A mudança de vida de muitos norte-americanos rumo a Portugal tem um ponto em comum: a procura de uma reforma mais viável, num país onde a saúde e o dia a dia não obriguem a contas impossíveis. O caso de Jack Stone, mulher americana de 60 anos, mostra como a pressão financeira ligada ao envelhecimento nos Estados Unidos está a empurrar algumas pessoas para decisões radicais, incluindo vender quase tudo e começar do zero noutro lado, como no seu caso, em Portugal.
Jack Stone mudou-se de Maryland para Portugal no ano passado, levando consigo a gata Olive e deixando claro que não planeia regressar aos Estados Unidos. A decisão, contou ao site especializado em economia e negócios Business Insider, nasceu sobretudo do medo de não conseguir sustentar uma reforma confortável no seu país, mesmo com Segurança Social, numa altura em que os custos com saúde e transporte pesam cada vez mais no orçamento.
As contas da reforma deixaram de fazer sentido
Stone explica que tentou perceber de quanto precisaria para envelhecer com segurança na sua casa em Maryland, contando com despesas médicas, possíveis cuidados associados à idade e o custo normal de manter um estilo de vida estável. A estimativa a que chegou foi de pelo menos dois milhões de dólares, um valor que considerou fora do alcance para a vida que tinha construído.
“Percebi que mesmo tendo Segurança Social não conseguiria sobreviver nos Estados Unidos”, afirmou. “As contas simplesmente não batiam certo.” A partir desse momento, diz que deixou de ver a permanência nos EUA como uma opção realista para o futuro.
Visita a Portugal e decisão de avançar
A mudança começou a ganhar forma depois de uma viagem a Portugal em 2023. Pouco tempo depois, iniciou o processo de visto e avançou com a mudança em agosto do ano seguinte, explicando que quis fazê-lo enquanto ainda se sentia relativamente jovem para enfrentar burocracias, adaptação cultural e reorganização total da rotina.
Stone mudou-se com um visto de longa duração e manteve um emprego remoto nos Estados Unidos, trabalhando como analista clínica numa empresa de serviços tecnológicos. Apesar de continuar a ganhar um salário anual elevado, passou para um regime de prestação de serviços, o que significa que deixou de ter benefícios típicos como férias pagas ou um plano de reforma empresarial, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Um percurso tardio que travou as poupanças
A norte-americana admite que as suas poupanças para a reforma são limitadas, em grande parte porque só começou a ganhar melhor mais tarde do que a maioria das pessoas. Abandonou a escola, voltou a estudar já adulta e só aos 43 anos conseguiu o que descreve como o primeiro salário realmente decente.
“Voltei a estudar aos 38 anos com um diploma equivalente ao secundário e um nível de matemática de terceiro ano”, contou. “Formei-me aos 43 e foi a primeira vez que ganhei mais de sete dólares por hora.” Para Stone, isso reduziu o tempo disponível para acumular poupança, mesmo quando começou a tentar fazê-lo com mais disciplina.
No próprio artigo são referidos vários dados que mostram a incerteza em torno do tema da reforma nos EUA, com estimativas de que muitas pessoas precisariam de cerca de 80% do rendimento pré-reforma para manter o estilo de vida. Também se menciona que muitos norte-americanos acreditam precisar de mais de um milhão de dólares para se reformarem com conforto, enquanto saldos médios em contas de reforma podem ficar muito abaixo desse valor.
“Fiz tudo o que me disseram, e mesmo assim não chega”
Stone não aponta apenas a falta de poupança como problema e deixa uma crítica dura ao sistema económico do seu país, de acordo com a mesma fonte. Defende que muitos trabalhadores seguiram o caminho recomendado, trabalharam durante décadas e continuam a sentir que ficam para trás, enquanto a riqueza se concentra no topo.
“Gostava que o nosso país estivesse a cumprir a promessa feita às pessoas, em vez de favorecer os bilionários”, afirmou. “Trabalhei muito e fiz tudo o que me disseram para fazer, mas mesmo assim continuo muito aquém do que seria necessário.” É neste ponto que surge a frase que mais se destacou no relato: “Fiz-me à vida sozinha e, mesmo assim, continuo muito aquém do necessário.”
A estratégia foi cortar duas despesas-chave
Antes de se mudar, Stone identificou dois custos que via como decisivos para o futuro: saúde e transporte. Num vídeo partilhado nas redes sociais, explicou que acreditava que, ao tirar essas despesas da equação, teria mais hipóteses de envelhecer com conforto.
“E é verdade. Tenho de dizer que retirar essas duas coisas da equação fez uma enorme diferença”, afirmou. Em Portugal, diz estar a poupar mais do que poupava nos Estados Unidos, mesmo mantendo um padrão de vida estável.
Vida sem carro e transporte público como base
Uma das primeiras decisões foi vender o carro, porque não quer um estilo de vida dependente do automóvel. Em Portugal, paga cerca de 40 euros por mês por um passe de metro e dá importância a viver num local onde o transporte público permita autonomia com o passar dos anos.
Explicou, citada pela mesma fonte, que esta escolha tem também um lado emocional e prático: quer evitar ficar isolada e dependente de terceiros quando for mais velha, algo que receava nos EUA se a mobilidade se tornasse mais difícil.
Seguro de saúde e despesas do quotidiano
Na saúde, Stone diz pagar cerca de 89 euros por mês por um seguro privado, sem franquia nem pagamentos adicionais por fora, e afirma gastar menos em medicamentos do que gastava nos Estados Unidos. Refere ainda reduções em despesas como alimentação, internet e telecomunicações.
Sobre o IVA em Portugal, salientou que a taxa normal é de 23%, mas mesmo assim diz que a conta do supermercado ficou cerca de 30% mais baixa do que era nos EUA. Também sublinha que o imposto já está incluído no preço apresentado ao consumidor, o que torna a compra mais previsível.
Casa em Maryland e corte definitivo com os EUA
Stone está a arrendar a casa que tem em Maryland, comprada com um empréstimo associado a benefícios para veteranos, mas afirma que espera vendê-la. Essa intenção reforça a ideia de que a mudança não é temporária e que o regresso aos EUA não faz parte do plano.
Mesmo assim, admite que sente saudades de alguns aspetos do país, sobretudo os invernos com neve e algumas paisagens naturais. “Vivi uma vida muito rica e tive a oportunidade de conhecer lugares incríveis”, disse, citada pela mesma fonte, lembrando memórias ligadas às montanhas e a vários estados onde viveu.
Adaptação e uma nova vida em Portugal
Stone explica que está habituada a mudanças, lembrando que já tinha vivido fora dos Estados Unidos depois do 11 de setembro e que ao longo da vida também se deslocou entre vários estados. “Estou muito confortável com mudanças”, afirmou, acrescentando que a integração em Portugal foi mais simples do que esperava.
Hoje, diz que equilibra trabalho remoto com a criação de um negócio de consultoria e uma vida social ativa, aproveitando encontros locais e a facilidade de deslocação. “Adoro sair de casa, apanhar o metro, atravessar o rio e encontrar-me com um grupo num encontro local”, contou.
Conselhos para quem pensa fazer o mesmo
A norte-americana deixa conselhos práticos para outros americanos que ponderem mudar-se para outro país. Defende que é importante falar com o empregador para confirmar se o trabalho remoto é possível, visitar o destino antes de decidir e não levar tudo o que se tem, porque a mudança pode ser feita de forma mais leve.
Também avisa que não se deve esperar que o novo país seja igual aos Estados Unidos. “O objetivo de mudar para outro lugar é precisamente experimentar a forma de viver desse país”, afirmou, citada pelo Business Insider, defendendo uma atitude de adaptação e respeito pelo estilo de vida local.
Uma mensagem para quem está assustado com a reforma
No final, Stone diz querer passar uma mensagem a quem sente ansiedade em relação à reforma. Na sua perspetiva, muitas pessoas “jogaram o jogo” e seguiram as regras, mas continuam a sentir que não chega, e isso não significa que tenham falhado. A norte-americana acredita que ainda há alternativas, mesmo para quem começa tarde, e que pensar numa mudança pode ser uma das formas de tornar o futuro mais sustentável. Para ela, o essencial é perceber que há opções e que não é preciso enfrentar o problema sozinho.
















