Vem a Ordem dos Médicos alertar a população para esta vaga de hiperconsumo do paracetamol, os riscos da toma indevida deste analgésico e antipirético (combate à febre) podem acarretar desde danos hepáticos graves a morte. Não diz o alerta médico, mas este medicamento tem a sinistra conotação de aparecer associado em certos países a tentativas de pôr termo à vida.
Há anos, as autoridades francesas determinaram que o paracetamol e também certos anti-inflamatórios só podiam ser vendidos na farmácia com dispensa farmacêutica. Foi tomada a medida com o intuito de reforçar o respeito pelas regras do bom uso destes medicamentos. Obviamente que se espera do aconselhamento farmacêutico a explicação a quem os procura no balcão de farmácia que o paracetamol não está destinado a práticas eufóricas, não é droga mirifica.
Temos todos de nos regozijar com esta decisão, oxalá outros países, incluindo o nosso, a tomem em nome da saúde pública. Não há medicamentos inócuos e estes que agora passaram, em França, a serem vendidos com dispensa e conselho farmacêutico, apresentam vantagens e têm efeitos adversos, alguns de extrema gravidade. Nunca esquecer que não há medicamentos inócuos. Vejamos sumariamente o que é essencial saber sobre analgésicos e anti-inflamatórios.
Com destaque, o paracetamol. Pessoas com hepatite ou portadoras de outras doenças de fígado, bem como doenças crónicas (nomeadamente a doença renal) são mais sensíveis à toxicidade do paracetamol. O ácido acetilsalicílico combate simultaneamente a dor, a febre e a inflamação. Mas a aspirina está contraindicada num certo número de situações, como a úlcera gástrica, antecedentes de asma, urticária ou rinite provocada pela aspirina. Este medicamento pode interferir com a ação de numerosos medicamentos (caso dos anticoagulantes, pois aumenta o risco de hemorragias).
Quanto ao ibuprofeno, é uma substância que pertence à família dos anti-inflamatórios não-esteroides. Em doses bastante fracas, atua essencialmente sobre a dor e a febre. Se bem que um pouco menos irritante para o estômago que a aspirina, o ibuprofeno exige as mesmas precauções, além de que a sua toxicidade aumenta com a dose.
A decisão das autoridades francesas não põe em causa a utilidade destes medicamentos, o que se pretende é aumentar o respeito pelas regras da precaução. É a dosagem, os efeitos adversos que podem levar a situações críticas nos doentes e nos utentes de saúde. Não é por acaso que a toma destes medicamentos aconselha que não se deve exceder três dias em caso de febre ou cinco dias no caso das dores. As autoridades francesas não tomaram a medida à-toa. Neste país, o paracetamol é a primeira causa de hepatites e de transplantes de fígado de origem medicamentosa; quanto ao ibuprofeno, há centenas de casos de complicações infeciosas bacterianas ligadas à sua má utilização.
Nenhum medicamento devia ser dispensado sem conselho. Os destinados a combater as febres e as dores exigem dispensa personalizada, como qualquer outro medicamento. Alguns não podem ser utilizados por crianças até aos doze anos; há os que não devem ser utilizados durante a gravidez; outros estão associados a substâncias que estimulam o sistema nervoso; há os que possuem uma dose máxima por dia, a qual, se for ultrapassada, é suscetível de causar doença hepática grave; há pessoas que em estado de desespero pretendem praticar um ato tresloucado com paracetamol; há também medicamentos que estão contraindicados em doentes com problemas sanguíneos.
O acompanhamento pelo farmacêutico permite a quem pretenda tomar um destes medicamentos para a febre e dores, assegurar-se de que não ocorrem efeitos indesejáveis de gravidade. A escolha de um destes medicamentos deve estar de acordo com as caraterísticas gerais dos sintomas, a idade do doente, doenças concomitantes, os outros medicamentos prescritos, as sensibilidades individuais e até o conhecimento de reações adversas.
Boa notícia que nos chegou de França. Seria bem interessante saber o que dela pensa o Ministério da Saúde, sempre tão preocupado em promover a literacia do doente e a segurança do medicamento.















