O crescente consumo de álcool na via pública está a alterar rotinas e a intensificar queixas de moradores sobre ruído, insegurança e sujidade nesta zona lisboeta. Para muitos, esta local vive um quotidiano marcado por copos na rua e por noites prolongadas que deixam marcas visíveis ao amanhecer.
Assembleia inédita dos moradores
Sem respostas oficiais à vista para a situação que consideram cada vez mais degradante no Bairro Alto, a associação Somos Bairro Alto realizou a sua primeira assembleia para discutir medidas e recolher propostas. Do Largo do Camões ao Príncipe Real, passando pela Rua do Século e pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara, vizinhos juntaram-se para procurar devoluções de sossego e segurança ao Bairro Alto.
Apesar da chuva e do vento, a adesão foi considerada significativa pelos organizadores. Um dos fundadores, Filipe Santiago Domingues, de 57 anos, recordou ter crescido no bairro e explicou que já não deixa os filhos brincar na rua devido ao ambiente noturno associado a horários de bares e ao consumo de álcool, conta o Expresso.
Da limitação do trânsito ao licenciamento zero
Entre as causas apontadas pelos moradores está a evolução do modelo de ocupação do espaço público nas últimas décadas. Referem que a limitação do trânsito a residentes, conjugada com o licenciamento zero, favoreceu a proliferação de estabelecimentos noturnos.
Muitos bares, pequenos e sem capacidade interior suficiente, estendem a atividade para o exterior, ocupando passeios e portas de edifícios. De manhã, as consequências são visíveis: lixo no chão, vidros partidos e odores persistentes junto a fachadas, numa zona histórica sujeita a forte pressão noturna, refere a mesma fonte.
Policiamento e eventos
Os residentes reconhecem o esforço das forças de segurança, mas consideram que a resposta fica aquém nas noites de maior afluência. Em períodos com grandes eventos na cidade, relatam que parte dos efetivos é deslocada, deixando o bairro mais exposto a episódios de vandalismo e desordem.
A associação critica a ausência de um plano regular de fiscalização que articule limpeza urbana, horários e ocupação do espaço público. Defende ainda uma calendarização previsível de operações de policiamento, sobretudo em fins de semana e épocas festivas, explica ainda o semanário Expresso.
Plataforma de associações e próximos passos
No plano organizativo, a Somos Bairro Alto elegeu direção, estruturou equipas para além da comissão instaladora e angariou novos membros. Entre as prioridades está a proposta de regras semelhantes às de Porto, Braga ou Vilamoura, onde a venda de álcool para consumo na via pública é proibida durante a noite.
Os moradores sublinham que o problema não se limita às artérias mais movimentadas e atinge ruas residenciais, onde paredes e muros são usados como sanitários improvisados. Reivindicam, por isso, medidas específicas para a zona habitacional, incluindo fiscalização reforçada e limpeza célere.
A associação conta com o apoio de Paula Teixeira da Cruz e integra a plataforma Lisboa, que reúne 17 associações de moradores. O objetivo é concertar posições para combater o que apelidam de “Disneylândia do álcool” e promover um equilíbrio entre a dinâmica económica noturna e o direito ao descanso.
Entre expectativas e receios, os residentes pedem uma atuação coordenada que inclua limites claros à ocupação do espaço público, regras para a venda de álcool e tempos de limpeza mais apertados. O desejo é simples: que a zona volte a permitir que as crianças brinquem na rua em segurança e que o bairro histórico recupere uma convivência equilibrada entre moradores e atividade noturna.
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