Entre homenagens à história social-democrata e promessas para a próxima década, o Pontal reuniu centenas de militantes e simpatizantes no Calçadão de Quarteira, a 14 de agosto, para assinalar os 50 anos da tradicional festa de verão do PSD.
O encontro, que marcou o regresso do partido à atividade política, distinguiu José Mendes Bota como presidente honorário do PSD Algarve, recuperou as memórias de Mateus de Brito, primeiro presidente da distrital de Faro, e serviu de palco a Luís Montenegro para apresentar um balanço da governação e anunciar medidas nas áreas dos transportes, economia, dívida pública e fiscalidade.
Mendes Bota distinguido como presidente honorário
Luís Montenegro e o presidente da distrital de Faro do PSD, Cristóvão Norte, subiram ao palco para homenagear José Mendes Bota, cuja nomeação como presidente honorário tinha sido aprovada por unanimidade pela Assembleia Distrital do partido.
Mendes Bota foi um dos impulsionadores da Festa do Pontal e conta com cerca de quatro décadas de atividade política, durante as quais exerceu funções como autarca, dirigente local e nacional e deputado na Assembleia da República e nas instituições europeias.
Ao agradecer a distinção, o antigo presidente da estrutura algarvia recorreu ao humor.
“Parece que, por unanimidade, na minha ausência, deliberaram atribuir-me este tipo de cargo. Já tenho tacho até ao fim da vida”, ironizou, esclarecendo depois que os responsáveis do PSD não estão na política à procura de cargos.
Mendes Bota recordou o papel do Pontal como ponto de encontro entre militantes e como momento de afirmação de dirigentes que viriam a liderar governos sociais-democratas, mencionando Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro.
O novo presidente honorário destacou ainda o “ecletismo” da festa, que reúne “gente de todas as idades, de todas as gerações”.
“É esse partido que quero continuar a ver aqui”, afirmou.
Mendes Bota reconheceu que a história do PSD não foi feita apenas de sucessos eleitorais, mas considerou que o encontro algarvio conserva “um espírito diferente, do reencontro” e demonstra que o partido é “uma grande família”, que trabalha para o bem da organização, “mas sobretudo para o bem de Portugal”.
Primeiro líder distrital recorda partido construído “do zero”
A exposição comemorativa instalada à entrada do recinto recuperou imagens das cinco décadas da Festa do Pontal, incluindo uma fotografia de Mateus de Brito a discursar perante os participantes em 1978.
Natural de São Brás de Alportel e atualmente com 95 anos, Mateus de Brito foi o primeiro presidente da Comissão Política Distrital de Faro do PSD.
O antigo dirigente recordou que o partido começou sem uma estrutura consolidada na região e destacou o trabalho desenvolvido durante os primeiros anos.
O PSD “foi um partido que nasceu sem bases nenhumas”, afirmou, considerando que a organização criada nessa fase permitiu transformar a formação numa das principais forças de Governo em Portugal.
Engenheiro civil, com escritórios em Londres e uma vida profissional que descreveu como “intensíssima”, Mateus de Brito contou que se inscreveu no PSD em Loulé e foi informado, após regressar do estrangeiro, de que tinha sido escolhido para liderar a primeira comissão política distrital.
“Tivemos reunião e criei a primeira comissão política distrital, deixei os negócios. Depois, o Sá Carneiro convidou-me para almoçar e para pertencer à comissão política nacional e ao Governo sombra”, relatou.
Passados 50 anos, mostrou-se satisfeito com a evolução do partido e disse continuar a depositar a sua “esperança no PSD”.
O antigo dirigente defendeu que quem vence eleições deve ter condições para governar e ser avaliado no final do mandato. Criticou também a comunicação social e o Chega, partido que classificou como “muito mau” para a democracia.
“Eles dizem que as coisas estão mal, muitas vezes têm razão, mas contribuíram exatamente para isso, procuram arranjar as maiores embrulhadas para o Governo ficar atrapalhado”, afirmou.
Montenegro critica “censura moderna”
No principal discurso da noite, Luís Montenegro acusou o espaço público de valorizar excessivamente polémicas e incidentes, deixando em segundo plano aquilo que considera ser o trabalho mais relevante do Governo.
“Não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só conhecem, sabem e debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos de pequenos incidentes, dos pequenos episódios, e deixar aquilo que é mais importante escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular e comentar a informação”, criticou.
O presidente do PSD afirmou que o partido e o executivo seguem uma cultura de “fazer mais e não falar assim tanto”, admitindo que essa opção “irrita muita gente” que gostaria de ouvir o Governo pronunciar-se diariamente.
“Queremos um Portugal com orgulho em si próprio, com menos maledicência, onde não haja tantos que encarem como um frete dizer aquilo que estamos a fazer bem”, declarou.
Montenegro chegou ao recinto acompanhado pela mulher, Carla Montenegro, percorreu a exposição comemorativa e deixou uma mensagem num mural dedicado aos 50 anos da festa.
Estiveram presentes vários ministros, entre os quais António Leitão Amaro, Ana Paula Martins, Maria do Rosário Palma Ramalho e Manuel Castro Almeida, além do líder parlamentar do PSD, Hugo Soares.
Entre as ausências destacaram-se os ministros Luís Neves, Fernando Alexandre, Paulo Rangel e Joaquim Miranda Sarmento.
Governo “está para durar”
O primeiro-ministro garantiu que o Governo pretende cumprir um ciclo prolongado de reformas, apesar de não dispor de maioria absoluta no parlamento.
“Estamos aqui para durar, estamos aqui para trabalhar, estamos aqui para, convosco, construir um grande futuro para Portugal”, afirmou.
Montenegro admitiu que uma maioria absoluta “dava jeito”, mas afastou a ideia de que a ausência desse apoio parlamentar represente “algum drama”, desde que o executivo consiga continuar a tomar as decisões que considera necessárias.
O chefe do Governo acusou as oposições de terem condicionado a execução orçamental, afirmando que o Orçamento do Estado em vigor inclui mil milhões de euros em medidas decididas pelos partidos da oposição.
“Nós vamos mesmo continuar a reformar o país”, garantiu.
Montenegro defendeu que o Governo deve ser avaliado pelos efeitos concretos das políticas na vida das pessoas, desde o funcionamento dos hospitais e das escolas até aos salários, à administração pública e às deslocações dentro do território.
“É tempo de fazer, não é tempo de adiar. Nós sabemos que um país não avança quando fica à espera. Um país avança quando tem coragem de decidir”, declarou.
Objetivo de repetir década de Cavaco Silva
Ao recuperar os 50 anos de história do Pontal, Montenegro identificou o período entre 1985 e 1995, correspondente aos governos de Aníbal Cavaco Silva, como a década de maior desenvolvimento do país durante a democracia.
O primeiro-ministro afirmou querer que o atual ciclo governativo alcance uma dimensão semelhante.
“Quando aqui estivermos para festejar os 60 anos do Pontal, vamos olhar para esses 60 anos e vamos ver duas décadas que se destacam pelo desenvolvimento que deram a Portugal: a década de 1985 a 1995 e a década de 2024 a 2034”, afirmou.
O líder do executivo reconheceu que continuam por resolver muitos problemas e que existem famílias em situação de dificuldade, mas sustentou que só o crescimento económico permitirá combater de forma duradoura a pobreza.
Privatização da TAP poderá superar expectativas
Montenegro antecipou que a operação de privatização parcial da TAP poderá alcançar um resultado superior ao que era esperado há alguns anos ou mesmo há poucos meses.
O primeiro-ministro não adiantou o desfecho do processo, mas mostrou-se convicto de que a venda permitirá iniciar a recuperação do investimento público realizado na companhia aérea.
“Nós vamos ter um primeiro encaixe com a venda desta percentagem do capital e vamos projetar para o futuro os resultados da empresa para que os respetivos dividendos possam vir paulatinamente a compensar o investimento que lá fizemos”, afirmou.
No mesmo discurso, anunciou que o Estado português chegou a acordo com um grupo espanhol para adquirir 13,7% do capital da REN.
A Pontegadea Inversiones celebrou um contrato com a Parpública para a venda de 91.723.676 ações da empresa, representativas daquela participação.
Montenegro enquadrou o investimento no futuro fundo soberano português, ainda em preparação, e numa política destinada a criar “alicerces para uma economia mais competitiva e mais produtiva”.
Passe ferroviário de 20 euros chega a Lisboa e Porto
Outra das medidas anunciadas em Quarteira foi o alargamento do passe ferroviário verde aos comboios urbanos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
O título, com um custo mensal de 20 euros, deverá ficar disponível no início de setembro.
O passe já permite viajar em comboios por todo o país, com exceção do Alfa Pendular, e passará a abranger também as deslocações ferroviárias dentro das duas áreas metropolitanas.
“Este passe ferroviário verde vai também estar disponível, a partir do princípio já do próximo mês de setembro, para o transporte nas áreas metropolitanas, os transportes urbanos”, garantiu Montenegro.
O dirigente explicou que os utilizadores poderão deslocar-se de comboio dentro das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto pagando 20 euros por mês.
“Isto aproxima as pessoas, isto favorece a mobilidade daqueles que têm que se deslocar para ir trabalhar, para ir estudar, mas também para conhecer o país, mas também para estar mais perto dos seus amigos e das suas famílias”, considerou.
Dívida, IRS e pensões
O primeiro-ministro comprometeu-se igualmente a manter a trajetória descendente da dívida pública e a não deixar ao país uma nova intervenção externa.
A governação, afirmou, não irá “legar nenhuma troika a ninguém”, mas sim “um país a crescer, com emprego e com oportunidades”.
Montenegro reconheceu que a dívida aumentou circunstancialmente no último trimestre, mas antecipou que, no final do trimestre seguinte e no final do ano, será novamente visível a trajetória de descida.
Recordou ainda que, em 2025, a dívida pública ficou abaixo de 90% do Produto Interno Bruto.
“Um país menos endividado é um país com mais recursos e uma economia pode financiar-se de forma mais favorável”, argumentou.
O primeiro-ministro prometeu continuar a reduzir o IRS e a valorizar as pensões mais baixas assim que as condições das finanças públicas o permitam.
Montenegro afirmou que o Governo já baixou o IRS quatro vezes e devolveu aos trabalhadores dois mil milhões de euros em impostos que eram anteriormente cobrados sobre os rendimentos do trabalho.
O presidente do PSD defendeu ainda que Portugal precisa de aumentar não apenas o salário mínimo, mas sobretudo o salário médio.
“Nós temos de subir o salário mínimo, mas temos sobretudo de subir o salário médio, para que as pessoas deixem de estar todas, ou muitas, na base da retribuição em Portugal”, concluiu.
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