As recentes chuvas intensas voltaram a colocar o tema das cheias no centro das preocupações nacionais, mas em Setúbal a realidade tem sido diferente, graças a um projeto de adaptação da cidade portuguesa às alterações climáticas que está agora a ser posto à prova.
Enquanto várias zonas ribeirinhas do país enfrentam inundações, sobretudo no vale do Mondego, no Centro, o concelho de Setúbal tem resistido ao mau tempo sem registar danos de maior. Historicamente vulnerável a cheias repentinas, o município conseguiu mitigar o impacto das tempestades das últimas semanas com uma solução estrutural pensada há quase uma década, de acordo com o portal especializado em meteorologia Meteored.
Um território marcado pelas cheias
Situada numa planície de cheia, para onde convergem várias ribeiras com declives acentuados, a cidade portuguesa de Setúbal sempre foi particularmente sensível a episódios de precipitação intensa e concentrada em curtos períodos. Tal como acontece em Alcácer do Sal, a zona baixa da cidade sofreu ao longo dos anos com inundações súbitas, agravadas pela reduzida capacidade de retenção de água dos solos e pela crescente impermeabilização urbana.
Perante este cenário, a autarquia avançou com um plano ambicioso de adaptação às alterações climáticas, apoiado por fundos comunitários, que representou um investimento de cerca de três milhões de euros.
A solução nasceu no Parque Urbano da Várzea
O centro desta estratégia é a bacia de retenção construída no Parque Urbano da Várzea, inaugurado em 2018. Embora o espaço verde esteja aberto há vários anos, só agora, com a sucessão de tempestades deste inverno, a infraestrutura foi verdadeiramente testada.
A bacia, associada à ribeira do Livramento, tem capacidade para armazenar até 240 mil metros cúbicos de água, o equivalente a cerca de 100 piscinas olímpicas.
Está dividida em duas áreas, uma maior na margem esquerda, com 229 mil metros cúbicos, e outra menor na margem direita, com 11 mil. Integra descarregadores laterais, sistemas de drenagem pluvial estratégicos e uma câmara de esvaziamento que permite libertar a água de forma automática e controlada para a rede urbana, de acordo com a mesma fonte.
Como funciona o mecanismo de proteção
Este sistema foi concebido para evitar a sobrecarga da rede de drenagem mesmo em situações de maré cheia. Em articulação com outras estruturas instaladas na cidade, nomeadamente na zona da Algodeia, assegura uma capacidade global de retenção próxima dos 300 mil metros cúbicos.
O parque regula os caudais das ribeiras do Livramento e da Figueira, com extensões de 8,54 e 4,68 quilómetros, respetivamente. Estas linhas de água transportam caudais significativos provenientes das serras do Louro e de São Luís.
Quando as marés do Atlântico e a pressão do rio Sado permitem, a água acumulada é devolvida ao leito natural através de canais próprios e válvulas de pressão. Parte é também absorvida pelo solo do próprio parque, reduzindo o impacto da impermeabilização nas zonas mais urbanizadas.
Um parque que é mais do que engenharia
Com uma área de intervenção de 19 hectares, o Parque Urbano da Várzea não se limita à função hidráulica. Foram plantadas cerca de 1300 árvores de espécies autóctones, contribuindo para a prevenção da erosão do solo e para a redução do efeito de ilha de calor urbano.
Durante o inverno, funciona como sistema de drenagem. No verão, transforma-se num refúgio climático para a população, oferecendo sombra e zonas verdes num contexto de temperaturas cada vez mais elevadas. De acordo com a fonte anteriormente citada, foram ainda construídos dois furos geodésicos para garantir o abastecimento de água ao espaço e criados caminhos pedonais, tornando o parque num dos principais locais de lazer da cidade.
Resultados visíveis nas últimas semanas
Apesar dos elevados níveis de pluviosidade registados recentemente, a bacia encontra-se abaixo de 50 por cento da sua capacidade, mantendo uma margem de segurança significativa para novos episódios de chuva intensa.
A intervenção incluiu também a preservação de património relevante, como o aqueduto da Quinta de Prostes, antigos tanques de rega, poços e edifícios existentes na área, conciliando proteção ambiental com valorização histórica. Paralelamente, a autarquia desenvolveu um programa de sensibilização junto das escolas do ensino básico, promovendo a educação ambiental e a consciencialização para os desafios climáticos, refere ainda o Meteored.
Com novos investimentos previstos, incluindo a implementação de um sistema de rega automatizada e o reforço da plantação de espécies autóctones, esta cidade portuguesa apresenta hoje um exemplo concreto de como o planeamento urbano pode reduzir riscos e proteger a população face a fenómenos meteorológicos cada vez mais extremos.
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