A detenção pela Polícia Judiciária de dez militares da GNR e um agente da PSP em Beja, acusados de integrar uma rede criminosa de exploração laboral de trabalhadores imigrantes, lançou novamente uma sombra pesada sobre as forças de segurança portuguesas. O episódio não surgiu do nada: insere-se num padrão de casos que têm vindo a público nos últimos anos — desde Odemira, passando por Tavira, mas também, em muitos outros casos protagonizados por agentes da PSP em Olhão, Amadora, Alfragide e Porto.
Perante esta sequência de escândalos, renova-se a pergunta que muitos preferiam não ter de fazer: Afinal quem vigia a polícia?
Acontece que nas últimas décadas, Portugal, tem orgulhosamente afirmado, um modelo de policiamento democrático, próximo das populações e respeitador dos direitos fundamentais. Mas os acontecimentos recentes, sobretudo quando envolvem agentes da autoridade no uso de violência ilegítima, abusos de autoridade ou participação ativa em redes criminosas, põem em causa a solidez desse modelo. Não basta dizer que são casos isolados ou que se trata de “maçãs podres”. Quando episódios semelhantes se repetem, e quando, alguns revelam falhas claras de supervisão, compadrio ou impunidade, é inevitável olhar para a estrutura institucional, e não apenas para os envolvidos.
Estas detenções em Beja são particularmente desconcertantes porque sugerem uma degradação ainda mais profunda: não se trata apenas de violência gratuita ou excesso de zelo. Trata-se da utilização da autoridade pública parapermitir explorar economicamente trabalhadores vulneráveis, muitos em situação precária, com receio de denunciar abusos por dependência económica ou medo de deportação. A exploração organizada de imigrantes com a cobertura de agentes de autoridade atinge o coração da confiança democrática. Não é apenas má conduta: é traição ao mandato público e ao juramento prestado no ato do compromisso de honra que marcou o início da carreira destes profissionais.
O caso de Odemira, ainda fresco na memória coletiva, expôs um conjunto de práticas violentas cometidas por vários militares da GNR: agressões, maus-tratos, atos de humilhação filmados pelos próprios autores, e uma clara motivação xenófoba dirigida contra imigrantes do sul da Ásia. Apesar da gravidade das acusações, os processos disciplinares internos tardaram, e alguns dos agentes permaneceram ao serviço até fases tardias do inquérito criminal.
Este ciclo repete-se: na sequência de denúncias graves, a reação institucional é lenta, muitas vezes burocrática, e a responsabilização efetiva — quando chega — é rara ou tardia. Isto alimenta a perceção, entre as populações, de que existe uma cultura de tolerância interna para comportamentos abusivos. Ainda que tal não corresponda à grande maioria dos efectivos policiais, a imagem pública desgasta-se e o escrutínio torna-se cada vez mais urgente.
Quer a PSP quer a GNR dispõem de mecanismos internos de inspeção, auditoria e disciplina; contudo, a prática mostra falhas persistentes.
Em qualquer força de segurança, mas especialmente numa estrutura militar como a GNR, as hierarquias têm um papel decisivo. Não basta dirigir a partir do gabinete. O exercício de comando exige presença regular no terreno, contacto de proximidade e enquadramento adequado dos efetivos aos vários níveis, compreensão dos contextos operacionais e capacidade de antecipar comportamentos de risco.
Quando esta supervisão falha, os grupos mais isolados — postos territoriais, e esquadras com baixa rotação de pessoal — tornam-se ambientes propícios ao desenvolvimento de subculturas próprias, nem sempre compatíveis com os valores das Instituições.
Neste contexto, torna-se fundamental o papel de liderança dos comandantes, acompanhando regularmente as patrulhas, realizando rondas inopinadas, conversando com as comunidades locais, avaliando de forma ativa o comportamento, o discurso e a conduta dos seus subordinados e identificando sinais de desprezo por populações vulneráveis, atitudes discriminatórias, autoridade excessiva ou comportamentos economicamente suspeitos.
Quando os comandantes deixam de estar próximos, deixam também de ter autoridade moral. E quando essa autoridade se dilui, abrem-se espaços onde a arbitrariedade, o abuso e o desvio da missão podem florescer.
A pergunta é desconfortável, mas necessária: onde estavam as hierarquias em Beja?
Como foi possível que uma rede organizada de exploração laboral funcionasse envolvendo vários militares sem que ninguém — nenhum superior, nenhum escalão hierárquico — tivesse percebido os sinais?
Qual a missão e posterior avaliação do desempenho das patrulhas que integraram os envolvidos? Que rondas ocorreram? Quantas inspeções foram feitas à atividade operacional da subunidade onde estavam colocados aqueles militares? O que falhou, e desde quando?
Há vários anos que vêm surgindo alertas: os estatutos disciplinares das forças de segurança são excessivamente brandos e garantísticos. As penas aplicáveis, mesmo para casos graves, são frequentemente suspensas, reduzidas ou convertidas em sanções mínimas. A expulsão do serviço — a mais elevada das penas — é rara, mesmo em cenários de violência injustificada, abuso de poder ou violações claras de deveres fundamentais. Este excesso de benevolência transmite internamente a ideia de que “no pior dos casos, a punição será leve”. Esta mensagem — mesmo não assumida — é corrosiva.
Numa profissão em que o poder coercivo da autoridade é significativo e a vulnerabilidade de muitas populações é evidente, a existência de impunidade, incluindo a mera perceção de que ela ocorre, constitui um fator de risco institucional com potenciais impactos profundos na confiança pública e na legitimidade das polícias. Torna-se, por isso, urgente rever estes estatutos disciplinares, tornando-os mais claros, mais céleres e mais proporcionais à gravidade dos comportamentos.
Além disso, a própria proximidade hierárquica — comandantes avaliando subordinados com quem trabalham diariamente — cria um ambiente em que a isenção não é fácil. Há receio de manchar a imagem das Instituições, medo de conflitos internos e tendência para resolver problemas “dentro de portas”. Este reflexo corporativo, compreensível até certo ponto, é, no entanto, perigoso para a democracia quando leva a minimizar comportamentos graves.
As inspeções internas tendem a ser reativas, mais do que preventivas. Muitas, só avançam após exposição mediática, denúncias formais e aquelas que lhes são reencaminhadas pela Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI). A capacidade de detetar desvios de conduta no terreno é limitada, os meios humanos são escassos, e a burocracia interna desencoraja intervenções céleres, a não ser em casos muito mediáticos.
A verdade é que, sem inspeções regulares ou inesperadas, dotadas de autoridade para intervir rapidamente, grande parte das condutas desviantes permanecerá invisível até ao momento em que os danos já são, de todo, irreparáveis.
O controlo externo das forças de segurança, em Portugal, é feito pela Inspeção-Geral da Administração Interna, criada em 1996. Infelizmente, os meios de que dispõe não acompanharam o crescimento e a complexidade da estrutura policial, nem o volume crescente de queixas e denúncias. A Instituição teve um bom início, mas hoje, encontra-se visivelmente ameaçada por insuficiência de recursos e subdimensionamento. Tem por missão, entre muitas outras, investigar denúncias, propor processos disciplinares, fiscalizar condutas de atuação e realizar ações preventivas em postos e esquadras, com e sem pré-aviso, a qualquer hora do dia ou da noite. Mas, face ao acumular de queixas, os processos demoram meses ou anos, e muitas situações acabam arquivadas por falta de meios ou ausência de prova direta. O seu quadro inspectivo é constituído, apenas por 14 inspetores, pelo que é legítimo questionar: como pode a IGAI com meios tão limitados supervisionar duas forças de segurança com um efetivo superior a 40 mil profissionais? A resposta parece evidente: não pode.
E quando a polícia falha, quem mais sofre não são os cidadãos que têm visibilidade social, poder económico ou acesso fácil á justiça. São os imigrantes, trabalhadores precários, comunidades marginalizadas, jovens pobres e pessoas com baixa literacia jurídica. São aqueles que mais dependem da proteção do Estado — e que mais ficam expostos quando quem devia proteger se transforma num predador.
O caso de Beja é, disso, exemplo doloroso: trabalhadores que vieram procurar dignidade e sustento acabaram explorados por quem deveria garantir a sua segurança. É difícil imaginar traição maior ao contrato social.
O problema pode afigurar-se complexo, mas as soluções tendem a ser claras:
- Reforço efetivo das inspeções internas e externas:
- Mais inspetores,
- Mais inspeções,
- Mais autonomia,
- Menos burocracia, mais ação.
2. Reformulação dos estatutos disciplinares
- Penas proporcionais à gravidade.
- Expulsão em casos de abuso grave não deve ser exceção, deve ser norma.
3. Cultura de comando presente e interventiva
- Comandantes têm de estar no terreno acompanhando e fiscalizando e não apenas em gabinetes, produzindo relatórios.
- Avaliação constante de comportamentos e sinais de desvio.
4. Proteção efetiva para vítimas e denunciantes internos
- Facilitar denúncias anónimas.
- Proteger agentes que denunciam comportamentos abusivos.
5. Formação contínua e avaliação psicológica reforçada
- Direitos humanos, ética, deontologia e prevenção da diversidade e discriminação.
- Reavaliação periódica da aptidão para funções operacionais.
Portugal tem forças de segurança dedicadas que, na esmagadora maioria das vezes, atuam com grande profissionalismo mas, quando os mecanismos de controlo falham, quando as hierarquias não lideram e se afastam do terreno, quando os estatutos disciplinares funcionam como barreiras à responsabilização e quando a supervisão externa é débil, abre-se espaço para abusos que corroem a confiança pública e deixam cidadãos vulneráveis desprotegidos.
O caso de Beja não é um incidente isolado a ser esquecido; é um sinal vermelho que exige ação imediata para proteção da sociedade e dos profissionais que servem o país com extrema dedicação, em detrimento de minorias nocivas que minam a credibilidade e ferem a honra das Instituições.
Vigiar a Polícia é proteger a democracia.
















