Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde vão ter de cortar na despesa em 2026, mesmo que isso implique reduzir a atividade assistencial, segundo avança o jornal Público, especializado em notícias nacionais. A ordem terá sido dada pela direção executiva do SNS aos administradores hospitalares numa reunião em Santarém, após a entrega da proposta do Orçamento do Estado.
De acordo com a mesma fonte, a instrução inclui a necessidade de reduzir gastos com medicamentos, produção adicional, prestadores de serviço e contratações de pessoal. Num contexto de procura crescente do SNS, esta decisão tem gerado preocupação entre profissionais e gestores hospitalares, que receiam impactos diretos nos cuidados aos doentes.
Cortes abrangem várias áreas do SNS
A orientação prevê reduções em medicamentos, produção adicional como cirurgias fora do horário normal, prestadores de serviço e novas contratações. Segundo a fonte, a medida surge num contexto em que a procura pelos serviços do SNS continua a aumentar, levantando questões sobre o impacto nos utentes.
Ordem dos Médicos alerta para riscos
A Ordem dos Médicos classificou a decisão do diretor executivo do SNS como “profundamente lamentável e miserável”, alertando para o risco de agravar listas de espera e prejudicar os doentes.
O bastonário Carlos Cortes explicou à agência Lusa: “Aquela que deveria ser a pessoa que defende o Serviço Nacional de Saúde acaba por se prestar a este papel lamentável, de estar disposto a hipotecar a resposta do SNS, a resposta assistencial, por causa de cortes orçamentais e de cortes orçamentais cegos que terão de ser feitos em 2026”.
Preocupações dos conselhos de administração
Segundo Cortes, os conselhos de administração já manifestaram preocupações à Ordem, sublinhando as dificuldades diárias na gestão de recursos e na resposta aos doentes. “Temos bem a imagem de alguém que não faz a mínima ideia das dificuldades que os profissionais têm no dia-a-dia para dar uma resposta aos doentes que recorrem ao SNS, nem das enormes dificuldades que os conselhos de administração têm para conseguir juntar as várias pontas, trabalhando muitas vezes em suborçamentação para o poder fazer”, disse.
Impacto nas listas de espera e na ética da saúde
O bastonário alertou ainda que a medida surge num momento crítico, com o SNS a enfrentar grandes desafios em várias áreas, nomeadamente nas listas de espera de consultas, cirurgias e oncologia. “Se a indicação logo à partida é prejudicar os cuidados de saúde, então estamos logo à partida com um princípio profundamente errado, sobretudo de quem vem, que devia ser o primeiro a defender o acesso dos doentes ao Serviço Nacional de Saúde, e não a pôr como uma das hipóteses o sacrificar esses mesmos doentes”, vincou Cortes.
Para o bastonário, a decisão coloca também “uma matéria ética”, uma vez que “a primeira missão do diretor executivo, dos conselhos de administração, dos profissionais de saúde, é tratar os doentes”.
Cortes defendeu que é possível respeitar o rigor orçamental sem comprometer a qualidade do serviço. “Obviamente que temos que respeitar o rigor orçamental, mas esse rigor orçamental também tem de se traduzir em maior eficiência do SNS, cortar em áreas que não impactam diretamente na resposta aos doentes”, acrescentou.
Rigor orçamental versus vidas humanas
O responsável comparou a postura do atual diretor executivo a um funcionário do Ministério das Finanças que olha para estas matérias “de forma cega”, lembrando que a saúde “lida com vidas humanas, com pessoas em sofrimento, que precisam de cuidados de saúde”. “Portanto, temos de desenvolver tudo que está ao nosso alcance para podermos tratar essas pessoas e não olhar para estas matérias somente como números, somente como dados orçamentais”, concluiu Cortes.
A SIC Notícias adianta que a polémica surge quando a despesa no SNS disparou mais de 70 por cento na última década, num cenário em que a procura por cuidados médicos continua a crescer, reforçando a atenção sobre os impactos destes cortes no próximo ano.
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