Trabalhar desde criança, atravessar a guerra e a pós-guerra e só conhecer algum conforto já perto da reforma marcou profundamente uma geração que hoje ultrapassa os 100 anos. As histórias de vários reformados espanhóis com mais de 100 anos, reunidas num programa televisivo recente, revelam percursos de sobrevivência dura e oferecem um retrato cru de um passado que contrasta fortemente com a realidade atual, incluindo em Portugal.
O programa Centenarios, do canal andaluz Canal Sur, junta homens e mulheres com mais de um século de vida, testemunhas diretas de alguns dos períodos mais difíceis da história recente de Espanha. Não falam com saudosismo, mas com a clareza de quem aprendeu a viver com pouco e a resistir a quase tudo.
São histórias de trabalho infantil, de fome, de perdas familiares e de uma vida onde estudar era um luxo e descansar era raro. Para muitos, trabalhar desde muito cedo era simplesmente a única forma de garantir comida em casa, refere o jornal digital espanhol Noticias Trabajo.
Estrella: uma vida inteira de trabalho e luto
Estrella Aquiles tem 104 anos e vive em Baza, na província de Granada, rodeada por quatro gerações da sua família. Nasceu num cortijo, foi a mais nova de onze irmãos e nunca teve acesso a estudos formais. Aprendeu a ler sozinha, sem livros nem escola, numa infância marcada pela escassez.
Casou aos 22 anos sem vestido branco e sem festa, deslocando-se numa mula, como recorda com naturalidade. Teve seis filhos e perdeu uma filha ainda adolescente, passando décadas em luto rigoroso. Lavava roupa à mão, partia gelo no inverno para lavar fraldas e viu os filhos deixarem cedo a escola para ajudar no sustento da família.
A guerra marcou-lhe o casamento, com o marido mobilizado pouco depois da boda. Viúva aos 60 anos, nunca voltou a casar. Só depois dos 80 começou a viajar e a conhecer o país, graças aos programas de turismo sénior promovidos pelo IMSERSO. “Antes não era como agora, que agora se dá tudo aos filhos, aos netos e a toda a gente. Antes não.”, resume, comparando o presente com o passado.
Rafael: a estrada como modo de vida
Rafael nasceu em 1924, em Espiel, Córdoba, e passou grande parte da vida ao volante de camiões. Conduziu até aos 92 anos e só conseguiu tirar a carta depois de aprender a escrever com a ajuda da mulher. Enfrentou verões duros, longas ausências de casa e uma vida feita de sacrifício, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Hoje mantém-se ativo, faz exercício físico regularmente e cuida dos seus pássaros. A simplicidade marca também a sua visão da longevidade: comer bem e manter rotinas. Casado há quase 80 anos, continua a falar da mulher com emoção, mesmo estando separados pelas circunstâncias da idade e da saúde.
Mati e a memória da guerra civil
Mati tinha apenas 16 anos quando viveu um dos episódios mais trágicos da Guerra Civil espanhola: a Desbandá. Caminhou durante dias pela estrada entre Málaga e Almería, fugindo dos bombardeamentos. As imagens ficaram gravadas para sempre, incluindo mortes presenciadas de perto e o medo constante de não sobreviver.
Mais tarde, construiu uma vida em Sevilha e Madrid, trabalhando como costureira, ao lado do marido, motorista. Não teve filhos, mas acolheu inúmeros sobrinhos, mantendo sempre a casa cheia. Ao recordar o passado, diz que só mudaria a morte do marido, que, de acordo com a mesma fonte, considera o momento mais duro da sua vida.
Uma vida inteira de trabalho e arte
Em Utrera vive Antonio Peña Otero, conhecido como “El Cuchara”, um dos cantores flamencos mais veteranos de Espanha. Começou a cantar ainda criança, trabalhou durante décadas como matarife e criou 16 filhos com a mulher, Consuelo. Com mais de 90 anos, continua ligado à música e à família.
Resume a sua vida sem dramatismos, reconhecendo o esforço partilhado no seio familiar e a importância da companheira ao longo de quase 70 anos de casamento, de acordo com o Noticias Trabajo.
Paralelismo com Portugal
Em Portugal, muitos centenários e idosos da mesma geração partilham histórias semelhantes. Também aqui houve trabalho infantil generalizado, especialmente no meio rural, uma guerra que marcou famílias e uma longa ditadura que limitou oportunidades. Para muitos portugueses, a escolaridade foi curta e a vida profissional começou cedo, muitas vezes antes da adolescência.
Tal como em Espanha, só nas últimas décadas surgiram políticas de proteção social mais abrangentes, reformas mais estáveis e programas de apoio ao envelhecimento ativo. Para esta geração, viver mais não significou viver melhor durante grande parte da vida.
As histórias de Estrella, Rafael, Mati ou El Cuchara, já reformados e com mais de 100 anos, mostram que sobreviver nem sempre foi sinónimo de viver plenamente. O conforto e a estabilidade chegaram tarde, mas quando chegaram foram valorizados até ao fim.
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