Nos últimos anos, um escândalo abalou o mercado da água mineral , após a descoberta de que métodos ilegais foram utilizados no tratamento de várias marcas populares. Técnicas proibidas pela União Europeia foram aplicadas para modificar a água, levantando sérias dúvidas sobre a qualidade do produto e a transparência das entidades reguladoras envolvidas.
De acordo com o jornal The Guardian, a investigação revelou também uma possível cumplicidade do governo francês no encobrimento destas práticas, gerando polémica a nível nacional e europeu.
Tratamentos proibidos na água mineral
Tal como refere a mesma fonte, a Nestlé Waters utilizou durante vários anos métodos proibidos para tratar a água mineral das suas marcas em França. A empresa recorreu a radiação ultravioleta e carvão ativado, técnicas proibidas pela União Europeia para águas minerais naturais. Estas práticas terão durado até meados de 2020, segundo a investigação citada pela mesma fonte.
O uso destes tratamentos ilegais teve como objetivo evitar a contaminação bacteriana e química, garantindo uma aparente qualidade da água que, no entanto, não respeitava as normas comunitárias.
A Nestlé Waters aplicou estes processos a águas de marcas como Perrier, Hépar, Contrex, Vittel e outras, conforme revelou o relatório final da comissão de inquérito francesa, segundo o The Guardian.
Envolvimento do governo francês
Ainda segundo a mesma fonte, o governo francês está a ser acusado de encobrimento deste esquema. A comissão de inquérito criada pelo Senado francês concluiu que houve uma “estratégia deliberada” por parte do Estado para esconder os métodos ilegais.
O relatório indica que as autoridades francesas chegaram mesmo a modificar um relatório oficial para eliminar referências a bactérias e herbicidas detetados nas águas, a pedido da Nestlé Waters. Este facto põe em causa a transparência das entidades responsáveis pela fiscalização da qualidade da água mineral no país.
Além disso, foi revelado que o governo autorizou a Nestlé a realizar uma microfiltragem a 0,2 mícrones, apesar de as regras europeias indicarem que qualquer filtragem inferior a 0,8 mícrones pode alterar o estado natural da água mineral.
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Impacto e reações oficiais
O caso, segundo o The Guardian, chegou à esfera europeia, com a denúncia entregue à Comissão Europeia, que deverá agora analisar se é necessário rever as diretivas vigentes sobre o tratamento das águas minerais. A Nestlé Waters admitiu as práticas ilegais em 2021, após a denúncia interna, e pagou uma multa de dois milhões de euros para evitar processos judiciais, como refere a mesma fonte.
Segundo o relatório, a empresa terá obtido lucros na ordem dos três mil milhões de euros com a comercialização destas águas tratadas ilegalmente. Este valor levanta dúvidas sobre a integridade do mercado francês de águas minerais naturais, que, conforme indicou o jornal britânico, vale cerca de 2,7 mil milhões de euros e emprega mais de 40 mil pessoas.
Em fevereiro, o presidente francês Emmanuel Macron negou ter conhecimento do caso, apesar das alegações da comissão de que a Presidência sabia do esquema pelo menos desde 2022.
Consequências e futuro do caso
A denúncia feita pela Nestlé Waters foi o ponto de partida para uma investigação profunda, que envolveu mais de 70 audições ao longo de seis meses, conforme relatado pelo The Guardian. A comissão de inquérito francesa divulgou o relatório final esta semana, que detalha as práticas ilegais e o alegado encobrimento.
A possibilidade de revisão das diretivas europeias pode vir a mudar as regras sobre o tratamento das águas minerais, especialmente no que diz respeito aos limites e métodos autorizados.
A Comissão Europeia terá agora a tarefa de analisar os impactos destes tratamentos ilegais e decidir se existem falhas na regulamentação atual, conforme a mesma fonte.
O mercado francês de água mineral natural é um dos maiores do mundo e este escândalo poderá abalar a confiança dos consumidores nacionais e internacionais, ainda segundo o The Guardian.
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