Com a chegada do verão e a subida das temperaturas, as escolhas de férias tornam-se um tema recorrente. Muitos portugueses procuram alternativas à região que tradicionalmente lidera as preferências estivais, alegando o aumento significativo dos preços. A comparação com destinos longínquos começa a surgir, com o Algarve a ser apontado como estando ao nível das Caraíbas em termos de custos.
As declarações de responsáveis do setor turístico contrastam, no entanto, com os dados disponíveis nas plataformas de reservas. É neste contexto que se intensifica o debate sobre a acessibilidade e a realidade do turismo na região algarvia.
Discurso otimista, contas detalhadas
O presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Hélder Martins, afirmou recentemente que a região “não é um destino mais caro que outros destinos”. Segundo o mesmo responsável, dos cerca de 4.500 alojamentos disponíveis na plataforma Booking para o mês de agosto, 5% teriam preços entre 20 e 50 euros por dia, enquanto 25% se situariam na faixa entre os 50 e os 100 euros.
Martins comparou o setor hoteleiro a um avião, referindo que “se o avião está cheio o preço aumenta, se está vazio baixa”, para justificar o aumento dos preços. Acrescentou ainda que “os preços não estão a refletir-se” numa menor procura por parte dos turistas nacionais.
A lupa sobre os números
O Observador decidiu verificar os dados, baseando-se na mesma plataforma indicada pelo responsável da AHETA. A pesquisa foi realizada num sábado à tarde, com referência a uma estadia para duas pessoas durante uma semana em agosto. De acordo com a publicação, encontravam-se disponíveis exatamente 4.452 alojamentos, um número próximo do indicado.
No entanto, a coincidência termina aí. Conforme a mesma fonte, apenas seis alojamentos tinham preços até 50 euros por dia. Um deles era uma caravana, três eram em beliches, incluindo um numa Pousada da Juventude, outro situava-se em Mértola, a cerca de uma hora e meia de distância da costa algarvia, e apenas um tinha um quarto privado, mas sem pequeno-almoço incluído.
A segunda faixa orçamental também levanta dúvidas
O Observador refere ainda que, segundo os dados verificados, 161 alojamentos estavam disponíveis entre os 50 e os 100 euros por dia. Um número bastante abaixo dos 1.125 indicados por Hélder Martins. Explica o jornal que, entre estas unidades, apenas seis estavam localizadas junto à praia e uma larga maioria oferecia quartos partilhados ou casas de banho comuns.
Conforme a mesma fonte, pelo menos quatro das opções nesta faixa incluíam estadias em caravanas, bungalows ou chalés, e apenas 20 ofereciam pequeno-almoço.
O foco do setor e a questão do público-alvo
Sabe-se que Hélder Martins defendeu ainda que não se deve esperar encontrar quartos por 20 euros numa região turística que tem feito um esforço de melhoria contínua. “Temos de aumentar a qualidade para podermos aumentar as retribuições aos funcionários”, afirmou.
Questionou também se “é caro” pagar 50 euros por um quarto com pequeno-almoço, internet e lavagem de roupa durante o pico da época alta, considerando a oferta como “indiscutivelmente melhor” em termos de relação preço/qualidade.
Turismo sem fronteiras
O presidente da AHETA concluiu que o Algarve está aberto ao mundo, e não focado exclusivamente nos turistas portugueses. “Será que os franceses vão para a Côte d’Azur em agosto?”, questionou, antes de sugerir que, tal como acontece noutros destinos, também os portugueses deverão ajustar o calendário das suas férias.
O verão em análise
As declarações de Hélder Martins procuram responder às críticas frequentes de que o Algarve se tornou inacessível para muitos portugueses. No entanto, os dados verificados sugerem que a narrativa oficial pode não estar totalmente alinhada com a realidade observada nas plataformas digitais de reserva.
Enquanto uns defendem a valorização da oferta e a diversificação do público-alvo, outros questionam a exclusão de uma franja significativa da população nacional do acesso às férias numa das regiões mais emblemáticas do país.
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