“Embora a origem do azulejo não seja portuguesa, em nenhum outro país do continente europeu
este material recebeu um tratamento tão expressivo e original…”
José Meco, historiador de arte, especialista da azulejaria.
Entender a função social da arte é indispensável para a compreensão das concepções filosóficas e movimentos artísticos em cada época.
Nas civilizações mediterrânicas a arte, nas suas diversas expressões, tem uma dupla função, mágico-religiosa e estético-decorativa. O cristianismo e o islamismo, ao contrário do judaísmo, são expansivos e evangelizadores, expressaram-se artisticamente, em catedrais, igrejas, mesquitas, palácios, jardins, fontes, livros, pinturas, esculturas, coros,…
A azulejaria foi uma arte de autoria anónima, produzida em olarias periféricas, menos valorizada e estudada.

Sociólogo
A técnica do azulejo é simples, produz efeitos visuais deslumbrantes, daí a popularidade do seu uso preferido também pela economia em trabalhos de manutenção
O azulejo é frequentemente relacionado com a cor azul, contudo, a origem da palavra é árabe, al zuléija, al zulaiju.
Há um vasto património cerâmico, herança dos povos da Antiguidade da bacia mediterrânica, A azulejaria existia na Mesopotâmia, a Porta de Ishtar na Babilónia construída em 575 a.C. aborda temas da fertilidade, amor e guerra. Partes do portal, os leões da via processional, encontram-se em diversos museus do mundo, Berlim, Louvre, Istambul,…
A técnica do azulejo é simples, produz efeitos visuais deslumbrantes, daí a popularidade do seu uso preferido também pela economia em trabalhos de manutenção. Após a escolha e tratamento de argilas, acontece a primeira cozedura, o barro é coberto com líquido para o vidrado, as cores são obtidas com óxidos metálicos, cobalto (azul), cobre (verde), manganésio (castanho, preto), ferro (amarelo), estanho (branco). Na segunda cozedura as peças preparadas entram no forno, após secagem os mosaicos podem ser aplicados.
A romanização introduziu o mosaico decorativo nas províncias do Norte de Africa e na Europa do Sul, normalmente descritivo e figurativo, na prospecção de antigas cidades romanas surgem quase sempre conjuntos, histórias de divindades pagãs, animais terrestres e marinhos, lutas entre homens… Portugal possui magníficos conjuntos em Conimbriga, Milreu, Cerro da Vila, Alcácer do Sal (mosaicos dos centauros),…
A Pérsia, actual Irão, é das zonas do mundo onde a arte do azulejo atingiu maior esplendor. A mesquita de Shan (séc. VIII) em Isfahan está classificada como Património Mundial da UNESCO, relevantes também a Mesquita Azul (séc. XVII) em Istambul, o Taj-Mahal (séc. XVII) em Agra, mesquitas no Uzbequistão, Iraque, Paquistão,…
A técnica do mosaico vidrado ganhou importância na Idade Média, tornou-se elemento de divulgação da fé, de decoração em interiores e exteriores.
No Império Otomano (séculos XIII a XX), ficaram famosos os azulejos de Iznik, com influência da cerâmica chinesa azul e branca, pontuada com vermelhos. Podem ser vistos exemplares no palácio do Topkapi em Istambul.
Na Península Ibérica, o azulejo foi usado nas construções do Al Andalus. A religião islâmica impede representação figurativa na arte pelo que no azulejo do Al Andalus predominam as composições geométricas, vegetalistas, citações do Corão, poemas…
Na Idade Média o azulejo ganhou grande popularidade, era elemento decorativo indispensável, com painéis descritivos das vidas de Cristo, da Virgem e dos Santos.
O desenvolvimento da técnica da azulejaria na Península Ibérica ocorreu em centros cerâmicos ou olarias, abrangendo quase todo o território.
Em Portugal, a partir do século XVI com afirmação do construtivismo gótico-manuelino, o azulejo importado enquadrou-se no processo de afirmação da Coroa e da Igreja. Foi utilizado na evangelização colonial e nos templos construídos noutros continentes.
No séc. XVI foram intensas as relações comerciais entre Lisboa e Sevilha. O reino nazari de Granada caiu em 1492, a arte do Alhambra era falada em toda a Europa, no palácio recém-conquistado foram viver as núpcias o Imperador Carlos V e Isabel de Portugal.
Abriram dezenas de oficinas de olaria em Lisboa e noutras cidades, a utilização do azulejo dialogou intensamente com a arquitectura religiosa e civil durante os séculos XVI e XVII.
No período barroco, século XVIII, impôs-se a grande produção joanina de mestres artistas, os Conventos de São Vicente de Fora em Lisboa e de São Francisco em Salvador da Baía concentram o maior número de azulejos do mundo. A lista de intervenções em azulejo é interminável, a azulejaria está por todo o território nacional, prosseguindo a utilização nos períodos dos estilos rococó e neoclássico.
No século XIX com a industrialização surgiram fábricas em Sacavém, Sant´Ana, Viúva Lamego em Lisboa, no Porto em Massarelos/Devesas, em Aveiro a Fonte Nova, o romantismo inspirou a produção de uma temática naturalista e ruralista.
No século XX a arte nova e a déco usam a azulejaria nas fachadas e interiores de estabelecimentos comerciais, hoteleiros, estações ferroviárias,… Com o Estado Novo e a “política do espírito” de António Ferro emerge a temática historicista-nacionalista, no duplo centenário de 1940 foram inauguradas obras de Almada Negreiros, Martins Barata e outros.
Na década de 60 do século XX surgiu uma nova etapa, a azulejaria contemporânea de elevada qualidade, arte de mestres como Querubim Lapa, Júlio Pomar, Maria Keil, Eduardo Nery, Jorge Barradas, Cargaleiro… Há magníficos painéis nas estações do metropolitano de Lisboa e em muitos edifícios públicos no País.
O Algarve possui exemplares com relevância artística nacional na Igreja de São Lourenço em Almancil, Paço Episcopal de Faro, Igreja da Misericórdia em Tavira… Indispensável a visita ao Museu Nacional do Azulejo em Lisboa, de aproveitar também a exposição sobre “Azulejo em Portugal” do MNA no Palácio da Galeria em Tavira até Maio de 2026.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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