Por vezes, o passado guarda histórias que merecem ser lembradas com mais frequência. Algumas delas revelam não só momentos de dor, mas também episódios de solidariedade e transformação que marcaram comunidades inteiras. É o caso de um acontecimento que, no final do século XIX, mudou para sempre o destino de uma pequena aldeia de pescadores na margem sul do Tejo, que foi obrigada a ‘renascer’ das cinzas, tornando-se hoje em dia numa cidade que é dos destinos balneares favoritos dos portugueses.
Um incêndio que mudou tudo
Na madrugada de 21 de julho de 1884, um incêndio reduziu a cinzas as cabanas dos pescadores da Caparica. As construções eram frágeis, feitas de madeira e materiais improvisados, e não resistiram ao avanço das chamas. Cerca de 150 pessoas ficaram sem abrigo, sem pertences e sem qualquer alternativa imediata, segundo a VortexMag.
Até então, poucos fora daquela comunidade sabiam das condições em que viviam os pescadores da margem sul. Mas, desta vez, a tragédia foi impossível de ignorar. Da mesma, nasceu uma cidade que é conhecida hoje em dia como Costa da Caparica.
A resposta da sociedade lisboeta
O apelo chegou depressa à imprensa, que descreveu a miséria vivida pelas famílias desalojadas. As imagens de crianças sem roupa, sem comida e sem proteção mobilizaram a capital.
A solidariedade veio de vários setores: o Cardeal-Patriarca distribuiu esmolas, a Câmara de Almada organizou subscrições, e até o Teatro da Rainha doou parte das receitas das suas sessões, de acordo com a mesma fonte.
Entre as muitas iniciativas, destaca-se um concerto de cinco bandas militares que reuniu cerca de três mil pessoas. Houve ainda uma corrida de “toirinhas” em Seteais, organizada por jovens da aristocracia, que conseguiu angariar uma quantia significativa através da venda de bilhetes e peditórios, conta ainda a mesma fonte.
Nomes de peso na lista de doadores
A onda de apoio incluiu figuras influentes da época. O banqueiro Henry Burnay entregou um cheque de 90 mil réis. O próprio rei D. Luís contribuiu com uma bolsa de prata para leilão. Até Rafael Bordalo Pinheiro, conhecido pelas suas críticas mordazes, deixou de lado a sátira e juntou-se à causa.
O momento foi de rara união entre diferentes classes sociais, com um objetivo comum: reconstruir a aldeia dos pescadores da Caparica.
Um homem por trás da reconstrução
De acordo com a fonte acima citada, no centro desta mobilização esteve Jaime Artur da Costa Pinto, deputado por Almada. Ao contrário de muitos, não se limitou a palavras. Mobilizou contactos políticos, conseguiu barracas de campanha para os desalojados e garantiu que os fundos recolhidos fossem aplicados com rigor.
Foi também graças ao seu empenho que nasceu a Associação de Beneficência da Costa da Caparica, presidida pelo marquês de Fronteira e Alorna, que viria a assegurar a construção de habitações permanentes.
Recomendamos: Estas ilhas portuguesas estão ‘cheias’ de tarântulas e só lá entra quem tem autorização
Uma nova aldeia nasce das cinzas
Menos de três anos após o incêndio, em março de 1887, os pescadores receberam as chaves das novas casas. A aldeia renascia com ruas alinhadas, construções em alvenaria e uma estrutura urbana pensada para garantir melhores condições de vida.
A Caparica começava, assim, a sua transformação de aglomerado precário para povoação organizada.
O reconhecimento que não chegou
Apesar do seu papel central neste processo, Costa Pinto não foi reeleito nas eleições seguintes, refere ainda a VortexMag. Uma das possíveis explicações é que os beneficiários diretos da sua ação não tinham direito de voto, dada a legislação da época. A sua dedicação à causa social não teve retorno político.
Ainda assim, deixou um legado que se estendeu a outras regiões, como Almada, Cascais e Oeiras, onde foi responsável por impulsionar diversas infraestruturas.
Uma história quase esquecida
Com o passar do tempo, a Costa da Caparica transformou-se num destino turístico. As ruas e casas construídas com tanto esforço foram sendo substituídas ou absorvidas pelo crescimento urbano. Muitos dos pescadores acabaram por ser deslocados para bairros periféricos.
Hoje em dia, poucos conhecem esta história de tragédia, solidariedade e reconstrução que está na origem daquela que é agora uma das zonas balneares mais conhecidas do país.
Leia também: Comprou este ingrediente no Pingo Doce? Loja pede que o devolva e garante reembolso
















