Ouvir música e sentir arrepios é uma experiência comum, mas continua a intrigar a ciência. Esse fenómeno, conhecido como “frissons musicais”, está ligado a mecanismos do cérebro que associam o som à emoção, ativando reações físicas inesperadas.
Estudos recentes, publicados na prestigiada revista científica britânica Nature Neuroscience, conduzidos pela equipa do Montreal Neurological Institute (The Neuro), da McGill University, mostram que cerca de metade das pessoas já experimentou arrepios ao ouvir determinadas músicas. Não se trata apenas de um efeito psicológico, mas de uma resposta biológica, associada à libertação de dopamina, neurotransmissor responsável pelo prazer e pela motivação.
O que são os ‘arrepios musicais’
A sensação costuma surgir em momentos de intensidade sonora ou de surpresa. Mudanças bruscas de tom, passagens mais fortes, entradas de coros ou vozes particularmente poderosas são alguns dos elementos que desencadeiam essa resposta. O corpo reage como se estivesse perante um estímulo de grande impacto, tal como acontece com situações emocionais intensas.
Para muitos destes especialistas, trata-se de um mecanismo evolutivo. Tal como o arrepio causado pelo frio ou pelo medo serve para proteger o organismo, os arrepios musicais refletem a forma como o cérebro processa sons carregados de significado emocional, refere a mesma fonte.
Papel das emoções e memórias
A ligação pessoal com a música é outro fator determinante. Canções que recordam pessoas, lugares ou acontecimentos marcantes têm maior probabilidade de provocar frissons. O cérebro associa as melodias às emoções guardadas na memória, potenciando a reação física.
É por isso que, ao ouvir uma música da juventude, muitos sentem de imediato a pele arrepiar-se. A melodia funciona como uma cápsula emocional, ativando recordações que estavam guardadas.
Estrutura sonora e surpresa
A própria composição musical também influencia. Notas inesperadas, progressões harmónicas invulgares ou pausas prolongadas ativam as zonas do cérebro ligadas à antecipação e ao prazer. É como se a mente fosse surpreendida positivamente, reagindo com intensidade.
Assim, músicas que jogam com a surpresa e com o contraste tendem a ser mais eficazes a provocar arrepios. É um fenómeno que combina matemática sonora com emoção pura, de acordo com o mesmo estudo.
Personalidade e sensibilidade
Nem todas as pessoas reagem da mesma forma. Estudos indicam que indivíduos mais abertos à experiência, com maior sensibilidade artística e emocional, têm maior probabilidade de sentir arrepios musicais. Essa predisposição está relacionada com traços de personalidade que favorecem a empatia e a ligação à arte.
A música que mexe com corpo e alma
Os arrepios musicais mostram como a música vai além do simples entretenimento. Atua no cérebro, ativa memórias, desperta emoções profundas e deixa marcas físicas. É uma prova de que os sons não são apenas ouvidos, mas também sentidos no corpo, garantem os especialistas do estudo publicado na Nature Neuroscience.
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