Há equipamentos no carro que muitos condutores nunca usam, mas que podem fazer diferença no momento mais crítico. São funções discretas, instaladas para atuar em silêncio quando algo corre mal, e que dependem de uma tecnologia que está prestes a mudar em vários países europeus.
Segundo o Notícias ao Minuto, em causa está o sistema eCall, obrigatório nos veículos novos vendidos na União Europeia desde 2018, que permite fazer automaticamente uma chamada para o 112 em caso de acidente grave. O problema é que muitos destes sistemas dependem das redes 2G e 3G, cujo desligamento progressivo pode afetar milhões de automóveis.
O que faz esta função
O eCall foi criado para acelerar a resposta dos serviços de emergência em caso de acidente. Quando deteta uma colisão grave, o sistema liga automaticamente para o número europeu de emergência, 112, e transmite dados essenciais, como a localização do veículo, a hora do acidente e o sentido de marcha.
A função também pode ser ativada manualmente através de um botão no interior do carro. A utilidade é particularmente relevante quando os ocupantes ficam inconscientes ou impossibilitados de pedir ajuda.
Redes antigas estão a ser desligadas
A preocupação surge porque muitos sistemas eCall instalados nos veículos recorrem às redes 2G e 3G para comunicar. Ao longo dos próximos anos, vários países da União Europeia vão desligar estas redes mais antigas e migrar para tecnologias mais recentes, como 4G e 5G.
Um relatório orientado pela LS Telcom alerta que, se nada for feito, cerca de 64 milhões de veículos poderão perder esta funcionalidade. Em Portugal, segundo o Notícias ao Minuto, o desligamento da rede 3G estava previsto para 2025. O documento citado não indicou uma data concreta para o fim da rede 2G no país.
Falta de sincronização preocupa
O relatório identifica um problema central: a falta de sincronização entre o calendário de desligamento das redes antigas e a disponibilidade de soluções para os automóveis que já estão em circulação. Ou seja, as redes podem desaparecer antes de haver alternativas acessíveis e generalizadas para manter o sistema a funcionar.
A recomendação passa por Bruxelas pedir formalmente aos Estados-membros que garantam suporte às redes antigas, pelo menos até 2030. A ideia seria evitar que milhões de carros perdessem prematuramente uma função de segurança instalada de origem.
Soluções podem chegar pela pós-venda
A longo prazo, a solução deverá passar por sistemas pós-venda. Estas soluções permitiriam atualizar os veículos que ainda dependem de 2G ou 3G, garantindo a ligação aos serviços de emergência mesmo depois do fim dessas redes. O problema é que, segundo o relatório citado, não se espera que estas alternativas estejam disponíveis em massa antes de 2030.
Por isso, os operadores de rede, os fabricantes automóveis e as autoridades europeias terão um papel importante na gestão da transição. O estudo recomenda ainda que qualquer desligamento de redes seja comunicado com pelo menos três anos de antecedência, para permitir planeamento.
Nova tecnologia já está a chegar
A nova geração do sistema, conhecida como NG eCall, já usa redes 4G e 5G. Esta tecnologia começa a estar presente em veículos mais recentes e será obrigatória em todos os novos automóveis de passageiros comercializados na União Europeia a partir de 1 de janeiro do próximo ano.
Desde janeiro, os modelos com nova homologação já têm de incluir esta versão atualizada. O risco, portanto, está sobretudo nos veículos já em circulação que usam a versão anterior do eCall.
Sistema pode salvar vidas
Apesar de existirem dúvidas sobre a eficácia concreta do sistema, o relatório encomendado pela Comissão Europeia sublinha o impacto positivo do eCall. Com base num estudo realizado na Finlândia, estima-se que a funcionalidade possa ter ajudado a salvar entre 80 e 90 vidas na União Europeia entre 2019 e 2023.
O próprio relatório nota que, nesse período, a taxa de penetração do eCall ainda era baixa. O sistema pode ser especialmente importante em acidentes graves, quando há atraso entre uma chamada manual e a chamada automática.
O que significa para os condutores
O alerta não quer dizer que todos os carros com eCall vão perder a função de um momento para o outro. Tudo dependerá do país, do operador, da rede disponível e da tecnologia instalada no veículo.
Ainda assim, o caso mostra como a transição das redes móveis pode afetar sistemas de segurança automóvel que muitos condutores dão por garantidos. Um botão SOS ou uma chamada automática só são úteis se o carro conseguir comunicar com a rede.
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