O debate sobre as pensões e as condições laborais continua a marcar a temática do trabalho e da reforma, sobretudo entre quem passou décadas em atividades exigentes e mal remuneradas. A realidade vivida por muitos trabalhadores estrangeiros a residir em Espanha ajuda a ilustrar fragilidades que também encontram eco noutros países europeus, incluindo Portugal. Neste artigo, vamos falar-lhe de um reformado de 75 anos que, tendo trabalhado muitas horas por dia, tem uma pensão que considera que “não é lógica” face a esse esforço.
Oswaldo Martín, reformado de 75 anos, nasceu na Argentina e vive em Espanha há 22 anos. Construiu toda a sua carreira no país e, após 22 anos a trabalhar como padeiro, recebe atualmente uma pensão de cerca de 900 euros mensais.
Como explica em declarações ao jornal digital espanhol Noticias Trabajo, esse valor resulta diretamente dos anos de descontos efetuados. “Fizeram-me a reforma de acordo com o que descontei. Não é lógico, mas mais não se pode pedir”, afirma.
Disparidade entre reformados e trabalhadores por conta própria
Para Oswaldo, a situação dos trabalhadores independentes é ainda mais preocupante. Diz conhecer muitos casos de autónomos que, apesar de 30 ou 40 anos de contribuições, acabam com reformas de cerca de 700 euros. Considera que as desigualdades salariais e a falta de organização laboral dificultam o acesso a pensões adequadas.
A diferença do poder de compra entre países também marca a sua análise. A filha vive em França “e ganha muito mais”, sublinha, embora reconheça que “tudo é mais caro” naquele país. Em Almería, onde reside, descreve os salários como “médios a baixos”, mas nota que o custo de vida é relativamente reduzido, refere a mesma fonte.
Jornadas extensas e horas não pagas
Oswaldo recorda ainda que o futuro dos jovens depende fortemente do setor onde trabalham. Quem consegue um bom emprego “não o larga”, mas em áreas como a hotelaria e o comércio afirma que “por vezes nem pagam as oito horas” e os salários ficam limitados ao mínimo legal.
O antigo padeiro, agora reformado aos 75 anos, admite que teve sorte com a empresa onde trabalhou, algo que não aconteceu com muitos dos seus colegas. Ainda assim, o ritmo era exigente desde o início. Quando era novo, conta que suportava melhor a dureza do trabalho, mas para quem entra mais tarde “se não há outra opção, tem de se aguentar”. As jornadas eram longas e sobretudo noturnas, começando por volta da meia-noite e regressando a casa apenas perto do meio-dia.
Salário oficial versus salário real
Durante esses anos recebia “mil e tal euros, 1.500”, mas calcula que, se as muitas horas extra não pagas fossem contabilizadas, o salário deveria rondar entre 2.000 e 2.500 euros. “Quem te paga 2.500? Em lado nenhum”, conclui, citado pelo Noticias Trabajo.
Enquadramento da realidade portuguesa
Em Portugal, preocupações semelhantes têm sido discutidas tanto por trabalhadores como por especialistas. A legislação nacional estabelece regras claras sobre horários de trabalho, pagamento de horas extra e contribuições para a Segurança Social. O Código do Trabalho determina que as horas suplementares devem ser remuneradas com acréscimo e que o tempo de trabalho não pode ultrapassar os limites legais.
No que respeita às pensões, o regime geral da Segurança Social calcula o valor da reforma com base na carreira contributiva, abrangendo fatores como remunerações registadas e número de anos de descontos. A proteção dos trabalhadores independentes é assegurada pelo regime dos recibos verdes, onde o cálculo das contribuições segue taxas específicas e obrigações próprias.
Este enquadramento legal visa precisamente evitar situações de longas jornadas não pagas e reformas desadequadas face a décadas de trabalho, embora continue a existir debate público sobre a necessidade de reforçar mecanismos de fiscalização e assegurar maior equilíbrio entre esforço laboral e proteção na velhice.
















