Quando se fala dos povos que habitavam o atual território português antes da chegada de Roma, os Lusitanos tendem a ocupar quase todo o imaginário coletivo. Mas estavam longe de ser os únicos. No Sul da Península Ibérica, incluindo áreas do atual Algarve e Alentejo, as fontes antigas referem populações através de nomes como Kynetes, Kynesioi, Konioi, Kouneoi e Conii. Estas designações têm sido frequentemente relacionadas com uma mesma entidade, conhecida em português como Cónios ou Cinetes, embora essa equivalência não seja consensual entre os investigadores.
Quem eram os Cónios?
As referências dos autores clássicos associam os Cónios ou Cinetes ao extremo sudoeste da Península Ibérica. Avieno menciona os Cinetes e um território atravessado pelo rio Ana, o atual Guadiana, mas os dados são escassos e não permitem desenhar fronteiras precisas ou determinar com segurança todas as áreas que este povo ocupava. Até a equivalência entre Cónios e Cinetes já foi questionada. O arqueólogo Jorge de Alarcão e outros investigadores defenderam que poderiam corresponder a entidades distintas, contrariando a interpretação mais habitual de que os diferentes nomes eram variantes usadas para identificar o mesmo povo.
Uma passagem de Apiano distingue claramente os Lusitanos dos Cunei. Ao descrever acontecimentos do século II a.C., o historiador escreveu que um grupo de Lusitanos comandado por Cauceno invadiu o território dos Cunei e tomou a sua principal cidade, Conistorgis. A fonte sustenta, portanto, que eram comunidades diferentes, embora tenha sido escrita séculos depois dos acontecimentos e não resolva todas as dúvidas sobre a identidade ou o território destes povos.
A escrita que continua sem ser completamente compreendida
No Baixo Alentejo e no Algarve foram descobertas numerosas estelas com inscrições na chamada escrita do Sudoeste. A literatura académica contabiliza cerca de uma centena de inscrições da Idade do Ferro, provavelmente maioritariamente associadas a monumentos funerários, embora muitos achados tenham sido encontrados fora do contexto original. Os vestígios concentram-se sobretudo no Sul do Alentejo e no interior algarvio, mas também foram identificados exemplares na Andaluzia e nas províncias espanholas de Badajoz e Cáceres. Em Portugal, várias estelas apareceram junto de necrópoles de cistas ou de estruturas tumulares.
O Museu Nacional de Arqueologia descreveu esta escrita, numa exposição organizada com a Câmara Municipal de Loulé e o Projeto Estela, como a primeira manifestação bem caracterizada de escrita na Península Ibérica e uma das mais antigas da Europa. A formulação exige, contudo, alguma cautela: os investigadores distinguem a escrita do Sudoeste de outros grafitos e sistemas antigos do Sul peninsular que continuam mal caracterizados.
Mais de dois séculos depois dos primeiros estudos de Frei Manuel do Cenáculo, a escrita continua sem estar completamente decifrada. Muitos signos e alguns dos seus valores fonéticos são reconhecidos, mas subsistem divergências sobre outros caracteres, a separação das palavras e, sobretudo, a língua representada nas inscrições.
Uma das hipóteses mais estudadas sustenta que o sistema resultou de uma adaptação original do alfabeto consonântico fenício num contexto ibérico. Mesmo aqui existem discussões: há investigadores que o classificam como alfabeto e outros que o interpretam como um sistema semissilábico ou redundante.
Mas foram mesmo os Cónios que escreveram estas mensagens?
A associação entre a escrita do Sudoeste e os Cónios consolidou-se ao longo do século XX. A proximidade que tradicionalmente se estabelecia entre este povo, o mundo tartéssico e as influências fenícias parecia ajustar-se à utilização de um sistema derivado da escrita mediterrânica. Essa atribuição está, porém, longe de ser segura. Num estudo publicado em 2025 na revista científica Palaeohispanica, o arqueólogo Amílcar Guerra questiona diretamente a ligação das estelas aos Cónios. O investigador chama a atenção para as diferenças entre a cultura material do território onde aparecem as inscrições e a das zonas costeiras habitualmente relacionadas com os Cónios e com o mundo tartéssico-turdetano.
Com base nos contextos funerários, nos povoados, na cultura material e na toponímia, Amílcar Guerra considera mais consistente relacionar o território das estelas com comunidades identificadas nas fontes como Célticos. Trata-se de uma proposta académica fundamentada, não de uma conclusão aceite sem reservas por todos os especialistas. O próprio investigador adverte que esta aproximação cultural não prova que a língua das inscrições fosse céltica. O estado fragmentário de muitas pedras, os signos cujo valor permanece problemático e o desconhecimento da língua impedem traduções integrais suficientemente seguras.
Assim, é rigoroso dizer que a escrita foi usada por comunidades que habitaram o Sudoeste da Península durante a Idade do Ferro. Afirmar sem ressalvas que foram os Cónios a criar e utilizar aquelas inscrições vai além daquilo que a arqueologia permite hoje demonstrar.
A grande maioria das estelas foi encontrada em Portugal
As estimativas divulgadas nos últimos anos apontam para cerca de uma centena de estelas ou inscrições conhecidas, encontrando-se a grande maioria em território português. Materiais publicados em 2018 indicavam que perto de 90% dos exemplares tinham sido descobertos em Portugal, mas esta percentagem deve ser entendida como uma estimativa sujeita a atualização à medida que surgem novos achados.
Um desses achados ocorreu perto da Cortelha, no concelho de Loulé. A pedra tinha sido recolhida num poço, com os sinais voltados para baixo, e chegou a ser utilizada como uma “pedra da lavadeira” num cortejo etnográfico. O fotógrafo Jorge Graça reconheceu os caracteres e o objeto acabou identificado como um fragmento de estela com escrita do Sudoeste.
O contacto com outros povos ajudou a transformar o Sul
As comunidades do Sul não viviam isoladas. A arqueologia documenta influências fenícias e tartéssicas sobretudo no litoral algarvio, com particular expressão em Castro Marim e Tavira, assim como nos baixos vales do Tejo, Sado e Guadiana. Estes vestígios demonstram a integração da região em redes de contacto mediterrânicas, mas não permitem atribuir automaticamente todos os objetos importados, trocas comerciais ou influências culturais aos Cónios. O território interior onde se concentram as estelas apresenta, aliás, uma cultura material com forte caráter local e diferenças importantes relativamente aos centros costeiros.
Até a principal cidade associada aos Cónios continua por encontrar
Conistorgis é mencionada por Apiano como uma grande cidade dos Cunei tomada pelos Lusitanos. A fonte fala na sua captura, não permite afirmar que tenha sido destruída, como por vezes é referido em textos de divulgação. A sua localização continua desconhecida. Foram apresentadas várias propostas, incluindo uma identificação com Medellín, em Espanha, mas nenhuma reuniu consenso e investigações recentes rejeitam algumas dessas hipóteses.
Um dos maiores enigmas arqueológicos do Algarve e Alentejo
Mais de 2.500 anos depois, os símbolos gravados nas pedras continuam a ser estudados. Os investigadores conhecem parte do funcionamento da escrita, mas ainda não conseguem identificar com segurança a língua nem interpretar satisfatoriamente a maioria dos textos. A história dos Cónios permanece igualmente marcada pelas dúvidas. As fontes antigas registaram os seus nomes e distinguiram-nos dos Lusitanos, mas não deixaram informação suficiente para reconstruir com precisão a sua organização, as fronteiras do território ou a relação com as comunidades conhecidas através da arqueologia.
O que hoje pode ser afirmado com segurança é que, muito antes do domínio romano, o Algarve e o Alentejo integravam sociedades ligadas às redes culturais do Mediterrâneo e capazes de utilizar um dos mais antigos sistemas de escrita da Península. Saber se as estelas pertenciam especificamente aos Cónios, aos Célticos ou a outras comunidades do Sudoeste continua a ser uma das questões em aberto da arqueologia portuguesa.
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