Numa altura em que crescem os protestos em território espanhol, há uma cidade que enfrenta um dilema cada vez mais comum nas cidades históricas: como conciliar o turismo de massas com a qualidade de vida dos seus habitantes. Para responder a este desafio, a autarquia aprovou uma nova ordenança que procura travar os excessos, impondo limites inéditos ao tamanho dos grupos turísticos, restringindo os chamados free tours e criando zonas oficialmente “saturadas”.
A medida, aprovada para a cidade de Toledo, foi aprovada pela coligação local formada pelo Partido Popular e pelo Vox e é vista como um passo tímido, mas pioneiro. Em causa estão três áreas do centro histórico de Toledo: a rua Hombre de Palo, a Plaza del Consistorio e o Pasadizo Balaguer, que passam a ter regras específicas para controlar as multidões. O executivo justifica a decisão com a necessidade de equilibrar os benefícios económicos do turismo com o direito dos residentes a viver em condições dignas, de acordo com o jornal espanhol El País.
Moradores sentem-se cercados por turistas
Mari Carmen Zamorano, residente numa das ruas mais estreitas do centro histórico, relata situações em que turistas lhe criticaram por tentar entrar com o carro na sua própria garagem. “Há turistas que me disseram que devia viver noutro sítio. Sentes que estorvas na tua própria cidade”, contou à mesma fonte.
O problema do turismo de massas agrava-se em épocas festivas, como o Natal ou o Corpus Christi, quando a afluência de visitantes torna quase impossível a circulação. José, vizinho de Mari há três décadas, partilha a frustração: “Muitas vezes nem conseguimos passar na rua. Os turistas pensam que isto é um museu e que aqui ninguém mora”, acrescenta.
Comércio tradicional perde espaço
A turistificação, aliada à gentrificação e à proliferação de alojamentos de curta duração, tem provocado o desaparecimento de comércio tradicional. Muitos habitantes acabaram por abandonar o centro. Mamen Navarro, que gere uma loja de roupa masculina há 40 anos, não esconde a indignação com as excursões em massa: “Esses grupos não consomem nada e só ocupam espaço. Parece-me bem que se regule”.
Apesar das queixas, Navarro relativiza o impacto comparando Toledo com grandes cidades como Madrid ou Barcelona. Para si, o problema não está no número de turistas, mas no tipo de consumo que fazem: “Eu vivo do turismo, mas precisa de ser de qualidade. Venho todos os dias de carro e basta dar um apito que as pessoas se afastam”.
Regras mais apertadas para os grupos
A nova ordenança obriga os grupos turísticos a circular em fila nas ruas estreitas, a não bloquear entradas de casas e lojas e a facilitar a passagem de residentes com carrinhos de compras ou de bebé. Também estabelece a proibição do uso de megafonias a partir das 23h00, de modo a garantir o descanso noturno dos moradores, refere ainda a mesma fonte.
Outro ponto central é a obrigatoriedade de sistemas de áudio individuais em grupos com mais de 30 pessoas, exceto no caso das excursões escolares. Os grupos poderão ainda, em circunstâncias excecionais, chegar a 50 participantes, mas apenas com autorização do Departamento de Mobilidade.
Free tours na mira da nova lei
Entre os mais afetados estão os guias dos chamados free tours, visitas guiadas pagas através de gorjetas, que representam cerca de 10% das visitas turísticas na cidade. A legislação proíbe o uso de chapéus-de-chuva coloridos como forma de publicidade, medida há muito exigida pelas associações de guias oficiais.
Silvia Pérez Verde, porta-voz dos guias free tour em Toledo, citada pela mesma fonte, considera que esta proibição é um ataque a um modelo de turismo sustentável. “As famílias e amigos que participam nestas visitas comem, compram e dormem na cidade. Não somos o problema”, defende. Ainda assim, os operadores exigem que, em troca, lhes seja atribuída uma taxa de ocupação de via pública semelhante à das esplanadas, de forma a poderem continuar a trabalhar legalmente.
Multas até três mil euros
A autarquia deixou claro que as regras serão para cumprir. A nova ordenança prevê multas que podem chegar aos três mil euros para quem infringir as normas, seja bloqueando passagens, utilizando megafonia indevida ou desrespeitando o limite de participantes por grupo.
Ainda assim, moradores e comerciantes apontam que a raiz do problema está no turismo de massas, trazido por autocarros que visitam várias cidades num só dia, deixando pouco retorno económico em Toledo, refere o El País. Enquanto uns veem na lei um primeiro passo para recuperar a cidade, outros receiam que fique aquém do necessário para travar a pressão turística sobre o centro histórico.
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