Ao longo da costa atlântica, pequenas ilhas foram, em diferentes épocas, escolhidas como locais de retiro espiritual, vigilância e defesa. Em algumas destas ilhas, a paisagem natural acabou moldada pela ação humana, que construiu edifícios religiosos e estruturas militares para responder às necessidades de cada período. É o caso de uma ilha portuguesa que testemunhou séculos de devoção religiosa, vigilância marítima e refúgio de monges.
A ilha da Ínsua, localizada ao largo da vila de Caminha, começou por ser habitada no século XIV pela Ordem dos Frades Menores. A escolha deste local isolado foi motivada pelo desejo de recolhimento espiritual e contacto com a natureza, conforme refere a Câmara Municipal de Caminha.
Foi nesta ilha portuguesa que, em 1392, teve início a construção de um convento franciscano sob orientação de Frei Diogo Arias. Esta presença religiosa marcou profundamente a identidade do espaço, que permaneceu ligado à vida monástica durante vários séculos.
No mesmo período, por ordem de D. João I, terá sido edificada uma primeira estrutura defensiva com o objetivo de proteger o convento e a costa envolvente. Contudo, não restam vestígios dessa construção inicial.
Elemento único
Uma caraterística distintiva da ilha da Ínsua é a existência de um poço de água doce, apesar de se encontrar rodeada pelo mar. Este fenómeno é extremamente raro, existindo apenas outros dois exemplos conhecidos em todo o mundo, segundo indica a mesma fonte.
Evolução e intervenções no convento
Ao longo dos séculos seguintes, o convento foi alvo de várias remodelações. Em 1471, foram construídas novas celas e a capela foi ampliada. Em 1502, durante uma peregrinação a Santiago de Compostela, D. Manuel visitou o local e determinou a realização de novas obras.
Nos últimos anos do século XVI, o espaço foi novamente intervencionado com o objetivo de reforçar a sua capacidade defensiva, face à crescente ameaça de ataques por parte de corsários estrangeiros, de acordo com a mesma fonte.
Construção da fortificação moderna
Durante o reinado de D. João IV, iniciou-se uma reforma nacional das fortificações costeiras. Entre 1649 e 1652, a ilha da Ínsua foi palco de uma intervenção liderada pelo Governador de Armas do Minho, D. Diogo de Lima.
Foi então construída a atual fortaleza, com planta em estrela irregular, composta por cinco baluartes e um revelim. Esta estrutura integrou o convento franciscano já existente, mantendo a função religiosa num espaço entretanto militarizado.
Em 1676, segundo aponta a mesma fonte, o convento foi ampliado para se adaptar à nova configuração da fortificação, evidenciando a convivência entre os dois usos deste espaço.
Aspetos arquitetónicos
A fortaleza apresenta elementos como guaritas facetadas nos baluartes e um balcão retangular construído sobre mísulas. O portal principal, aberto ao centro de uma das muralhas, apresenta arco pleno e é encimado por um frontão triangular decorado com brasões.
No interior, a praça de armas divide-se entre uma plataforma onde se localizam os antigos quartéis, depósito e cozinha, e a área conventual. A igreja do convento possui nave única coberta por abóbada de berço, com sacristia anexa, e o claustro quadrangular é formado por colunatas jónicas.
Tempos de restauração e ocupação militar
Durante o século XVIII, a ilha voltou a ser alvo de obras. Em 1717, D. João V contribuiu para a reconstrução da igreja, em particular da abóbada. Em 1767, foram edificadas novas celas, uma sala do capítulo e um retábulo.
Entre 1793 e 1795, os monges abandonaram temporariamente a ilha para permitir trabalhos de reparação. A comunidade regressou algum tempo depois, retomando as atividades religiosas, conforme refere a Câmara Municipal de Caminha. Com as Invasões Francesas, o espaço foi utilizado por tropas espanholas e francesas, perdendo temporariamente a sua função original.
Extinção da presença religiosa
A extinção das ordens religiosas em 1834 determinou o abandono definitivo da ilha pelos monges. A partir desse momento, esta ilha portuguesa passou a ser exclusivamente ocupada pelo exército. O último governador militar da fortaleza foi nomeado em 1909, encerrando um ciclo de ocupação militar formal e contínua.
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