O primeiro dia do Fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), em Albufeira, ficou marcado pela intervenção de Nuno Espírito Santo, que protagonizou uma palestra dedicada ao tema “A vida do treinador”. A sessão centrou-se nos desafios humanos, estratégicos e emocionais inerentes à profissão.
Moderada por Manuel Machado – treinador que lançou Nuno Espírito Santo no Vitória de Guimarães no final da década de 80 -, a intervenção apresentou uma análise aprofundada sobre o papel do treinador no futebol contemporâneo, com especial enfoque na comunicação enquanto principal instrumento de liderança.
Comunicação como ferramenta central
Durante a sua intervenção, o técnico português destacou a importância do autoconhecimento e da gestão emocional no desempenho da função: “O grande segredo é conhecermo-nos a nós próprios. Se não encontrarmos equilíbrio entre a euforia da vitória e a deceção da derrota, perdemos o rumo”.
A comunicação foi apontada como elemento essencial no relacionamento com todos os intervenientes do contexto desportivo. “É essencial saber o que dizer, quando dizer e como dizer — com jogadores, estrutura e todos os que nos rodeiam”, afirmou.

Reforçando esta ideia, acrescentou: “Por isso a nossa melhor ferramenta é a comunicação. Não é apenas a comunicação com a imprensa. É comunicar com o jogador – e ele questiona muito – com o nosso board – e eles colocam-nos imensas questões e não podemos fazer concessões – e temos de ser honestos com todos eles, saber o que dizer, quando dizer, como dizer é fundamental.”
Honestidade e pensamento crítico nas equipas técnicas
Outro dos pilares destacados foi a honestidade na liderança. “Não podemos mentir aos jogadores nem a nós próprios. Não podemos criar expectativas em que não acreditamos. A verdade é a base da gestão”, sublinhou.
O treinador defendeu ainda a importância de construir equipas técnicas que promovam o pensamento crítico, rejeitando abordagens baseadas em concordância automática.
Evolução do jogo e exigência estratégica
Com experiência em diversos contextos internacionais, Nuno Espírito Santo abordou também a evolução do futebol moderno, apontando para um aumento da exigência competitiva: “O jogo está mais rápido, mais limpo taticamente e os jogadores têm hoje mais ferramentas para decidir por si próprios.”

No plano estratégico, destacou a necessidade de adaptação constante: “É utópico dizer que só olhamos para nós. Temos de perceber como quebrar rotinas e padrões do adversário. Se o conseguirmos, ganhamos vantagem.”
Gestão de projetos e mudança
A intervenção abordou igualmente a gestão de equipas em momentos de dificuldade. “Quando chegamos a meio de um projeto é porque algo não estava a resultar. É preciso abanar, cortar rotinas e provocar mudança”, afirmou.
Entre exemplos práticos, referiu a singularidade de jogadores como Adama Traoré e a introdução de psicólogos nas equipas técnicas desde a sua passagem pelo Valencia, evidenciando a crescente importância da componente mental no rendimento desportivo.
Conclusão perante forte aplauso
Na reta final da palestra, Nuno Espírito Santo sintetizou a sua visão sobre liderança: “O treinador impõe regras, independentemente do talento individual. Gerir é dizer a verdade – aos outros e a nós próprios”.
A intervenção foi recebida com um aplauso expressivo por parte da plateia.

O Fórum ANTF 2026 decorre ao longo de dois dias em Albufeira, reunindo vários protagonistas do treino em Portugal para debater as tendências atuais e futuras do futebol, reforçando o compromisso da associação com a formação contínua.
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