A decisão da União Europeia de pôr fim às importações de gás russo até 2027 já está a mexer com o mercado energético europeu. Segundo o ECO, que ouviu vários especialistas do setor, o corte anunciado pode provocar pressões nos preços durante os próximos meses, apesar de o valor do gás ter recuado de imediato após o acordo que Ursula von der Leyen classificou como “histórico”. A oscilação tem explicação simples: descrença inicial nos prazos anunciados e, ao mesmo tempo, receio de que a procura por alternativas mais caras, nomeadamente gás natural liquefeito, venha a encarecer o mercado no curto prazo.
De acordo com a publicação, a decisão representa uma viragem política profunda, ao formalizar o fim da dependência europeia de gás russo, um vínculo com décadas. Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, considera que a substituição técnica do gás russo está “amplamente garantida”, mas reconhece que a mudança é arrojada do ponto de vista político. Nuno Mello, analista da XTB, sublinha o peso simbólico do acordo e o impacto geopolítico inevitável.
Dependências diferentes, impactos diferentes
Segundo o ECO, vários países da Europa Central e de Leste continuam fortemente expostos ao gás russo, sobretudo Hungria, Eslováquia e Áustria, que mantêm contratos de longo prazo com a Gazprom e têm acesso limitado a terminais de GNL. A mesma fonte acrescenta que França, Bélgica, Espanha e Holanda ainda importam volumes relevantes de GNL de origem russa, o que tornará o processo de adaptação mais exigente, embora com maior margem de diversificação.
A Alemanha, historicamente o maior cliente da Rússia, deixou de receber gás por gasoduto em 2022, mas continua a ajustar a sua infraestrutura. De acordo com o banco Carregosa, os países mais dependentes correm agora maior risco de enfrentar picos de preços, constrangimentos físicos e impactos diretos na indústria de elevada intensidade energética.
Os especialistas citados pelo ECO concordam que a adaptação exigirá investimentos acelerados, reforço do abastecimento por gasoduto através de países aliados e expansão das renováveis. A diversificação já está em curso, com destaque para maiores importações dos Estados Unidos, Noruega, Qatar e Nigéria.
Preços podem subir antes de estabilizar
Um dia após o anúncio, o preço do gás holandês TTF caiu 3,3%, atingindo os 27,28 euros por megawatt-hora, o valor mais baixo em 18 meses. Contudo, segundo a Energy Intelligence, citada pelo ECO, esta descida poderá ser temporária. Alguns países mais dependentes, como Hungria e Eslováquia, deverão contestar a medida, alimentando incerteza adicional.
Paulo Rosa adverte que, no curto prazo, a eliminação do gás russo pode pressionar os preços devido ao maior recurso ao GNL, substancialmente mais caro que o gás transportado por gasoduto. Nuno Ribeiro da Silva também antevê um aumento, sublinhando que o gás russo é mais barato, mas que a decisão europeia tem um peso ético e estratégico num contexto de guerra.
Ainda assim, segundo o ECO, o mercado já absorveu grande parte do impacto estrutural da redução das importações russas, e os preços do TTF aproximam-se dos níveis pré-guerra. Há, no entanto, riscos que podem introduzir volatilidade durante o inverno, como vagas de frio, aumento da procura asiática ou disrupções em terminais de GNL.
Para 2027, com a diversificação consolidada, maior capacidade de armazenamento e reforço das renováveis, os especialistas acreditam que o mercado deve estabilizar com preços previsíveis, embora estruturalmente acima dos praticados na década de 2010.
Portugal praticamente não sente impacto direto
De acordo com o ECO, Portugal está entre os países menos expostos ao corte europeu, já que não depende de gasodutos russos e importa quase exclusivamente GNL através de Sines, sobretudo de Nigéria e EUA. Em 2025, as importações de gás russo representavam cerca de 5% do total nacional, uma fatia facilmente substituível.
Ainda assim, alerta Nuno Mello, o país pode ser afetado de forma indireta, através da formação de preços nos mercados europeus. O reforço das importações de GNL, melhoria das infraestruturas e interligações com Espanha asseguram que o abastecimento não está em risco.
A médio prazo, Paulo Rosa antecipa que ajustes fiscais poderão ser equacionados caso os preços ultrapassem níveis indesejáveis, para proteger consumidores e indústria.
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