Susana Gonçalves transforma pedras e lã em peças únicas, dando-lhes vida e valor. Natural do Algarve, é uma das muitas artesãs que lutam diariamente para manter viva a tradição. O seu projeto pessoal, “Zandalas Mandalas”, surgiu após uma reviravolta na sua vida profissional com a crise de 2019. Nasceu da vontade de transformar um passatempo em sustento.
As suas peças, feitas à mão e com uma forte carga energética, refletem a sua resiliência e criatividade. “Desde miúda que sempre gostei de trabalhos manuais, mas a vida levou-me por outros caminhos e fui para a área administrativa. Só voltei ao artesanato quando a minha vida deu uma volta, por causa da crise em 2019”, conta a artesã.
Escasso apoio aliado à força de vontade
Os artesãos enfrentam cada vez mais obstáculos no exercício da profissão e Susana é um exemplo disso. No Algarve, o artesanato continua a ser uma expressão autêntica da cultura local, mas pouco parece melhorar desabafa a artesã. “Infelizmente, as pessoas gostam do nosso trabalho, mas não o valorizam”, lamenta. “Acham sempre que é caro, mas esquecem-se que uma peça pode demorar um mês ou mais a ficar pronta.”

A falta de reconhecimento do trabalho por trás de cada criação é apenas um dos muitos desafios. Os apoios públicos são escassos e as oportunidades de venda concentram-se, muitas vezes, nos meses de verão.
“No inverno, se não vender online, não dá. Não há muitas feiras. Há uma no Natal, outra em novembro, e depois só na primavera e verão. No resto do ano, não temos onde mostrar o nosso trabalho”, explica.
Para compensar, Susana diversificou as suas peças: além das mandalas, começou a fazer pulseiras e a vender cristais. “Trabalhamos muito e ganhamos pouco. Não é fácil ser artesão em Portugal”, desabafa.
Associações que apoiam os artesãos
Na tentativa de garantir alguma estabilidade, Susana associou-se à A.S.TA, uma das mais antigas associações de artesanato de Tavira. Fundada em 2001, a Associação de Artes e Sabores de Tavira é hoje uma referência no apoio ao artesanato local. Sediada na Casa do Artesão, junto ao castelo, dispõe de um espaço dedicado à venda de produtos regionais e à realização de oficinas em parceria com o município. Mas é nas ruas e jardins de Tavira que a A.S.TA mais se destaca.
Para Susana, faltam estruturas estáveis e permanentes. “Devia haver tendinhas fixas ou espaços com licenças acessíveis, para podermos mostrar o nosso trabalho durante todo o ano”, defende. Considera a associação essencial: “A A.S.TA é a que organiza mais feiras em Tavira e tem mais membros. Sem ela, era muito mais difícil ter visibilidade.”
Um futuro incerto
Quanto ao futuro do artesanato algarvio, Susana não esconde o cepticismo. “Espero que melhore, mas não sei. Artesãos mais antigos, como os latoeiros, estão a desaparecer. Os jovens já não se interessam.” A resistência ao novo é outro obstáculo crescente. “As pessoas estão habituadas ao que sempre viram. Quando veem algo diferente, não o reconhecem como artesanato. Têm medo da diferença.”
Apesar de tudo, Susana não desiste. Tal como muitos outros artesãos, mantém viva a tradição e faz da sua paixão uma forma de vida.
Marta Santos / Henrique Dias Freire
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