A posição do Papa Leão XIV sobre a utilização da Inteligência Artificial na Igreja Católica volta a colocar a tecnologia no centro do debate, depois de um alerta dirigido aos padres sobre o uso de ferramentas como o ChatGPT na preparação das homilias e sobre a “ilusão” criada pelas redes sociais como o TikTok.
O alerta foi feito pelo Papa Leão XIV, nascido Robert Francis Prevost, cardeal norte-americano, durante uma reunião à porta fechada com o clero da Diocese de Roma, no final da semana passada. Segundo o canal de notícias Vatican News, o sumo pontífice apelou aos sacerdotes para evitarem recorrer à inteligência artificial na preparação das suas intervenções religiosas.
Fé não pode ser automatizada
De acordo com a mesma fonte, o Papa defendeu que a fé não pode ser transmitida por um sistema automático ou artificial. Para Leão XIV, preparar uma homilia implica reflexão pessoal, experiência espiritual e compromisso interior, algo que, na sua perspetiva, não pode ser substituído por um algoritmo.
“Fazer uma homilia é partilhar a fé” e a IA “nunca será capaz de partilhar a fé”, afirmou o pontífice durante o encontro, sublinhando que a dimensão espiritual exige envolvimento humano direto.
Cérebro também precisa de exercício
O Papa alertou ainda para o risco de os sacerdotes deixarem de exercitar a sua própria capacidade de pensamento e escrita. Na sua intervenção, comparou o cérebro a um músculo que precisa de ser utilizado para não perder força. “Como todos os músculos do corpo, se não os usarmos, se não os movermos, eles morrem”, afirmou. “O cérebro precisa de ser utilizado, por isso a nossa inteligência também precisa de ser exercitada um pouco para não perdermos essa capacidade.”
Para Leão XIV, citado pela mesma fonte, a dependência excessiva de ferramentas tecnológicas pode comprometer o desenvolvimento da reflexão crítica e da criatividade pessoal, sobretudo numa missão que exige autenticidade e proximidade com os fiéis.
Alerta sobre o TikTok
Durante a mesma reunião, o Papa referiu que a inteligência artificial não é o único risco associado ao mundo digital. Apontou também para aquilo que descreveu como uma “ilusão comum na internet, no TikTok”, onde seguidores e gostos podem ser confundidos com uma verdadeira ligação espiritual.
A referência ao TikTok surge num contexto de crescente presença da Igreja nas redes sociais, mas também de preocupação com a superficialidade das interações digitais. Segundo o pontífice, popularidade online não equivale a profundidade na fé.
Vaticano entre prudência e inovação
As declarações do Papa surgem numa fase em que o Vaticano procura definir a sua posição face às novas tecnologias. No mesmo dia da reunião com o clero, foi anunciado um programa de tradução automática com recurso a inteligência artificial para textos litúrgicos.
O sistema, segundo foi divulgado, permitirá traduções em tempo real em até 60 línguas, o que demonstra que a Santa Sé não rejeita a tecnologia, mas procura enquadrá-la dentro de limites claros, de acordo com a Vatican News.
Este debate sobre o papel da IA na religião reflete uma tensão mais ampla entre tradição e inovação. Ao mesmo tempo que reconhece o potencial técnico destas ferramentas, o Papa Leão XIV deixa claro que, no que toca à transmissão da fé, a responsabilidade continua a ser essencialmente humana.
















