Um novo retrato das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) levanta questões sobre práticas de cuidado e organização dos serviços. No centro da análise estão os lares de idosos, o avanço de doenças neurocognitivas e a capacidade dos cuidadores para responder a estas necessidades em crescimento.
Retrato nacional das ERPI
O inquérito do projeto SINDIA, com respostas de 423 diretores técnicos entre janeiro e julho de 2024, indica que 54% dos residentes apresentam sinais de declínio cognitivo compatíveis com demência. Apenas cerca de 30% têm diagnóstico formal, sugerindo um padrão persistente de subdiagnóstico associado à dificuldade de acesso a rastreios e cuidados especializados.
Os dados apontam ainda para lacunas na qualificação das equipas. Só 38% dos profissionais referem formação específica em demência e um terço admite não se sentir preparado para lidar com esta realidade no dia a dia. Entre as causas citadas estão a escassez de médicos que se desloquem aos lares e os constrangimentos de transportar pessoas fragilizadas para serviços externos.
Desigualdades e acesso ao exterior
O estudo identifica diferenças geográficas e socioeconómicas na qualidade dos cuidados. As regiões urbanas e com maior oferta de serviços, como a Área Metropolitana de Lisboa, apresentam indicadores mais consistentes, enquanto concelhos envelhecidos e com menos recursos evidenciam maiores dificuldades de resposta, refere o Expresso.
No acesso ao ar livre, 99% das instituições têm espaços exteriores, mas só 33% permitem a circulação livre de pessoas com demência. Em 60% dos casos essa circulação só ocorre com acompanhamento, por razões de segurança. Num inquérito paralelo a 532 residentes com demência, 75% afirmam nunca sair para o exterior e 87% declaram sair “raramente” ou “de vez em quando”, o que significa que apenas 13% o fazem semanalmente e menos de 9% com regularidade.
Isolamento e recursos
O estudo em causa deixa explícito que as condições sociais de muitos residentes agravam o isolamento. Quase 82% vivem sem companheiro ou companheira e 72% têm rendimentos mensais abaixo de mil euros. Mais de metade relata que o rendimento não cobre necessidades básicas e apenas 15% dizem chegar ao fim do mês com margem financeira.
O contacto familiar também é reduzido. Só 15% recebem visitas frequentes de filhos, 33% recebem-nas raramente e 28% nunca as recebem. Entre as explicações avançadas estão a distância, os horários das instituições e as responsabilidades da chamada “geração sanduíche”, o que reforça a necessidade de políticas laborais e sociais que facilitem as visitas.
Na comunidade, entre 361 pessoas com demência inquiridas, verifica-se quebra nas relações de proximidade após o diagnóstico. As conversas com vizinhos descem de 72% para 46%, a troca de favores baixa de 43% para 19% e as visitas em casa passam de 50% para 21%, apontando para impacto social significativo e redução do sentido de pertença.
O estudo observa diferenças entre tipologias institucionais. Lares do setor solidário, apesar de menos recursos, referem práticas que favorecem maior autonomia e contacto com a comunidade do que estruturas lucrativas, sinalizando margens de melhoria organizacional e de rotina diária.
As conclusões convergem na necessidade de reforço de formação em demência, expansão dos rastreios e criação de rotinas que aumentem a exposição ao exterior com critérios de segurança. A resposta passa por capacitar cuidadores, reorganizar atividades e integrar equipas de saúde, tendo em vista a prevalência crescente destas doenças em lares de idosos.
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