Na semana passada fui de férias. A viagem de 5 horas foi boa. A tripulação era simpática, um sorriso pronto e o voo foi calmo e sem sobressaltos… a não ser… que na fila de bancos atrás do meu se instalou uma família com uma criança que teria entre os 2 e os 3 anos de idade. Quando o voo se iniciou, começou também uma sessão de gritos e chamadas de atenção da criança. A criança sossegou quando lhe deram para as mãos… um telemóvel!!! E aí começou um festival de barulho, com jogos e desenhos animados cheios de gritos e cenas de violência… os pais, tendo a criança “sossegada” passaram o voo a discutir projetos. A atenção dispensada à criança foi quase nula. A criança adormeceu um pouco durante a viagem e, quando acordou, a situação repetiu-se: gritos até lhe darem o telemóvel… e o telemóvel substituiu com total sucesso a atenção dos pais.
É esse sucesso que me leva a refletir hoje sobre o que queremos para o futuro do nosso mundo e da nossa espécie.
Somos a espécie dominante a nível mundial. A nossa evolução permite-nos na atualidade a capacidade de viver, no mundo desenvolvido, com conforto, com direitos, com saúde e uma longevidade nunca vistas, resultado da evolução da ciência, da medicina e dos cuidados.
A nossa evolução e a vontade de fazer mais e melhor, permitiu-nos desenvolver tecnologia que tornou as nossas casas mais confortáveis, as nossas comunicações mais fáceis e diminuir com a imagem a distância. Com o telemóvel, estamos sempre à distância de uma chamada para ouvirmos a voz de quem amamos, ou para tratar de negócios ou trabalho. Mas o telemóvel (principalmente os que são pequenos computadores) não tem apenas o fator positivo. Também algumas questões se colocam no que respeita, por exemplo ao desenvolvimento infantil.
Para chegar até aqui ao estado de grande conforto em que vivemos, nunca poderemos esquecer os cuidados das mães e das avós (porque eram elas que ficavam em casa) às crianças, o acompanhamento indelével dos primeiros anos, com uma proximidade e uma atenção que fizeram toda a diferença na afirmação da nossa espécie no planeta. Com essa proximidade e atenção, foi possível criar um sentimento de pertença, de grupo. E a nossa segurança assenta nessas mesmas relações que se criam na família, seja ela de que tipo for. Também é verdade que, em toda a nossa história, este é o Século da criança. Nunca até meados do século passado se deu tanta importância aos primeiros anos de vida porque, sabemos que esses são anos importantíssimos para o desenvolvimento de competências imprescindíveis para a autonomia e autodeterminação da criança. O desenvolvimento da ciência também permitiu uma melhor saúde desde o início da vida. Esses primeiros anos, são as bases de um futuro saudável a todos os níveis (biológico, psicológico e social). Sabemos que para o desenvolvimento adequado da criança é imprescindível a atenção dos seus pais/ cuidadores. Porque a criança precisa, em primeiro lugar, de amor. Depois de atenção. Porque a atenção a faz sentir especial e a faz confiar. Essa confiança contribui para o bem-estar da criança e para a construção da resiliência. Por outro lado, a criança precisa de quem oriente os seus passos, de uma educação dirigida para que possa chegar ao máximo das suas potencialidades. Precisa de interação. Essa interação vai contribuir para o desenvolvimento da empatia, a capacidade que temos de compreender os sentimentos dos outros, de sermos capazes de desenvolver o sentimento de compaixão. O sentimento de compaixão é uma das formas de diminuirmos a violência no mundo.
E o que acontece quando damos um telemóvel a um bebé, ou a uma criança pequena? Quando damos um telemóvel a uma criança, poderemos estar a hipotecar a sua evolução enquanto pessoa individual: um telemóvel nas mãos de uma criança representa um abandono intencional, porque o telemóvel não interage com a criança, nem a ajuda a resolver os seus problemas de desenvolvimento. O telemóvel prende a atenção da criança pelos estímulos visuais e auditivos que emite. Mas o telemóvel não responde às necessidades da criança. Não tem sentimentos e não interage com a criança. Não contribui para o seu desenvolvimento. E quanto mais cedo a criança tiver contacto com o telemóvel, mais grave é. Sabemos que os primeiros 1000 dias de vida da criança são cruciais para o seu desenvolvimento global. Têm um papel fundamental na regulação emocional e no vínculo com os pais/cuidadores e a elevada plasticidade biológica que caracteriza este período, permite transformações rápidas a nível físico, neurológico e emocional, o que influencia a saúde da criança, no presente e no futuro. Podemos assim dizer, de um modo geral, que os primeiros três anos de vida do ser humano são cruciais para o seu desenvolvimento, a nível da sua inteligência, da sua personalidade, da sua capacidade de confiar e de acreditar, enfim do seu lugar no mundo.
Quando falamos em inteligência, falamos das várias características e necessidades desta competência humana. Para o desenvolvimento da inteligência contribuem vários fatores pessoais, contextuais e culturais. Os fatores pessoais relacionam-se com os genes e com a saúde. Por outro lado, os fatores contextuais dizem respeito ao local em que a criança nasceu, à família onde nasceu, aos alimentos a que tem acesso, ao estado de Paz do local onde nasceu, etc.. Os fatores culturais também interferem no desenvolvimento porque podem impedir que a criança se desenvolva por falta de estímulos ou por crenças desadequadas, mas que são lei em algumas culturas. Cada família tem as suas regras próprias, regras essas que são transmitidas de pais para filhos, decorrentes da interação desenvolvida dentro da família.
Para a sobrevivência da nossa espécie, torna-se necessário que não percamos as capacidades extraordinárias que temos desenvolvido ao longo dos milénios em que existimos. E para esse desenvolvimento contribui a capacidade de entendermos o outro. Por isso, dar um telemóvel a uma criança pequena contribui principalmente para que ela não desenvolva a capacidade de pensar por si, impedimo-la de ver o mundo, de conseguir estar atenta ao que se passa à sua volta e de desenvolver capacidades de empatia, e de confiar nos outros. Também a pode impedir de desenvolver outras competências, como a destreza manual. A destreza manual, que nos permite tornarmo-nos independentes nas atividades de vida diária, como comer com talheres, vestirmo-nos, tornarmo-nos independentes nos cuidados de higiene, atar os atacadores dos sapatos, escrever, jogar à bola e ao berlinde, entre muitas outras atividades, desenvolve-se desde que nascemos e das aprendizagens que vamos tendo com os nossos pais e outros familiares.
A utilização do telemóvel pela criança, ao diminuir o tempo de interação entre os pais e a criança e ao automatizar pequenos gestos, também pode interferir negativamente no desenvolvimento da destreza manual, já que para utilizar o telemóvel a criança não necessita de usar todos os dedos das mãos, nem adaptar os seus dedos a várias situações; basta-lhe conseguir agarrar o telemóvel e premir teclas, ou tocar em teclas. Estas são algumas das muitas interferências negativas que o telemóvel pode ter no desenvolvimento da criança. Cabe-nos a nós decidir que futuro queremos para os nossos filhos…
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