A paisagem da construção imobiliária portuguesa é dominada há décadas pela utilização massiva de materiais como o cimento e o tijolo, materiais que se tornaram sinónimo de robustez na cultura nacional. Contudo, esta tradição de edificação está prestes a enfrentar uma mudança de paradigma impulsionada por novas exigências ambientais e de eficiência. Um especialista do setor garante que um material natural, muitas vezes subaproveitado no nosso país, está destinado a ganhar um protagonismo inédito nas obras nacionais.
A previsão é de Rui Correia, presidente executivo da Sonae Arauco, em declarações ao semanário Expresso. O gestor afirma categoricamente que “a utilização de madeira na construção vai crescer imenso” no território nacional, seguindo uma tendência já consolidada noutras geografias.
Enquanto em países como os Estados Unidos ou a Escócia a esmagadora maioria das casas unifamiliares já recorre a este material, a Península Ibérica mantém-se presa aos métodos tradicionais. O responsável acredita que a transição é apenas uma questão de tempo, motivada não só pela resistência e leveza da madeira, mas pela urgência climática.
Vantagens ambientais e técnicas
A grande mais-valia desta mudança reside na capacidade única que este material tem de beneficiar o ambiente. Ao contrário do cimento, cuja produção é poluente, a floresta e a madeira absorvem dióxido de carbono da atmosfera.
Indica a mesma fonte que, se a madeira for aplicada na estrutura de um edifício, esse carbono fica retido e preservado durante dezenas ou centenas de anos. Esta preservação evita a libertação de gases nocivos, tornando as habitações em verdadeiros armazéns de carbono que ajudam a combater as alterações climáticas.
O erro dos pellets e do aquecimento
O especialista aproveita para desmontar um mito comum sobre o aquecimento doméstico, criticando severamente o uso de madeira para queima. A utilização de pellets ou lenha para produzir energia é classificada como um contrassenso ambiental comparável à queima de carvão.
Explica a referida fonte que queimar madeira liberta imediatamente o CO2 que estava armazenado, anulando o benefício da árvore. O gestor considera mesmo criminoso o envio de móveis velhos para aterros ou a sua incineração, defendendo antes a reciclagem para novos produtos.
A origem da mobília moderna
A economia circular já é, aliás, uma realidade na produção de mobiliário que chega às casas dos portugueses. Grande parte dos móveis vendidos em cadeias como o IKEA é fabricada a partir de aglomerados que incorporam madeira reciclada de peças antigas, paletes partidas e serrim.
No caso do aglomerado de partículas produzido em Portugal, mais de 80 por cento da composição provém de madeira reciclada. Este processo evita o abate desnecessário de árvores e dá uma segunda vida a materiais que, de outra forma, acabariam no lixo.
Futuro da habitação modular
A evolução técnica da construção vai facilitar a introdução deste material nas novas casas portuguesas. O avanço das soluções modulares permite que, no fim de vida de um edifício, as estruturas de madeira possam ser desmontadas e montadas noutro local, ao contrário da rigidez do tijolo.
Explica ainda o Expresso que, embora o consumo deste material na construção em Portugal seja ainda incipiente quando comparado com a Alemanha, o caminho está traçado. A Sonae Arauco não tem dúvidas de que a madeira será o alicerce do futuro imobiliário nacional.
Leia também: ‘Finalmente’ numa das zonas mais procuradas do país: Mercadona abre novo espaço nesta data
















