Durante mais de uma década, um modelo de investimento baseado na valorização de vinhos e bebidas espirituosas atraiu milhares de investidores, incluindo cerca de 500 portugueses. A promessa era simples: aplicar um mínimo de 5.000 euros e aguardar pela revenda futura de garrafas consideradas raras ou de luxo, com retornos anuais acima de 10 por cento.
O encerramento repentino da empresa responsável por este negócio, a OenoFuture Limited, veio expor fragilidades profundas no modelo apresentado aos clientes. Sem acesso aos seus investimentos e sem provas da existência dos ativos, muitos investidores perceberam que o capital aplicado poderá estar irremediavelmente perdido.
Modelo assente na confiança e na distância
De acordo com o jornal Correio da Manhã, a empresa tinha sede em Londres e apresentava-se como corretora especializada na compra e venda de vinhos finos e whiskies raros, promovendo a ideia de um mercado exclusivo e pouco acessível ao público em geral.
Segundo a mesma fonte, os investidores nunca chegavam a ver as garrafas adquiridas, sendo-lhes explicado que os ativos ficavam armazenados num entreposto internacional, permitindo transações sucessivas sem contacto físico com o produto.
Onde estariam os ativos prometidos
Escreve o jornal que as garrafas alegadamente ficavam depositadas no London City Bond, um grande armazém junto ao rio Tamisa que funciona como zona franca, evitando a tributação enquanto os produtos não fossem vendidos. Acrescenta a publicação que este sistema permitia que os lucros resultassem apenas da mudança de titularidade das garrafas, sem que estas saíssem do armazém ou fossem entregues aos investidores.
Os problemas tornaram-se mais evidentes em 2023, quando a empresa registou uma quebra significativa na faturação anual. Conforme a mesma fonte, essa descida terá rondado os sete milhões de euros face ao ano anterior.
Nesse contexto, o diretor executivo da empresa, Michael Doerr, abandonou funções, num momento em que vários investidores começaram a pedir o resgate do capital ou a identificação formal dos ativos em seu nome.
Garrafas inexistentes e vendas duplicadas
Segundo o mesmo jornal, foi nessa fase que alguns clientes perceberam que não existia qualquer registo de garrafas associadas aos seus investimentos no London City Bond. Em certos casos, há suspeitas de que o mesmo barril de whisky tenha sido vendido várias vezes a investidores diferentes, levantando dúvidas sobre a existência real dos produtos transacionados.
A empresa encerrou atividade poucos dias antes do Natal, deixando de responder a contactos e comunicações. Os responsáveis desapareceram, sem prestar esclarecimentos aos investidores.
Segundo a mesma fonte, o que durante anos foi apresentado como um investimento sólido passou a ser encarado como um possível esquema em pirâmide, cuja sustentabilidade dependia da entrada constante de novos clientes.
De acordo com o Correio da Manhã, já foram apresentadas queixas junto da Polícia Judiciária (PJ) em Portugal, embora os processos estejam a ser encaminhados para as autoridades britânicas, nomeadamente para o departamento de fraudes da polícia inglesa.
Acrescenta a publicação que os investidores portugueses perderam valores entre 5.000 e 100.000 euros por pessoa, admitindo agora fortes reservas quanto à possibilidade de recuperar o dinheiro aplicado.
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