A crise da habitação deixou de ser um problema exclusivo das camadas mais jovens para atingir com violência a população sénior. O aumento galopante dos preços do arrendamento, aliado a pensões que não acompanham o custo de vida, está a forçar muitos idosos a tomarem decisões de sobrevivência drásticas. É o retrato de uma nova realidade social onde a privacidade e o descanso da reforma dão lugar à partilha forçada por estrita necessidade económica.
O caso de Tomasa é o rosto visível desta precariedade que afeta cada vez mais pensionistas. Aos 70 anos, esta mulher viu-se obrigada a arrendar um quarto em vez de uma casa inteira para não ficar na rua, dividindo o teto com três pessoas em Móstoles, nos arredores de Madrid.
A história é avançada pelo portal espanhol Noticias Trabajo, que cita uma entrevista onde a idosa expõe a matemática cruel do seu dia a dia. Com uma reforma de apenas 650 euros e uma renda de 250 euros pelo quarto, a conta é simples e dolorosa: “Sobram-me 400 euros para viver o resto do mês”, confessa, admitindo que o valor é escasso para cobrir todas as restantes despesas de alimentação e saúde.
Estratégias de poupança extrema
Indica a mesma fonte que a gestão orçamental de Tomasa exige cortes radicais nos produtos básicos de consumo. A idosa admite sem rodeios que, para fazer render o dinheiro, muitas vezes as suas refeições se resumem a sanduíches de mortadela, garantindo que subsiste com essa dieta restritiva.
A inflação no supermercado obriga a truques de poupança levados ao limite para evitar a rutura financeira. A reformada confessa que procura sempre os preços mais baixos e, quando o leite começa a escassear na embalagem, chega a acrescentar água para aumentar a quantidade e fazê-lo durar mais tempo.
Café e férias tornaram-se luxos
Até o café se transformou num artigo de luxo praticamente incomportável para a sua carteira, exigindo trabalho em troca deste pequeno prazer. Tomasa colabora com limpezas num centro cultural para idosos e, como compensação pelo serviço prestado, tem permissão para consumir o que desejar no bar da instituição.
Explica a referida fonte que o lazer e o descanso fora de casa foram totalmente riscados dos planos devido à falta de verbas. Durante os meses de verão, as alternativas resumem-se a idas à piscina municipal quando pode pagar a entrada simbólica de um euro ou a duches em casa para combater o calor.
A solidão combatida com companhia
Apesar das dificuldades financeiras e da falta de privacidade, a partilha de casa trouxe um benefício inesperado no combate ao isolamento social. A idosa divide o apartamento com uma auxiliar de enfermagem e dois rapazes, com quem afirma manter uma excelente relação de convivência e proximidade.
Os momentos noturnos tornaram-se a altura favorita do dia, transformando a sala de estar num espaço de partilha de experiências entre gerações. Tomasa assume o papel de confidente e conselheira, ajudando os colegas de casa mais jovens a lidar com os problemas laborais do quotidiano.
Recusa viver sozinha por medo
A experiência de viver em comunidade revelou-se tão positiva para a sua saúde mental que a reformada tomou uma decisão surpreendente. Mesmo quando lhe foi oferecida a possibilidade de um apartamento onde poderia viver sozinha, optou por recusar a oferta para se manter acompanhada.
Explica ainda o Noticias Trabajo que o medo da solidão e da depressão fala mais alto do que a vontade de ter um espaço privado. Tomasa prefere manter a sua rotina de partilha e as restrições de espaço a enfrentar o silêncio de uma casa vazia, encontrando nos colegas de quarto a família que precisa.















