

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas foi criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial, inserido no programa da ONU para o meio ambiente. O órgão é constituído por representantes de 195 países e tem como objetivo fundacional monitorizar o aquecimento global, as alterações climáticas e os subsequentes impactos ambientais e socioeconómicos.

Seis relatórios foram produzidos até agora pelo IPCC — o último tinha sido publicado em 2013 — e o documento resulta da avaliação de três grupos de trabalho distintos. O primeiro analisa e identifica geograficamente os efeitos visíveis das alterações climáticas, ou seja, faz o mundo ver-se ao espelho. O segundo mede o nível de vulnerabilidade socioeconómica face às mudanças drásticas deixadas no planeta pela pegada humana. O terceiro traça as metas imperativas para reduzir as emissões de carbono que estão a tornar a Terra numa estufa.

PORQUE É QUE ESTE SEXTO RELATÓRIO É UM ÚLTIMO AVISO?

O novo relatório do IPCC, mais do que um aviso, é um soco no estômago: algumas das consequências das alterações climáticas são já irreversíveis e estão a intensificar-se a um ritmo nunca antes visto. Além disso, pode ler-se no documento que “é inequívoco que a influência humana aquece a atmosfera, os oceanos e os solos”.

A sexta avaliação do IPCC refere ainda que “a escala das recentes mudanças no sistema climático não tem precedentes ao longo de vários séculos ou milhares de anos”. Isso traduz-se em “evidências extremas observadas, como vagas de calor, precipitação intensa, secas e ciclones tropicais”.

Um dos autores do relatório, Friederike Otto, professor e investigador da Universidade de Oxford, adverte que “a mudança climática não é um problema do futuro, está aqui e agora, e afeta todas as regiões do mundo”. De que forma?

VAGAS DE CALOR

O aumento do efeito de estufa está a aquecer os oceanos, a aumentar a temperatura da água, a provocar uma acidificação do ar e a reduzir os níveis de oxigénio. As vagas de calor estão a afetar os ecossistemas marinhos e as populações que deles dependem para a sua sobrevivência.

♦ ♦ ♦

DEGELO

Metade do manto de gelo que cobria o Ártico no verão já desapareceu desde os anos 1970. Caso as emissões de gases que produzem efeito de estufa não sejam cortadas, derreterá por completo nas próximas décadas. Os glaciares europeus estão a descongelar vertiginosamente desde 1997, tendo já perdido entre sete e 23 metros de espessura.

♦ ♦ ♦

SUBIDA DO NÍVEL DO MAR

Portugal já perdeu, pelo menos, 15 km2 de território, que foram engolidos pela subida média do nível dos oceanos provocada pelo degelo. No Pacífico, cinco ilhas do arquipélago das Ilhas Salomão estão agora submersas. Outras podem desaparecer até 2050, como por exemplo Tuvalu ou as Ilhas Fiji. Isso levará, inevitavelmente, a uma crise migratória das populações que vivem nesses pontos do globo. Se nada for feito, durante este século algumas zonas de Lisboa ou Nova Iorque não vão resistir ao avanço das águas.

Foto D.R. Andrew Milligan


SECAS EXTREMAS

No futuro, as vagas de calor podem resultar em secas extremas que devastarão 30% da superfície terrestre. A desertificação dos solos fará com que muitos terrenos cultiváveis deixem de providenciar alimento, a água será um recurso escasso e a sobrevivência das populações que habitam essas regiões pode ser severamente afetada.

♦ ♦ ♦

CATÁSTROFES NATURAIS

Se até 2100 a temperatura global aumentar mais de 2ºC , isso irá deixar os solos áridos mas a atmosfera terá uma concentração de vapor de água completamente insustentável. As previsões, nesse cenário, apontam para chuvas torrenciais prolongadas, inundações, deslizamentos de terra, furacões e tufões cada vez mais frequentes, destrutivos e em latitudes outrora estáveis.

♦ ♦ ♦

VIDA POR UM FIO

As alterações climáticas estão a provocar uma redução na biodiversidade 100 vezes mais acentuada do que seria suposto e a comunidade científica já fala na sexta extinção em massa. No final do século XXI, metade das espécies terrestres e marinhas podem ter desaparecido da Terra. E não, o ser humano não está menos em risco. Em 2017, as ondas de calor e períodos de seca aumentaram a fome no mundo e deixaram 821 milhões de pessoas mal nutridas. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que a poluição do ar pode ser mais perigosa do que uma pandemia, matando anualmente sete milhões de pessoas.

A FINAL DE GLASGOW

Líderes políticos, negociadores, especialistas e ativistas de mais de 120 países estão reunidos desde 31 de outubro e até esta sexta-feira na cidade escocesa de Glasgow, onde se realiza a 26.ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP26). E muito do que sair ou não deste encontro pode ditar a sentença do planeta.

Das conclusões de Glasgow sairá um texto final, embora isso não signifique um novo acordo. O objetivo passa por reforçar a implementação do Acordo de Paris (2015), que até hoje é o mais ambicioso compromisso mundial para salvar o ambiente nas próximas décadas.

Porém, os objetivos estão (muito) longe de ser atingidos: descarbonizar o planeta para manter o aquecimento global abaixo dos 2°C — e se possível abaixo de 1,5°C em relação aos valores da época pré-industrial. Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

Redefinir esforços para enfrentar a crise climática num contexto profundamente alterado pela pandemia, apresentar novas metas para o corte de emissões de gases poluentes e o regresso dos Estados Unidos à mesa das negociações — embora Joe Biden tenha sido apanhado a dormir durante o discurso de abertura — são alguns dos principais destaques. Já o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin protagonizam as principais ausências.

III. HAVEMOS DE IR AO FUTURO

A boa notícia é que o futuro chegará sempre. A má é que o ser humano, assim como grande parte da vida terrestre, pode já cá não estar. E o tempo nada significa se não restar ninguém para o contar.

1 de janeiro de 2100: uma nova era glaciar cobre o mundo e o simples ato de respirar no planeta Terra será extremamente difícil, uma vez que 0,1% da atmosfera estará comprometida, com concentrações de dióxido de carbono que atingem 900 partes por milhão (mais do dobro do que em 2015). Este não é um exercício meramente especulativo, são as projeções climáticas da NASA sustentadas em 11 terabytes de dados referentes à monitorização diária do planeta.

Para que a História tenha um final feliz, é imperativo atingir a neutralidade carbónica até 2050, meta estabelecida pela União Europeia, que insiste em objetivos mais ambiciosos do que os compromissos alcançados no Acordo de Paris.

Os deputados europeus apelaram, por exemplo, para um corte de 60% até 2030 das emissões de gases poluentes em comparação com os níveis de 1990, acima da fasquia atual para que a UE atinja uma redução de 40%.

IV. ENQUANTO HOUVER ESTRADA PARA ANDAR, ATÉ ONDE VAI PORTUGAL?

A Assembleia da República aprovou na passada sexta-feira, 5 de novembro, a Lei de Bases do Clima. O texto final contempla orientações para a política climática portuguesa e admite a antecipação para 2045 da neutralidade carbónica no país.

Foto D.R. Andrew Milligan


Com este diploma, Portugal compromete-se com uma redução de 55% de gases de efeito de estufa até 2030. Até 2040, o objetivo é diminuir entre 65% e 75%, chegando por fim aos 90% até 2050.

A partir do próximo ano, não haverá produção de eletricidade com base em carvão e virado o ano de 2035 deixam de ser comercializados automóveis movidos exclusivamente com combustíveis fósseis.

Outro dos objetivos é que pelo menos 13 megatoneladas de dióxido de carbono sejam absorvidas pelas florestas entre 2045 e 2050.

Num momento em que a letra da canção de Jorge Palma foi trazida para o discurso político português, convém não esquecer:

“Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem”

Foto D.R Dominika Zarzycka

– Notícia do Expresso, jornal parceiro do POSTAL

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