Está a chegar a mudança de hora e, como acontece todos os anos, regressa a mesma dúvida: afinal, adiantamos ou atrasamos os relógios? A transição para o horário de inverno acontece já na madrugada deste domingo, e traz algumas implicações que vão além da simples alteração no mostrador.
Na prática, os relógios atrasam uma hora, marcando o fim do horário de verão e o regresso a dias mais curtos. Às 2h da madrugada de domingo, 27 de outubro, os ponteiros devem recuar para a 1h, prolongando ligeiramente o descanso dessa noite.
A medida é aplicada em toda a União Europeia e tem como objetivo adaptar os horários humanos à luz solar, aproveitando melhor as horas de claridade durante o inverno. No entanto, esta rotina semestral tem vindo a ser cada vez mais questionada.
Uma tradição que pode estar perto do fim
A mudança de hora é uma prática com mais de um século, introduzida durante a Primeira Guerra Mundial para poupar energia. Contudo, os estudos recentes mostram que o impacto económico é hoje residual e que os efeitos sobre a saúde podem ser mais significativos do que se pensava.
Em Portugal, o Observatório Astronómico de Lisboa é o organismo responsável por coordenar a aplicação do horário legal. Apesar das discussões em Bruxelas sobre a abolição da mudança bianual, a Comissão Europeia ainda não avançou com uma decisão definitiva.
Alguns países do norte da Europa têm defendido o fim da alteração de hora, alegando que as variações no sono e na exposição solar aumentam os níveis de fadiga e de irritabilidade.
Consequências na saúde e no dia a dia
De acordo com especialistas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a mudança de hora pode causar pequenas perturbações no ritmo biológico, sobretudo em pessoas mais idosas ou com horários de trabalho rígidos.
A adaptação costuma demorar entre dois a cinco dias, dependendo da sensibilidade de cada pessoa. “O corpo precisa de um curto período de reajuste, semelhante ao que acontece com o jet lag”, explica o médico e cronobiologista Luís Monteiro, citado pelo Público.
Entre os sintomas mais comuns estão a sonolência diurna, dificuldades de concentração e ligeiras alterações no humor. No caso das crianças, é frequente um aumento da irritabilidade e uma menor qualidade do sono nos primeiros dias após a mudança.
Impacto na segurança rodoviária
Mas as consequências não se limitam ao bem-estar. O Automóvel Club de Portugal (ACP) tem alertado para o aumento do risco de acidentes nos dias seguintes à mudança de hora, em especial nas primeiras semanas do horário de inverno.
Com o pôr do sol a ocorrer mais cedo, as deslocações ao fim do dia passam a acontecer já com menos luz natural, reduzindo a visibilidade e aumentando a probabilidade de distrações. O ACP aconselha os condutores a redobrarem a atenção, em especial nas zonas urbanas e junto a passadeiras.
Os estudos europeus indicam que o número de atropelamentos tende a subir ligeiramente nas semanas seguintes à alteração horária. O mesmo se aplica ao risco de acidentes laborais, devido ao aumento da fadiga.
Preparar a mudança sem stress
Para minimizar os efeitos da mudança, recomenda-se que, nos dias anteriores, se vá ajustando gradualmente o horário de deitar e acordar, cerca de 10 a 15 minutos por dia. Evitar café, álcool e dispositivos eletrónicos antes de dormir também ajuda o organismo a adaptar-se mais rapidamente.
Outra dica é aproveitar a hora extra de descanso para dormir mais um pouco, em vez de prolongar o tempo em frente ao ecrã. O descanso adicional facilita a adaptação ao novo ritmo de luz solar.
Debate que continua em aberto
Apesar de várias tentativas de acabar com a mudança de hora, o tema continua sem consenso na Europa. O Parlamento Europeu aprovou em 2019 uma proposta para permitir que cada país escolhesse manter ou abolir a alteração, mas o processo ficou suspenso.
Em Portugal, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e o Observatório Astronómico de Lisboa têm defendido a manutenção do modelo atual, argumentando que o país beneficia da coordenação horária com o resto da Europa Ocidental.
A última noite com uma hora extra
Assim, este domingo marca o regresso do horário de inverno, que vigorará até 29 de março de 2026, data prevista para a próxima mudança. Até lá, as tardes serão mais curtas, mas as manhãs terão um pouco mais de luz.
Por agora, resta aproveitar a última madrugada com uma hora a mais, e lembrar-se de acertar os relógios antes de se deitar.
















