A seca que atinge várias regiões do planeta deixou de ser considerada um fenómeno pontual e passou a ser classificada como “uma catástrofe mundial de lenta evolução”, segundo um relatório das Nações Unidas. O estudo destaca que desde 2023 se têm registado algumas das situações mais graves de sempre, com enormes impactos económicos e no preço do azeite.
O documento, intitulado “Pontos críticos de seca no mundo, 2023-2025”, alerta para consequências devastadoras em diversos setores. Mark Svoboda, um dos autores do relatório, sublinhou durante uma conferência em Bona, organizada pela Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação, que nunca tinha visto algo semelhante.
A realidade já se faz sentir no setor agrícola europeu, em especial nos olivais. Meses cruciais como setembro e outubro não trouxeram a chuva necessária para recuperar os solos e assegurar uma boa colheita.
Impacto no olival de Espanha
De acordo com o jornal espanhol AS, as temperaturas mantêm-se elevadas em províncias como Jaén, Córdoba e Sevilha, enquanto a ausência de precipitação prolonga a situação de stress hídrico. Organizações agrícolas como a UPA estimam uma produção entre 1,2 e 1,3 milhões de toneladas, mas a COAG alerta que as quebras podem chegar aos 40% se não chover em breve.
O cenário é agravado pelo prolongamento do verão, que em algumas regiões já dura perto de seis meses, resultado direto das alterações climáticas. O olival de sequeiro, responsável por 69% da área cultivada, é o mais penalizado.
Frutos desidratados e baixo rendimento em azeite estão a comprometer a campanha. O Banco de Espanha estima reduções de 10% a 30% na produtividade agrícola, sendo o olival um dos mais afetados.
O olival português: quem está mais exposto
No olival, a exposição não é homogénea. As áreas de sequeiro, mais presentes em Trás-os-Montes e Beira Interior, sentem primeiro a falta de água, enquanto o regadio do Alentejo tem amortecido parte dos impactos. O Alentejo concentra cerca de 80% da produção nacional.
Apesar das pressões climáticas, a campanha 2024/2025 terminou em terreno positivo: segunda maior produção de sempre (≈177 mil toneladas), impulsionada por novos olivais e ganhos de eficiência.
Este reforço produtivo ajudou a aliviar preços ao consumidor face aos picos de 2023–2024, com descidas próximas de 30% em 2024, segundo o INE. Ainda assim, os valores permanecem acima dos de 2022.
O que esperar dos próximos meses
Se outubro e novembro ficarem abaixo do normal em chuva, como indica a previsão sazonal, aumentam os riscos para a floração, enchimento e rendimento em azeite na próxima campanha, sobretudo no sequeiro.
Por outro lado, o setor entra no outono com algum “colchão” graças à boa colheita anterior e à modernização de lagares e olivais, fator que pode mitigar parte da volatilidade de preços no curto prazo.
Ainda assim, os agentes do mercado alertam: os preços internos respondem a um mercado internacional e podem voltar a subir se a oferta global apertar ou se a meteorologia contrariar as expectativas.
Previsões pouco animadoras
Segundo a AEMET e outros modelos meteorológicos, o outono de 2025 deverá ser mais quente e seco do que a média, sobretudo no oeste, centro e sul da Península Ibérica. No norte, leste e Baleares, as temperaturas também se deverão manter acima do normal.
Quanto às chuvas, a probabilidade aponta para valores muito abaixo da média histórica no oeste peninsular e nas Canárias. No restante território, a precipitação será irregular e insuficiente para inverter a tendência. Mesmo que ocorram episódios de tempestades intensas na zona mediterrânica, não serão suficientes para resolver a seca prolongada.
Consequências no mercado do azeite
Os preços já começaram a refletir a escassez. Em janeiro de 2024, o azeite virgem extra atingiu 8 euros por quilo em origem e, face às perspetivas atuais, a tendência é de nova subida.
O governo espanhol anunciou um pacote de 370 milhões de euros em apoios ao olival e à vinha de sequeiro, tentando atenuar a perda de rendimento e o aumento de custos. Ainda assim, o setor receia que estas medidas sejam insuficientes.
Um setor em transformação
Perante a persistência da seca, agricultores e especialistas apontam para a necessidade urgente de adaptação. Entre as soluções estudadas estão a utilização de rega mais eficiente, a substituição de variedades menos resistentes e a aposta em técnicas de agricultura regenerativa.
Para já, a incerteza domina. Caso não surja um alívio climático, o azeite disponível será mais caro e a crise poderá assumir contornos estruturais.
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