O alegado envolvimento de dirigentes partidários com membros do grupo neonazi 1143 e suspeitas de compra de votos nas eleições internas do Chega no Porto está a marcar a atualidade política nacional, depois de novas acusações contra um deputado do mesmo partido terem sido tornadas públicas. O caso cruza investigações judiciais, disputas internas e pedidos de extinção do partido.
Um arguido no processo relacionado com o grupo 1143 acusou o deputado do Chega Rui Afonso de ter comprado votos a membros daquela organização, desmantelada a 20 de janeiro pela Polícia Judiciária, na chamada operação “Irmandade”.
Segundo o jornal Público, Tirso Faria, identificado como coordenador do núcleo de Santo Tirso do 1143, afirmou que Rui Afonso “inscreveu dezenas de membros [do 1143] no partido, pagou-lhes meses de quotas e quantias para irem votar”.
Valores entre 3.500 e 3.800 euros
“Ao que sei, os valores envolvidos andarão entre 3.500 e 3.800 euros”, declarou Tirso Faria, que é também militante do Chega e antigo vice-presidente da concelhia do partido em Santo Tirso. A direção distrital liderada por Rui Afonso venceu as eleições internas do Chega no Porto, em setembro de 2023. Contudo, de acordo com o matutino, não foi divulgado o universo total de votantes nesse ato eleitoral interno.
O mesmo arguido sublinhou que “o Rui Afonso não deu dinheiro ao 1143 enquanto organização”, mas reiterou que “inscreveu dezenas de membros no partido, pagou-lhes meses de quotas e quantias para irem votar”.
Alegadas ligações a outros grupos
Tirso Faria afirmou ainda que o deputado do Chega, Rui Afonso, “fez o mesmo com gente dos Super Dragões”, claque de apoio ao FC Porto, acrescentando que essa parte estaria “controlada por outros dirigentes”.
Também Artur Carvalho, ex-adjunto de Rui Afonso na distrital do Chega no Porto, declarou ao Público que “terão entrado mais de cem membros desse [o 1143] e de outros grupos e ouvi falar em pagamentos acima de 3.500 euros”. “Numa reunião, questionámo-lo, mas ele riu-se e passou adiante. Nunca acedi à base de dados. Toda a informação relevante está na posse do trio Rui Afonso, Marcus Santos e Nuno Pontes”, afirmou o ex-dirigente, citado pela mesma fonte.
Artur Carvalho anunciou a saída do partido a 28 de novembro, justificando que permaneceu durante algum tempo por considerar que ainda era possível “questionar, tentar resolver problemas e impedir outros”, mas que existiam “demasiadas habilidades”.
Operação “Irmandade” e suspeitas criminais
A 20 de janeiro, a Polícia Judiciária deteve 37 pessoas no âmbito da operação “Irmandade” e constituiu 15 arguidos por suspeita da prática dos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensa à integridade física qualificada e detenção de arma proibida.
O Ministério Público alega que o grupo 1143 estaria a preparar-se para assumir uma natureza paramilitar, antecipando uma eventual “guerra racial”. Segundo a investigação, estariam também a ser organizadas, para 2026, duas ações com ofensas ao profeta Maomé, com o objetivo de provocar reações negativas ou mesmo violentas por parte da comunidade muçulmana em Portugal.
Este grupo seria liderado por Mário Machado, incluindo a partir da prisão, onde se encontra a cumprir pena desde maio de 2025, noutro processo por discriminação e incitamento ao ódio e à violência.
Prisões preventivas e desenvolvimentos judiciais
Em 24 de janeiro, o Tribunal Central de Instrução Criminal determinou que cinco dos 37 alegados membros do 1143 aguardassem o desenrolar da investigação em prisão preventiva. Os restantes 32 arguidos foram libertados. Vinte e nove ficaram obrigados a apresentações semanais na esquadra da área de residência e três ficaram apenas sujeitos a termo de identidade e residência, de acordo com a mesma fonte.
Entretanto, a 4 de fevereiro, o advogado António Garcia Pereira invocou ligações do Chega ao grupo 1143 e recordou uma sentença relacionada com a retirada de cartazes de André Ventura contra ciganos para reforçar o pedido de extinção do partido.
No final de outubro do ano passado, Garcia Pereira apresentou uma queixa dirigida ao procurador-geral da República para que o Ministério Público acione mecanismos legais com vista à extinção do Chega, por considerar que o partido viola a Constituição.
Num novo requerimento enviado ao Ministério Público, citado pela Lusa, o advogado volta a defender a extinção do partido, alegando a sua “evidente natureza, sucessivamente reafirmada e reforçada, racista e fascista”. O caso, de acordo com o Público, continua sob investigação e deverá conhecer novos desenvolvimentos à medida que o processo judicial avance e sejam apuradas responsabilidades.
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