Sua mãe, natural de Tavira, talvez nunca tivesse antevisto o alcance telúrico e a centralidade cultural que o seu filho, António Ferro, viria a assumir no Portugal do século XX. Volvidos exatamente setenta anos sobre a sua morte, ocorrida em 1956, a herança intelectual, literária e política deste vulto do Modernismo e do Estado Novo permanece um fulcro inesgotável de debate, análise e desconstrução. A efeméride serve de mote para um ambicioso colóquio científico e evocativo, repartido entre o Palácio da Independência, em Lisboa, e a Fundação António Quadros, em Rio Maior, reunindo especialistas de múltiplas latitudes académicas para dissecar as suas multifacetadas encarnações: o jornalista audaz, o dramaturgo, o esteta do poder, o diplomata e o impulsionador das vanguardas.
Pensar António Ferro setenta anos depois é penetrar nos labirintos da complexa “Política do Espírito”, um conceito que fundiu a urgência da modernidade artística com os imperativos ideológicos e propagandísticos de um regime autoritário. Ferro não foi um mero burocrata da cultura; foi, sim, o cenógrafo de uma nação idealizada, operando uma verdadeira “estética do poder” que conseguiu, de forma paradoxal, congregar linguagens vanguardistas e manifestações da cultura popular. O percurso analítico deste aniversário inicia-se na capital, a 19 de Junho, mergulhando no cerne das suas primeiras cumplicidades e visões artísticas.
Lisboa: entre a vanguarda, a amizade com pessoa e a imagem pública
A primeira jornada do colóquio, acolhida pelo Palácio da Independência, lança luz sobre a densidade literária e a cenografia política que Ferro desenhou. Um dos eixos mais fascinantes reside na sua profunda e umbilical ligação a Fernando Pessoa. Através dos vestígios deixados na própria biblioteca privada do criador do Livro do Desassossego e da análise das suas correspondências e distâncias conceptuais, o evento reconstrói uma das dinâmicas intelectuais mais fecundas do Modernismo português — uma relação de mútua admiração definida como “tão longe, tão perto”.

Paralelamente, a dimensão performativa e expositiva de Ferro surge sob o microscópio da crítica contemporânea. A sua ação enquanto mentor da icónica Exposição do Mundo Português (1940) é reavaliada sob a ótica da desconstrução e da performance crítica, evidenciando como a propaganda estatal soube instrumentalizar a beleza visual para legitimar o regime. Esta encenação nacionalista contrastava e alimentava-se de outras expressões artísticas, como o teatro de António Ferro e o fenómeno do grupo bailarino “Verde-Gaio”, um projeto em que confluíram de forma pioneira diversas linguagens artísticas, coreográficas e musicais sob o seu olhar atento.
Destaques do painel I e II (Palácio da Independência — Lisboa)
O Teatro de António Ferro – António Braz Teixeira
A Estética do Poder e a Performance Crítica: Desconstruir a Exposição do Mundo Português (1940) – Beatriz Albuquerque
António Ferro em Berna e Roma: Diplomacia Cultural e Propaganda do Estado Novo (1950-1956) – Carla Ribeiro
Na Biblioteca de Pessoa: Vestígios de António Ferro – Maria do Céu Estibeira
Pessoa e Ferro: Tão Longe, Tão Perto – Ricardo Belo de Morais
António Ferro e o Verde-Gaio: Convergência de Linguagens – Ana Margarida Chora
«A Grande Kodak do Jornalismo Português»: A Fotografia e a Construção da Imagem Pública – Carlos Alberto Osório
Dois Modernistas, Duas Posturas: António Ferro e Almada Negreiros – Celina Silva
O colóquio não negligencia a face jornalística de António Ferro, celebrizado como “a grande Kodak do jornalismo português”, um epíteto que espelha o seu estilo visual, direto e instantâneo na captura da realidade, fundamental para a posterior edificação da sua própria imagem pública e da do próprio Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. A sua postura modernista é igualmente confrontada com a de outros gigantes da sua geração, como Almada Negreiros, revelando afinidades eletivas e clivagens metodológicas intransponíveis na gestão da rutura com o passado.
Ética, transgressão e legado familiar
A fechar o primeiro dia de reflexões, os investigadores debruçam-se sobre as fraturas morais e artísticas da sua obra. A dualidade entre a ética e a estética da transgressão mapeia um autor que, ao mesmo tempo que servia uma ordem corporativa, se nutria de impulsos literários profundamente disruptivos, visíveis na sua poesia e nos seus ensaios iniciais. O eco da sua ação estendeu-se além-fronteiras, impulsionando carreiras de artistas como o escultor Delfim Maya na Exposição Internacional de Nova Iorque em 1939, ou a pintora Estrela Faria, cuja esperança e brilho criativo pontuaram a época áurea do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN).
Um aspeto de crucial relevância é a transmissão da sua herança espiritual a seu filho, António Quadros. Através das leituras cruzadas propostas por filósofos e ensaístas contemporâneos, percebe-se de que forma o pensamento de António Quadros constitui uma filiação espiritual direta, mas singularmente autónoma, que procurou interpretar e conferir um retrato breve, mas incisivo, da monumentalidade do pai.
Rio Maior: a projeção internacional, o turismo e a “vida moderna”
No segundo dia, a 20 de junho, os trabalhos deslocalizam-se apropriadamente para a Fundação António Quadros, em Rio Maior, guardiã institucional de grande parte desta memória viva. Aqui, o foco alarga-se para a escala internacional e para as políticas de projeção identitária que Ferro liderou. A mítica revista Panorama (1941-1949) surge como objeto de estudo central, demonstrando como Ferro conseguiu articular a trindade “Identidade, Ideologia e Turismo” para vender um Portugal pitoresco, porém moderno, ao exterior.

É também neste espaço que se debatem aspetos menos conhecidos, mas altamente meritórios, da sua biografia política, tais como o papel ativo de António Ferro no auxílio aos refugiados intelectuais da Segunda Guerra Mundial que se encontravam em trânsito por Portugal entre 1939 e 1945. Longe de uma visão unidimensional, Ferro emerge como um diplomata de sensibilidade humanista apurada num dos períodos mais negros da história europeia.
Destaques do painel IV, V E VI (Fundação António quadros — Rio Maior)
Identidade, Ideologia e Turismo: Portugal na Revista Panorama (1941-1949) – A. Quintas, P. Costa Soares, R. Alexandre
O Papel de António Ferro no Auxílio aos Refugiados Intelectuais da II Guerra Mundial – Fábio Alexandre Faria
António Ferro, Salazar e a “Vida Moderna” na Exposição de Paris (1937) – Paulo Baptista
Bruxelas, um Passo de Ferro na Política do Espírito – Joaquim Pinto da Silva
António Ferro e Gabriele D’Annunzio: A Aventura Fiumana – José Almeida
Leviana: A Interpenetração de Linguagens numa Novela Modernista – Paula Oleiro
Modernidade em Cena: A Performance de António Ferro no Brasil de 22 – Andreia Castro
António Ferro no Espaço Familiar e a Paixão pelo Cinema – Madalena Ferreira Jordão e Mafalda Ferro
A sua odisseia internacional estendeu-se de Paris (1937) a Bruxelas, sem esquecer a sua marcante passagem diplomática por Berna e Roma nos seus últimos anos de vida (1950-1956). Os debates abordam ainda as suas influências literárias e políticas mais arrojadas, desde a aproximação juvenil a Gabriele D’Annunzio na “aventura fiumana” até à teorização precoce na sua Teoria da Indiferença (1920) ou na audaciosa novela modernista Leviana, obra de rutura na prosa nacional.
O encerramento do colóquio restitui o homem à sua dimensão mais íntima e passional. Através dos testemunhos dos seus descendentes e de investigadores da sua intimidade, desvelam-se o António Ferro privado, o ambiente vivido no espaço familiar, a gratidão eterna de artistas que protegeu — como o bailarino e coreógrafo Francis Graça — e a sua avassaladora paixão pelo cinema, arte mecânica e modernista por excelência que ele tentou infatigavelmente radicar em Portugal.
Setenta anos após a sua partida, António Ferro continua a desafiar categorizações fáceis. Entre as “mulheres de ferro em batalha de flores” e os altares da propaganda de Estado, o seu legado permanece como um espelho incontornável para compreender as tensões entre a arte, o poder e a construção da identidade portuguesa contemporânea.

NOTA PESSOAL: Tinha sete anos quando António Ferro faleceu e não o conheci. Mas o seu nome era-me tão familiar como um tio da América ou do Brasil.
A minha mãe trabalhou no Palácio Foz desde o início dos anos 40, e o meu pai, jornalista e publicista como António Ferro, cruzou-se com ele amiúde e colaborou em várias realizações como autor de textos, locutor ou tradutor para alemão.
Não conheci a pessoa em corpo de António Ferro, mas o seu espírito era uma visita assídua lá de casa.
Programa do Colóquio “António Ferro, 70 Anos Depois” (junho de 2026). Organização e referências bibliográficas consultadas a partir de: https://iflb.webnode.page/junho-2026-coloquio-antonio-ferro-70-anosdepois/
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