Dizia Hannah Arendt não existirem pensamentos perigosos pois pensar, é em si mesmo, um acto perigoso. É por isso crucial o controlo da informação e do seu fluxo. Quem os controla, controla os pensamentos.
Onde antes a informação era estrangulada, surge agora uma imparável enxurrada. Que gera um natural efeito de desorientação ao invés do de ignorância, estado habitual nos governos autoritários. Daí surge tamanha hesitação em classificar abertamente como fascistas regimes protototalitários como os que estão em formação agora.
É necessário compreender estas autocracias à luz da conjuntura actual, fazendo os devidos ajustes relativamente à Itália dos anos 20 ou à Alemanha dos anos 30, de onde não foram beber apenas o populismo, mas também o programa político.

Autor, tradutor e editor
Apesar do que nos querem impingir, uma boa ideia não basta para enriquecer, é preciso um rico envolvido
Da mesma forma que o capitalismo se tem transmutado ao longo do tempo, ao ponto de lhe chamarmos por vezes metacapitalismo, não mudando por isso a sua essência. Ainda são os detentores do capital os verdadeiros centros de decisão. O que mudou sim, foi a forma como esse capital é alcançado. Onde antes pesava a posse dos meios de produção, pesa agora também a posse dos meios tecnológicos e de informação, mas continua a ser necessário dinheiro para fazer dinheiro, como prova a incontornável necessidade de qualquer start up em encontrar investidores, por mais brilhante que o seu produto seja. Apesar do que nos querem impingir, uma boa ideia não basta para enriquecer, é preciso um rico envolvido.
Também o fascismo, agora numa versão tecnofascista, tem evoluído. Tem aprendido não só com os adversários – lição que a esquerda, por sobranceria moralista, nunca aproveitou – apropriando-se do seu vocabulário e ideário, mas também com as circunstâncias. Soube igualmente organizar-se num projecto quase global. Algo que o sonho europeu nunca conseguiu verdadeiramente, apesar da proximidade geográfica, uma vez que nasceu das suas próprias ruínas e foi renunciando ao estado social em detrimento do neoliberal.
A urgente questão que se põe, uma vez que tanto a sociedade civil como qualquer pretensa oposição partidária se encontram em extrema letargia e apatia, é, como lidar, a nível individual, com a incessante catadupa informativa, sendo que todos os meios de informação, digitais ou não, andam a toque de caixa do que quer que seja que Donald, Ellon e os seus congéneres europeus digam ou façam, num turbilhão de comentariado e análise que só aumenta a balbúrdia. Como diria Mao: “reina a desordem debaixo do céu, a situação é excelente.”
Parece-me que a melhor possibilidade que temos de manter alguma sanidade mental numa altura em que os dois minutos de ódio de Orwell em 1984 passaram a ser 24/7 não é nenhuma novidade e já o devíamos ter feito há muito.
Estar informados sim, preferencialmente de fontes diversas e independentes, mas decidir quando queremos que isso aconteça ao invés de sermos receptores passivos de informação sem qualquer controle sobre os termos em que isso acontece.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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