Foi no verão de 2019 que um emblemático comboio turístico em Portugal cessou atividade, pondo fim a um percurso que durava há seis décadas. Desde então, os carris ficaram cobertos por areia e vegetação, e as carruagens deixaram de transportar os veraneantes habituais para a praia. Guardadas num hangar, esperam agora por uma nova oportunidade de voltar a circular. O cenário poderá mudar em breve, com planos concretos para a sua recuperação.
Projeto liderado por investidor francês
O Transpraia ligava a praia da Costa da Caparica à Fonte da Telha, num percurso de nove quilómetros, com vinte paragens. Gregory Bernard, cidadão francês e atual proprietário, conheceu o comboio pouco antes do seu encerramento. Produtor de cinema e investidor, mudou-se em 2017 para a Caparica em busca de uma vida mais serena e próxima do mar. A paixão pelo surf e a ligação emocional ao Transpraia motivaram-no a adquirir o comboio após a sua desativação.
Refere a Mensagem de Lisboa que desde 2023 decorrem trabalhos de recuperação da infraestrutura e das carruagens. As intervenções incluem a análise dos arquivos históricos e a reparação de troços afetados pelo tempo e pelas condições naturais. O objetivo é devolver ao Transpraia a sua funcionalidade, respeitando a identidade original. Segundo Gregory, o investimento inicial foi inferior a um milhão de euros, mas será necessário muito mais para concluir o projeto.
Testes técnicos assinalam avanço no processo
Atualmente estão a ser realizados testes com o comboio em secções da linha, com o intuito de avaliar o seu desempenho e estado de conservação. Estes ensaios fazem parte de uma fase preliminar que antecede a possível reabertura do serviço. “Estamos a realizar passeios de teste com o comboio em algumas partes das linhas para entendermos como funciona”, afirma o proprietário à mesma publicação. A previsão aponta para uma operação demonstrativa em 2025, caso haja aprovação oficial.
Para que o Transpraia possa regressar de forma efetiva, será necessária a autorização das entidades competentes, como a Câmara Municipal de Almada. Além disso, a execução do projeto depende de parcerias entre o setor público e privado. A equipa responsável trabalha com a meta de reativar o serviço no verão de 2026. Até lá, continuam os estudos técnicos e os contactos institucionais necessários à sua viabilização.
Desafios burocráticos condicionam reativação
A burocracia associada ao projeto tem dificultado o progresso esperado. Gregory aponta a falta de clareza nos processos como uma das maiores barreiras. Contactada pela Mensagem de Lisboa, a Câmara de Almada afirmou não ter novidades a acrescentar. No entanto, declarações anteriores da presidente Inês de Medeiros revelam o interesse da autarquia em modernizar e expandir o Transpraia, com a possibilidade de o ligar à Trafaria, criando uma conexão com a Estação Fluvial de Belém.
A deslocalização do terminal do Transpraia, em 2007, para uma zona mais afastada do centro da Caparica, foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a sua queda. Com essa mudança, a faturação do serviço caiu cerca de 60%, segundo declarações de antigos administradores. A nova proposta pretende corrigir esse afastamento, reaproximando o comboio do centro urbano e de outras infraestruturas de transporte.
Sustentabilidade no centro da nova proposta
Entre os objetivos do projeto está a transição para um modelo de mobilidade mais sustentável. A eletrificação progressiva do comboio está em análise, com diferentes cenários de custos para a conversão de uma a quatro composições. “Faremos uma transição para tornar os comboios mais sustentáveis”, afirma Gregory à mesma fonte. Apesar da modernização, a intenção é manter a imagem clássica do Transpraia, respeitando a sua história e ligação à comunidade.
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Os planos de expansão incluem ainda a possibilidade de estender a linha ao centro da Caparica ou até à rede de metro. Contudo, essas propostas continuam a ser apenas ideias, sem acordos firmados com as autoridades locais. Gregory manifesta o desejo de ver avanços nos próximos meses. O equilíbrio entre tradição e inovação tem sido uma preocupação constante ao longo do processo de reabilitação.
Estudos apontam impacto na mobilidade
A equipa do Transpraia realizou estudos internos sobre os efeitos da reativação do serviço na mobilidade local. As conclusões apontam para uma possível redução de 10% no tráfego automóvel e de cerca de 20% no estacionamento ilegal. Este impacto será particularmente relevante nos meses de verão, quando o número de visitantes aumenta significativamente e a pressão sobre as vias rodoviárias é maior.
Não existe ainda uma tabela oficial para os preços dos bilhetes, mas há a intenção de praticar valores acessíveis para os residentes e visitantes. Estão a ser consideradas modalidades, como passes diários e passes de verão. Gregory revelou ainda o interesse em integrar o serviço no sistema de transportes públicos da região. Esta integração permitiria uma utilização mais ampla e articulada com outros meios de transporte.
Apoio da comunidade tem sido fundamental
O envolvimento da comunidade tem sido um dos pilares do projeto de reativação do Transpraia. A Associação Amigos do Transpraia tem organizado diversas atividades de promoção e angariação de fundos. Através de exposições, eventos e campanhas solidárias, os membros da associação têm contribuído para manter viva a memória do comboio e sensibilizar para a importância da sua recuperação.
Entre 29 de maio e 9 de junho, a associação promove uma exposição de arte e uma venda solidária, com a participação de artistas locais e figuras como Vhils. Os fundos angariados serão destinados à continuação dos trabalhos de restauro. “Desde que tornámos pública a compra do Transpraia, recebemos um enorme apoio das pessoas. É um sentimento unânime, em que toda a gente quer que o Transpraia volte à vida”, afirma Gregory em declarações ao portal sediado na capital portuguesa.
O Transpraia não é apenas um meio de transporte: representa memórias afetivas para muitos residentes da Caparica. “Desde pequeno me lembro do comboio. É uma mais-valia”, partilhou um vendedor local, que preferiu manter o anonimato. Outro morador acrescenta: “Dá mais vida à Costa.” Estas opiniões reforçam a importância simbólica do regresso do comboio para a identidade da zona.
Regresso com forte carga emocional
Gregory Bernard admite o impacto pessoal que a reativação do Transpraia terá para si. “Eu serei o primeiro cliente e vou chorar de alegria, se puder estar na primeira viagem de volta”, declarou.
A concretização deste projeto depende ainda de vários fatores técnicos e administrativos, mas a determinação da equipa e o apoio da comunidade mantêm o sonho vivo. O regresso do Transpraia poderá marcar uma nova etapa para a Costa da Caparica.
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