A estreia de Portugal no Mundial 2026 não deixou apenas marcas no grupo. O empate frente à RD Congo abriu também espaço a uma leitura crítica na imprensa internacional, onde a permanência de Cristiano Ronaldo no onze voltou a ser colocada no centro do debate.
Num comentário publicado no The Independent, jornal generalista britânico, o jornalista Richard Jolly escreve que Portugal corre o risco de “sacrificar” mais um Mundial pela insistência em construir a equipa à volta de Cristiano Ronaldo, numa análise dura à exibição do capitão português frente à seleção congolesa.
Crítica dura após o empate
O artigo do jornal britânico parte do contraste com Lionel Messi, que, segundo o texto, começou o Mundial ao serviço da Argentina com uma exibição capaz de justificar a aposta da seleção sul-americana no seu veterano.
No caso português, a leitura é diferente. O The Independent defende que Ronaldo já não oferece à equipa a mesma influência no jogo e que a sua presença pode estar a limitar as soluções ofensivas da Seleção Nacional. A expressão mais forte surge logo no enquadramento: Portugal terá jogado, na visão do comentador, com “10 homens e uma estátua”. A frase resume a ideia central do texto, segundo a qual Ronaldo esteve demasiado desligado do jogo.
Ronaldo sem remates à baliza
Cristiano Ronaldo terminou a partida frente à RD Congo sem qualquer remate enquadrado com a baliza. Segundo o The Independent, o avançado português conseguiu três remates, mas nenhum obrigou o guarda-redes Lionel Mpasi a intervir.
O artigo nota ainda que Portugal teve cerca de três quartos da posse de bola, mas produziu pouco perigo efetivo, com um expected goals de apenas 0,69. Para o jornal britânico, esses números não significam apenas falta de serviço ao avançado, mas também dificuldade de Ronaldo em oferecer movimentos que desequilibrassem a defesa adversária. A crítica centra-se na falta de velocidade para atacar a profundidade, na pouca mobilidade para arrastar defesas e na incapacidade de pressionar ou esticar o bloco congolês.
João Neves marcou onde muitos esperavam Ronaldo
O golo português surgiu cedo, aos seis minutos, mas não pelo jogador que muitos poderiam imaginar. Pedro Neto cruzou da esquerda e João Neves, médio natural de Tavira e jogador do PSG, apareceu na área para cabecear para o fundo da baliza.
O The Independent sublinha precisamente esse contraste: mesmo num lance típico de finalização aérea, o marcador foi o médio de menor estatura e não Cristiano Ronaldo. O momento reforçou a narrativa do comentário britânico, que aponta para uma equipa com talento suficiente para encontrar soluções, mas presa a uma estrutura ofensiva centrada num avançado de 41 anos.
Bruno Fernandes terá ficado irritado
O jornal britânico destaca ainda um lance em que Ronaldo rematou ao lado quando Bruno Fernandes surgia em melhor posição nas suas costas. Segundo a análise, o capitão português deveria ter deixado a bola passar para o médio, que estaria livre e terá demonstrado irritação com a decisão do avançado. O episódio é usado no texto como exemplo de uma presença que, mais do que resolver, pode estar a bloquear algumas dinâmicas ofensivas da equipa. Para Richard Jolly, o problema não é apenas Ronaldo não marcar. É o impacto que a sua permanência no centro do ataque pode ter na fluidez ofensiva de Portugal.
Substituições também levantaram dúvidas
Outro ponto criticado foi a gestão de Roberto Martínez durante a partida. Cristiano Ronaldo permaneceu em campo até ao fim, apesar da exibição discreta. Já Bernardo Silva saiu ao intervalo, depois de ter visto cartão amarelo, e Pedro Neto foi substituído aos 70 minutos. Mesmo quando Gonçalo Ramos entrou, não foi Ronaldo quem saiu. O selecionador retirou Vitinha, mantendo o capitão em campo. O The Independent reconhece que há uma lógica aparente em deixar em campo um jogador com 143 golos pela seleção e quase mil golos no futebol profissional quando a equipa precisa de marcar. Mas a leitura do jornal é que essa decisão reforça a ideia de tratamento preferencial.
O peso histórico continua, mas a dúvida cresce
Cristiano Ronaldo disputa o seu sexto Campeonato do Mundo e continua à procura de se tornar o primeiro jogador a marcar em seis edições diferentes da prova. Frente à RD Congo, porém, essa marca não esteve perto de acontecer.
O artigo britânico considera que este é mais um aviso para Roberto Martínez, embora não veja sinais de que o selecionador esteja disposto a retirar Ronaldo da equipa em nome de uma estrutura mais coletiva. A crítica junta-se a debates que já surgiram em torneios anteriores, nomeadamente sobre até que ponto Portugal consegue equilibrar o peso histórico do capitão com as necessidades competitivas da equipa.
Portugal pode ter contas mais difíceis
O empate frente à RD Congo deixou Portugal numa posição menos confortável no Grupo K. O The Independent nota que, se a Seleção Nacional não vencer o grupo, poderá ter um caminho diferente do esperado na fase a eliminar e até falhar um eventual reencontro com Messi nos quartos de final.
A projeção ainda é prematura, mas o arranque não foi o ideal para uma das seleções apontadas como candidata a ir longe no torneio. Com Colômbia e Uzbequistão também no grupo, Portugal fica agora obrigado a reagir rapidamente para evitar complicações numa fase inicial que, no papel, parecia acessível.
















