Há um plano de paz apresentado pelos Estados Unidos e a Rússia (a ordem inversa também é verdadeira) à revelia de Kiev e de Bruxelas, que mais não é que a capitulação da Ucrânia e a derrota em toda a linha da União Europeia (também aqui a ordem é arbitrária). Com um único movimento, Donald Trump e o seu aliado, Vladimir Putin, atingem dois desígnios: encerram o conflito segundo os seus próprios interesses e reconfiguram o equilíbrio de poder no continente europeu. Independentemente das resistências que surjam e do tempo que corra, o realinhamento ditado pela força acabará por impor-se.
Este desfecho marca um ponto de viragem para a NATO. Por mais que se tente iludir a verdade, a Aliança Atlântica encontra-se debilitada na essência do seu carácter transatlântico. Os Estados Unidos caminham para uma posição ambígua: permanecem, mas de forma cada vez mais instrumental, olhando a NATO mais como plataforma geopolítica de conveniência do que como pilar de segurança estratégica. O resultado provável é uma “europeização” progressiva da organização, que poderá subsistir sobretudo como linha defensiva a leste e, num cenário mais longínquo, como guardiã do flanco atlântico. A incerteza reside no calendário: haverá tempo e vontade política consequente para esta difícil transição?
A Europa desperta agora para uma realidade que ignorou durante demasiado tempo. Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, fechou-se sobre si própria, encantada com os frutos dos “anos dourados”: crescimento económico robusto, avanços tecnológicos de referência e um modelo de Estado social que oferecia estabilidade e coesão. A união política alargou-se a leste por imperativos de segurança, mas deixou esvaziar a adesão da Turquia por motivos históricos e religiosos. Convencida da força do seu mercado interno e das vantagens do comércio global, acreditou que a economia bastaria para garantir relevância geopolítica.
Paralelamente, a União Europeia negligenciou áreas da sua influência tradicional. Afastou-se dos seus parceiros naturais no Mediterrâneo Sul, em África e na América Latina, perdendo espaço para outras potências emergentes. Demonstrou fragilidade perante a ascensão chinesa, permitindo que empresas estatais da China adquirissem infraestruturas estratégicas — portos, redes ferroviárias, telecomunicações, reservas de minerais raros e até cabos submarinos. Olhou pouco para o dinamismo dos países asiáticos emergentes. Apostou quase tudo na parceria transatlântica, acreditando na estabilidade de um mundo bipolar e confiando na proteção militar do seu forte aliado.
Ora, esse mundo bipolar já não existe. E o fim da guerra da Ucrânia, tal como está concebido, é o prenúncio de uma nova ordem global fragmentada, em que a diplomacia dos negócios se sobrepõe à diplomacia institucional, os blocos regionais substituem as organizações multilaterais e o poder da força prevalece face ao direito internacional. Este mundo multipolar exige flexibilidade, assertividade e visão estratégica — precisamente as qualidades que a Europa revelou ter perdido.
Neste nova topografia mundial a Europa é uma das partes mais fracas. Enfrenta desafios simultâneos: manter a coesão interna, assumir a mudança demográfica, reforçar a sua defesa, assegurar energia, garantir autonomia tecnológica e responder ao declínio económico. Num contexto de estagnação prolongada, sujeita a novas formas de trabalho e de intermediação tecnológica, com menos direitos, mais exclusão e mais desigualdades, está criado o caldo para uma sociedade em vias de ebulição. A contestação vai crescer e com ela os extremismos. As ruas vão voltar a encher-se, palco de confrontos ideológicos, identitários e sociais.
Este é, apenas, o prelúdio do novo mundo. Mais incerto, mais agressivo e menos previsível.
Leia também: Autárquicas no Algarve: tempo de Consolidar, Cooperar e Transformar | Por Miguel Freitas
















