A União Europeia (UE) quer mudar as regras da indústria automóvel com uma nova estratégia centrada na produção local de carros na Europa, numa tentativa de reduzir a dependência da China e proteger setores considerados estratégicos, como o automóvel, numa altura de crescente pressão geopolítica e industrial.
De acordo com o portal Razão Automóvel, a medida surge no âmbito da estratégia “Made in Europe”, integrada no chamado Industrial Accelerator Act, e prevê que os automóveis produzidos na Europa passem a incorporar uma percentagem mínima de materiais e componentes de origem local.
Na prática, Bruxelas quer diminuir a exposição da indústria europeia a cadeias de fornecimento externas, num momento em que continuam a ganhar peso as preocupações com a dependência da Ásia em áreas críticas como baterias, semicondutores, processadores e outros componentes eletrónicos.
O tema ganha ainda mais relevância num contexto internacional instável, marcado por tensões que podem afetar rotas estratégicas para o abastecimento mundial. Entre elas está o Estreito de Ormuz, uma passagem sensível para matérias-primas e recursos essenciais à economia global.
Nova exigência para veículos produzidos na Europa
Segundo o novo enquadramento, os veículos novos fabricados na Europa terão de cumprir critérios específicos para poderem beneficiar de concursos públicos ou de determinados programas de incentivo.
As regras aplicam-se sobretudo a veículos elétricos, híbridos plug-in e modelos a hidrogénio. Um dos primeiros requisitos é que o automóvel seja montado em território dos Estados-membros da União Europeia, estando também Reino Unido e Japão incluídos neste enquadramento referido pelo setor.
Além disso, será exigida uma quota mínima de 70% de peças produzidas na União Europeia, calculada com base no valor das peças à saída da fábrica. A bateria fica fora desta conta, por obedecer a critérios próprios.
A intenção da Comissão Europeia é clara: reforçar a capacidade industrial interna e garantir que uma parte maior do valor gerado no setor automóvel permanece na Europa.
Objetivo é reforçar peso da indústria no PIB
Bruxelas quer que, até 2035, a produção industrial represente 20% do Produto Interno Bruto da UE, acima dos atuais 14%. A meta passa também pela criação de cerca de 150 mil novos postos de trabalho.
Ainda assim, a mudança não está isenta de dúvidas. A imposição de mais conteúdo local poderá traduzir-se em custos de produção mais elevados, com reflexos no preço final dos automóveis e na competitividade da indústria europeia face a outros mercados.
Ao mesmo tempo, a dependência externa continua a ser especialmente visível no segmento dos veículos elétricos. A China domina mais de 70% da produção mundial de baterias para este tipo de automóveis, mantendo também forte influência noutras etapas da cadeia industrial.
Portugal também está no centro desta transformação
Portugal acompanha este debate com especial atenção, até porque tem vindo a consolidar o seu peso na indústria automóvel europeia. Em 2025, o país afirmou-se como o nono maior produtor automóvel da Europa.
No setor dos componentes, a presença nacional é ainda mais expressiva. Segundo os dados citados no artigo, 98% dos automóveis fabricados na Europa incluem pelo menos um componente produzido em Portugal.
Este segmento representa cerca de 5,2% do PIB português e movimenta perto de 14,7 mil milhões de euros por ano, mostrando a relevância estratégica da indústria de componentes para a economia nacional.
Também o setor dos moldes continua a destacar-se. Portugal é apontado como o terceiro maior produtor europeu e o oitavo a nível mundial, num ramo industrial fortemente exportador e com grande peso tecnológico.
De acordo com os números referidos, a indústria de moldes faturou 788 milhões de euros em 2024, sendo que 80% da produção teve como destino os mercados externos.
Um setor estratégico em tempo de pressão global
A indústria automóvel europeia entra, assim, numa fase decisiva. Entre novas regras internas, instabilidade internacional e forte concorrência global, o setor vê-se obrigado a repensar a sua base industrial e o modo como garante autonomia produtiva.
Já não está apenas em causa a fabricação de carros ou a transição tecnológica para a mobilidade elétrica. O que está em jogo é também a capacidade da Europa proteger emprego, investimento e conhecimento industrial num dos seus setores mais importantes.
No conjunto da UE, a indústria automóvel é responsável por cerca de 13 milhões de empregos, incluindo milhares em Portugal, o que ajuda a explicar por que razão esta mudança está a ser vista como uma decisão estratégica para o futuro económico do continente.
Leia também: Atenção ao ano: condutores que tiraram a carta de condução entre estas datas têm um prazo de renovação diferente
















