Como investigadora a trabalhar no Algarve, sei bem que a nossa realidade vai muito além do habitual postal turístico. No nosso dia a dia, enfrentamos desafios complexos: secas severas, perda de biodiversidade marinha, degradação costeira e a necessidade urgente de adaptação climática. É precisamente aqui que o Novo Bauhaus Europeu entra na nossa rotina científica. Não como um manifesto abstrato, mas como um roteiro prático e necessário.
O Novo Bauhaus Europeu desafia-nos a quebrar os nossos próprios paradigmas. Ela dita que as soluções que investigamos não podem ser apenas tecnicamente eficazes : têm de ser sustentáveis, inclusivas e respeitar a identidade cultural da região.
Na prática, isto muda a forma como fazemos ciência. No meu caso em particular, trabalho diretamente com o impacto da pesca de arrasto. Os dados que recolho mostram -me, de forma clara, que apesar de ser uma pesca culturalmente relevante, é uma prática extremamente impactante para o ambiente marinho, com elevada captura acessória de espécies de grupos mais vulneráveis, como os tubarões e as raias. No passado, a ciência esgotava-se na publicação destes dados. Hoje, já não basta alertar para o problema. O desafio agora é sentarmo-nos à mesa com as comunidades piscatórias, gestores de pescas e decisores locais em busca de soluções que protejam de facto o ecossistema, mas que integrem as pessoas, mantendo a viabilidade socioeconómica de quem vive do mar.
O Algarve marinho é um hotspot de biodiversidade ainda insuficientemente conhecida, acolhendo sazonalmente espécies de elevada importância ecológica, como a baleia -comum, o tubarão-frade e a orca. Esta riqueza natural confere à região condições únicas para funcionar como um verdadeiro laboratório vivo de excelência. Nós temos a massa crítica a produzir conhecimento de ponta nos centros de investigação algarvios, como o CCMAR. O Novo Bauhaus Europeu facilita que a nossa investigação saia das publicações científicas e se traduza em soluções reais e tangíveis para o território, contribuindo simultaneamente para o bem-estar das comunidades locais e para a conservação das espécies que habitam ou visitam sazonalmente o Algarve.
Sobre a autora do artigo: Sofia Graça Aranha é bióloga marinha e investigadora especializada em ecologia de profundidade, tubarões, raias e gestão de pescarias. Doutorada em Ciências do Mar pela Universidade do Algarve, é professora auxiliar convidada, investigadora associada do CCMAR e editora assistente do Journal of Fish Biology. Tem desenvolvido projetos de investigação e conservação, em articulação com pescadores, ONG e decisores políticos, destacando-se também pela comunicação de ciência e pela defesa do oceano.
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