A monitorização por satélite da tartaruga-comum Salina revelou uma deslocação 9.203 quilómetros desde a sua libertação, um percurso que permitiu desenvolver um estudo considerado pioneiro e que liga migração, genética e conservação marinha. De acordo com a revista de sustentabilidade, Greensavers, a trajetória da tartaruga, acompanhada durante mais de um ano, tornou possível cruzar informação de telemetria com dados genéticos, permitindo aprofundar o conhecimento sobre a origem populacional da espécie e os seus movimentos no Atlântico e no Mediterrâneo.
A mesma fonte indica que estas informações surgem na sequência de um processo prolongado de recuperação, iniciado após o resgate da tartaruga no rio Guadiana, onde foi encontrada presa em equipamento de pesca e com sinais de anemia.
Uma investigação que combina tecnologia e conservação
Escreve o portal que o estudo resultante, intitulado “Tracking and Genetic Analysis of a Rehabilitated Loggerhead Turtle in the Mediterranean”, foi desenvolvido com base no transmissor colocado na Salina no momento em que regressou ao mar. O dispositivo permitiu registar deslocações, padrões ambientais e eventuais interações com atividades humanas, elementos considerados essenciais num contexto em que seis das sete espécies de tartarugas marinhas enfrentam risco de ameaça.
A utilização deste tipo de telemetria possibilita identificar rotas migratórias e zonas de alimentação, contribuindo para avaliar ligações entre populações atlânticas e mediterrânicas. Conforme a mesma fonte, esta é apenas a segunda vez que um estudo semelhante é realizado com tartarugas reabilitadas no Algarve.
De um resgate a uma rota inesperada
A recuperação da Salina decorreu no Porto d’Abrigo, onde permaneceu durante 12 meses até recuperar plenamente a condição física necessária ao regresso ao mar. Após a libertação em 2022, a tartaruga atravessou o Estreito de Gibraltar em apenas seis dias, iniciando uma migração que se estendeu pelo Mar de Alborão e por zonas costeiras de Marrocos e Argélia.
Nos meses seguintes, a tartaruga contornou a Sardenha e acabou por se fixar entre a Sicília e a Calábria, em Itália. A monitorização permitiu mapear deslocações e condições ambientais associadas ao percurso, enquanto a análise genética recolhida no momento da libertação ofereceu contexto adicional sobre a sua origem populacional.
Contributo que continua para lá do sinal perdido
Segundo a revista Greensavers, o acompanhamento terminou quando o transmissor deixou de emitir, situação frequente devido à duração da bateria. Até esse momento foi possível confirmar que a Salina sobreviveu 392 dias após a reabilitação, mantendo padrões compatíveis com o comportamento típico da espécie. Os dados agora integrados em investigação científica ajudam a identificar áreas de risco ligadas à pesca e zonas críticas para a conservação.
A publicação acrescenta ainda a declaração de João Neves, Diretor de Conservação do Zoomarine, que afirmou: “O percurso da Salina demonstra que o impacto do Porto d’Abrigo vai muito além da reabilitação e devolução ao mar. Cada animal monitorizado transforma-se numa fonte de conhecimento valiosa, capaz de orientar investigação, informar políticas públicas e melhorar a forma como protegemos espécies marinhas ameaçadas”.
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