Hélder Martins é uma figura incontornável no panorama turístico algarvio. Com uma carreira extensa, que inclui cargos de relevo na gestão pública e privada do sector turístico, como a presidência da Região de Turismo do Algarve e a liderança de importantes projetos hoteleiros, assumiu em 2022 a presidência da AHETA – Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.
Este ano, enquanto a AHETA celebra três décadas ao serviço do turismo regional, a associação reforça o seu compromisso em “acrescentar valor ao Algarve”. É neste contexto comemorativo e reflexivo que conversámos com Hélder Martins, reconhecido pela sua visão estratégica e pela capacidade de enfrentar desafios complexos com uma perspetiva clara e informada.
Nesta grande entrevista ao Postal do Algarve, Hélder Martins analisa os 30 anos de atividade da AHETA, aborda os principais desafios que o sector enfrenta atualmente e traça caminhos para o futuro. Desde questões estruturais à necessidade urgente de formação e retenção de mão de obra qualificada, passando pela sustentabilidade ambiental e pela defesa estratégica dos interesses regionais junto dos centros decisores, esta conversa oferece uma visão detalhada e realista sobre o turismo algarvio e o seu papel vital na economia e sociedade da região.

P – 30 anos depois, quais são as principais conquistas que destaca da AHETA, e como avalia o impacto da associação no desenvolvimento turístico e económico do Algarve?
R – A AHETA é hoje um dos principais parceiros da região, e integra muitos organismos em representação do setor da hotelaria, imobiliária turística e animação.
É muito importante transmitirmos as nossas opiniões e colaborarmos nas definições de estratégias para a região.
P – Assumiu a presidência da AHETA sucedendo a Elidérico Viegas, uma figura emblemática do associativismo algarvio. Que legado específico gostaria de preservar ou reforçar?
R- Elidérico Viegas teve um papel fundamental na criação da associação, permitindo ao Algarve ter uma voz independente nesta área, deixando de estar dependente de Lisboa, em termos de representatividade associativa.
Tentei manter essa independência procurando afirmar a associação junto da região e do país, o que penso tem vindo a ser conseguido.
Cada dirigente tem o seu perfil, o seu modo de agir e penso que, comigo e com os elementos dos corpos sociais da AHETA, a que presido, desde 2022, tentámos ser interventivos, sem ser conflituosos, o que se revelou produtivo.
Não vivemos para o show-off, quando podemos tratar os assuntos diretamente, sem causar danos à imagem do destino.
P – Quais são atualmente os principais desafios enfrentados pelo sector turístico do Algarve, e de que forma a AHETA pretende intervir para os ultrapassar?
R – A AHETA tem estado presente em todas as causas do setor e do Algarve. Após o Covid, apoiámos todas as empresas, nossas associadas, e não só, procurando que todas as empresas conseguissem “sobreviver” após um período tão crítico. Logo a seguir surgiu o problema da escassez de mão de obra, o que motivou termos de retirar quartos do mercado por não ter condições para os preparar, encerrar salas de restaurantes, etc.
Depois veio a problemática da falta de água e mais uma vez, a par da RTA e das outras associações algarvias, trabalhámos em conjunto para garantir uma maior eficácia no consumo, o combate ao desperdício e uma maior sensibilização dos turistas.
E continuamos a ter o problema da falta de alojamento para os nossos trabalhadores, onde temos vindo a trabalhar com o governo, Turismo de Portugal, AMAL, CCDR e outras entidades na busca de uma solução de futuro.
P – Como avalia a relação entre o Algarve e os poderes centrais em Lisboa, nomeadamente na negociação e influência das políticas públicas ligadas ao turismo?
R – Os poderes de Lisboa são sempre centralistas e nós já demonstrámos muitas vezes que a proximidade resolve melhor os problemas.
Mas continuamos a estar dependentes da capital havendo mesmo casos em que apenas com muita persistência conseguimos “levar a água ao moinho”.
Nós já demonstrámos muitas vezes que a proximidade resolve melhor os problemas
Quero afirmar que no turismo é talvez o setor onde as relações são melhores, quer através do Turismo de Portugal quer do secretário de Estado.
No entanto, continuamos sem conseguir resolver problemas como a falta de financiamento da RTA, onde continuamos com orçamentos parecidos com os que eu geri há 20 anos, só que agora sem autonomia, a qual perdemos desde 2008.
P – Durante as comemorações dos 30 anos da AHETA foi destacada a necessidade de “acrescentar valor” ao Algarve. Que estratégias concretas estão a ser pensadas para alcançar esse objetivo?
R – O Algarve tem que ser repensado, por todos os intervenientes. A palavra qualidade é fundamental na competição entre destinos turísticos. Mas essa qualidade tem que estar presente em todo o lado. Não basta que dentro do empreendimento esteja tudo ao mais alto nível e no exterior essa qualidade não seja acompanhada. Por isso agora que estamos à beira de um novo ciclo autárquico é fundamental que todos estejamos alinhados com esse objetivo.
Nós não poderemos competir pelo preço pois haverá sempre destinos mais baratos, especialmente em zonas fora do espaço europeu. Nesses países os impostos, as facilidades dadas às empresas, os investimentos em promoção serão sempre maiores que no nosso país. Assim, não nos resta outra opção que não seja competir, neste mundo global, pela qualidade.
P – Tendo desempenhado cargos de relevância no turismo, desde a Região de Turismo do Algarve à gestão privada, como vê a evolução da qualidade dos serviços turísticos na região ao longo destas últimas décadas?
R – Sim, durante anos crescemos essencialmente em qualidade, mas nos últimos anos a aposta tem sido na qualidade. A nossa grande carência, hoje, é recrutar quadros de qualidade para poder melhorar toda a cadeia de valor. No entanto, continua a haver constrangimentos como os baixos salários, a falta de habitação para as nossas equipas, pelo que temos vindo a tentar, junto dos governos, ajuda nesses sentidos, nomeadamente a redução da carga fiscal junto de pessoas e empresas e a possibilidade de construirmos a habitação que os nossos colaboradores necessitam e que deve ser equiparada à habitação social.
O Algarve tem que se requalificar
P – A escassez de mão de obra qualificada tem sido um tema recorrente no Algarve. Quais são as propostas da AHETA para melhorar a formação e retenção de talento no sector?
R – Nos últimos anos temos tido muitos projetos de formação, quer das empresas da especialidade, quer do IEFP e poderemos dizer que as empresas e os seus colaboradores que queiram fazer formação, esta está disponível. A retenção de talento está definida na resposta anterior, especialmente com melhores salários e mais facilidades aos colaboradores. No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer nesse sentido.
P – De acordo com declarações suas recentes, o controlo das fronteiras e questões de segurança têm sido problemáticas para o turismo algarvio. O que precisa ser feito urgentemente para resolver essas questões?
R – Todos os processos que sofrem evoluções, espera-se que sejam para melhorar. Neste caso, o que se tem vindo a verificar é que, por diretrizes da União Europeia, o processo de entrada e saída de pessoas, vindas de fora do espaço Schengen passou a ser mais exigente. E quando na mesma hora aterram em Faro dez ou doze aviões, especialmente vindos do Reino Unido a situação tem sido terrível.
Recebemos a confirmação de reforço de meios humanos, já esta semana, e pensamos que o mais urgente será colocar em serviços todos os postos de controlo, nomeadamente os automáticos. É desmotivante andarmos todos a tentar ter mais turistas e depois as complicações na entrada são brutais. Inclua-se neste processo os voos dos Estados Unidos que demorámos tanto tempo a conseguir e agora estamos a complicar desta maneira a entrada e saída dos passageiros nas fronteiras.

P – Durante a Conferência Turismo +30, especialistas discutiram tendências e desafios para o futuro. Que tendências emergentes deverão moldar o turismo algarvio nos próximos anos?
R – O Algarve tem de se requalificar. Temos unidades hoteleiras com mais de 50 anos em lugares únicos, mas necessitam de se adaptar às novas tendenciais da oferta mundial. O Algarve tem vindo a receber, cada vez mais, intenções de investimento das grandes cadeias internacionais, mas ainda não chegámos ao setor do verdadeiro luxo. Para termos uma oferta completa temos de abranger todas as tendências do mercado. Mesmo um hotel de três estrela tem de ter qualidade, para ser competitivo. É nesse caminho que temos de seguir.
P – Como presidente da AHETA, quais as suas principais prioridades para este mandato e que legado deseja deixar quando terminar esta missão?
R – Quero deixar uma associação cada vez mais forte e representativa. Gostaria de participar em processos de concentração de estruturas associativas para que cada associação seja mais forte, no contexto regional e nacional. É do conhecimento de todos que temos associações a mais. Cada vez que havia um ato eleitoral numa associação, o candidato perdedor fundava uma nova entidade e esse não é o caminho certo. Assim, em cada dia que passa procuramos afirmar a AHETA como um verdadeiro parceiro regional e nacional e fazer ouvir a voz dos nossos associados.
P – Que medidas considera fundamentais para assegurar a sustentabilidade ambiental do Algarve enquanto destino turístico de referência internacional?
R – O ambiente deve ser um dos temas que está presente em cada minuto da nossa gestão. Um destino ambientalmente correto é mais competitivo.
Por isso temos de ser mais exigentes com o papel de cada um, nestas áreas. Cada vez que há uma descarga de esgotos numa praia do Algarve é um crime ambiental que traz pesados “custos” ao destino. Cada vez que se descarrega entulho num qualquer espaço, é igual. Por isso, já que a sensibilização para estas e outras áreas, como a poupança dos nossos recursos, demora uma ou duas gerações, se calhar, o sistema de penalizações tem de ser mais exigente e implacável.
P – O que podemos esperar dos próximos anos de AHETA e que papel pretende assumir pessoalmente na defesa dos interesses do Algarve?
R – Da AHETA não tenho dúvida que continuará a ser um dos principais “players” no setor que deve levar as nossas revindicações a seu devido lugar e continuar a melhorar o destino em todas as áreas. Pessoalmente, e como sempre fiz, continuarei disponível para dar o meu contributo pela região onde nasci, vivi e trabalhei, toda a minha vida, onde os meus concidadãos considerem que sou necessário. Sempre que o meu dinamismo for considerado útil, eu direi SIM!
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