Na minha terra existe a tradição das Batalhas de Flores, por alturas do Carnaval, logo se vê não ser coisa de levar muito a sério, de batalha não tem nada, é a brincar, e as flores são de papel. Este ano, por ocasião da celebração do 25 de Novembro, a Assembleia da República iniciou uma nova tradição: as Batalhas de Flores Parlamentares. Também não é coisa séria. Os que acham que o 25 de Novembro foi a calibração do rumo do 25 de Abril, encheram a tribuna de rosas brancas. Vai daí, os que acham que só o 25 de Abril é que conta, puseram-se a sobrepor cravos vermelhos por cima das rosas brancas. Não se ficaram os das rosas brancas, e vai de tirar de lá os cravos vermelhos. Seguiu-se nova investida dos cravos, e lá se repôs a situação inicial. A batalha provavelmente teria lenha para se prolongar até o chefe dos contínuos desligar as luzes e dar a sessão por encerrada.
O episódio deixou marcas. Houve quem achasse muito bem a ideia das rosas brancas, uma das flores que mais embeleza os cemitérios. Como se está a assistir naquela casa à morte da Democracia aos poucos, talvez não fosse descabido fazer da escadaria frontal uma plantação de crisântemos, lírios, margaridas, copos-de-leite, orquídeas, gerberas, calandivas, artúrios, cravos brancos, liziantus e astromélias. Tudo bem decorado com palmas fúnebres, corações de rosas e cruzes de flores variadas. E, em ambos os ombros laterais, umas paredes arbóreas de ciprestes para melhor simbolizar a dor e a saudade eterna dos tempos em que a Democracia, a Liberdade, e o respeito pelo Povo e pelas Instituições eram associados à pureza dos ideais, à sinceridade, à inocência, à nobreza e ao respeito entre as pessoas.
Talvez seja ingénuo pensar que a instituição parlamentar alguma vez foi assim, mas em boa verdade vos diz quem cumpriu vinte e quatro anos de mandatos parlamentares que nunca o nível do debate desceu tão baixo. Claro que houve episódios menos edificantes. Aqui e acolá, alguns insultos, ameaças físicas até. Mas não passaram disso mesmo, episódios. O que se passou a assistir desde 10 de Março de 2024, é um padrão constante de gritaria e falta de respeito entre pares. É o uso e o abuso dos apartes parlamentares, da berraria grupal permanente, onde o objectivo é não deixar ninguém explanar três ideias consecutivas com nexo. O estilo misto de comentador de bola, regateira da praça, vendedor de banha da cobra, rufia do cais do sodré, parece ter feito escola. Num outro patamar, a polémica que envolveu recentemente a realização de um Jantar de Natal para os trabalhadores do Município de Faro, e o preço escandaloso per capita que poderia custar aos cofres da Câmara, pôs o dedo na ferida da facilidade com se desbarata o dinheiro dos munícipes. Pouco importa se isso já era tradição ou não. Há limites para a falta de bom senso. O que se gasta hoje em dia em festas e romarias por muitas das autarquias do País é um exagero, face a necessidades básicas que continuam por cumprir, nomeadamente na habitação, no apoio aos idosos, e na assistência às crianças. Enquanto houver este défice social, torrar o dinheiro público como se nada fosse, é uma irresponsabilidade tremenda. Chegou a altura de se começar a lançar um olhar crítico sobre esta situação, por muito impopular que seja.
Passemos a um exemplo muito diferente, pelo lado bom. A idade não perdoa, e mais rápida que lentamente, vão desaparecendo figuras de referência do Algarve. Foi o caso de António Feu, uma personalidade ímpar, que repartiu a vida entre Portimão e Lisboa, quer na actividade profissional, quer na vida desportiva e associativa. O seu ecletismo reflectiu-se na prática de modalidades tão díspares como o basquetebol, o ténis e a motonáutica, pelas quais foi campeão nacional. O seu contributo para o Museu de Portimão, sediado na antiga fábrica dos Hermanos Feu, foi decisivo desde a primeira hora. Fundou e presidiu a muitas instituições. O seu trabalho na indústria conserveira e naval foi meritório. Como atleta, treinador e dirigente dinamizou a prática desportiva na sua terra natal, deixando sementes que germinaram em tempos difíceis. Adepto do Sporting de coração, onde se iniciou como basquetebolista aos 15 anos de idade, foi um exemplo de desportivismo. Agraciado com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, tem nome de rua na terra onde nasceu: a Praia da Rocha.
Muito se escreveu sobre António Feu logo após o seu falecimento. Permito-me realçar dois aspectos que não vi abordados, e pelos quais os nossos caminhos se cruzaram. Foi um regionalista convicto, que sonhou sempre com um Algarve mais autónomo, tendo apoiado sem reservas o movimento cívico “Regiões. Sim!” que lancei com Carlos Brito e Paulo Neves, e que levou uma Petição pela Regionalização a debate no plenário da Assembleia da República em 2008. E esteve ligado de forma muito activa ao período áureo da Casa do Algarve em Lisboa, tendo passado pela tristeza de ver esta instituição morrer aos 85 anos de idade, em 2015, porque as 16 autarquias do Algarve deixaram de pagar quotas (máximo de 500 euros por ano, cada qual), e porque a própria Casa não foi capaz de renovar o seu quadro dirigente junto das novas gerações de algarvios residentes na capital.
Conheci António Feu em 1985. Fomos colegas parlamentares, em bancadas diferentes, mas daí começou uma amizade sincera. Era um homem bem-disposto, de espírito positivo, empreendedor e lutador. Amou profundamente o Algarve até ao fim. Lamento bastante o seu desaparecimento.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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