A expulsão das tropas napoleónicas do Algarve foi impulsionada a partir de Olhão e teve uma particularidade que continua a surpreender mais de dois séculos depois: os revoltosos não eram soldados profissionais nem dispunham de um exército organizado. Eram sobretudo pescadores e habitantes locais que decidiram enfrentar a ocupação francesa numa altura em que a população vivia sob forte pressão económica e social.
A ocupação comandada por Junot tinha agravado as condições de vida em todo o país, mas no Algarve os efeitos fizeram-se sentir de forma dura. Segundo a síntese histórica publicada pelo portal Olhão Cubista sobre a Restauração dos Algarves, os pescadores de Olhão enfrentavam novos impostos, cobranças para poderem ir ao mar, restrições à atividade piscatória e outros tributos, o que agravava ainda mais as dificuldades da população.
Momento que desencadeou a revolta
Em junho de 1808, durante as celebrações ligadas a Santo António, um gesto simbólico ajudou a acender o rastilho da revolta. Depois de as autoridades francesas terem proibido a ostentação de símbolos nacionais, o brasão das armas portuguesas voltou a ficar visível na Igreja Matriz de Olhão.
Nos dias seguintes, os habitantes começaram a exibir bandeiras portuguesas nas embarcações. A tensão aumentou quando surgiu um edital de Junot, datado de 11 de junho, que foi afixado junto à igreja. Segundo a mesma fonte histórica, José Lopes de Sousa, antigo governador de Vila Real de Santo António que recusara submeter-se aos franceses, rasgou o edital e incitou a população à revolta.
A tradição histórica atribui-lhe ainda o apelo que ficou na memória: “Levantem-se mortos e acompanhem-me já que os vivos me abandonam”.
Como os franceses foram expulsos
Sem exército regular e com meios inicialmente escassos, os revoltosos procuraram armamento onde puderam. Alguns dirigiram-se às fortalezas costeiras de São Lourenço e da Armona, enquanto outros tentaram obter apoio militar. Acabaram por conseguir 130 espingardas em Ayamonte, em Espanha, com a ajuda do capitão Sebastião Martins Mestre.
Rapidamente passaram à ação. Em terra, foram aprisionados militares franceses. Depois, em plena ria, pescadores olhanenses surpreenderam embarcações vindas de Tavira para Faro com soldados franceses a bordo, capturando os militares, as bagagens, armas e munições.
Dias depois, as tropas napoleónicas tentaram recuperar o controlo da localidade, mas encontraram resistência na Ponte de Quelfes. De acordo com a ficha do Património Cultural sobre a Ponte Velha de Quelfes, em 18 de junho de 1808 foi travada nas suas imediações uma batalha entre habitantes de Olhão e Moncarapacho e as tropas francesas, que acabaram por retirar.
A derrota obrigou os invasores a recuar. Quando preparavam nova ofensiva, a revolta alastrou a Faro, tornando insustentável a presença francesa na região. Em poucos dias, as tropas napoleónicas acabaram expulsas do Algarve.
O barco que levou a notícia ao rei
Com a região libertada, surgiu a necessidade de informar o príncipe regente D. João, então no Brasil. Foi essa missão que ficou entregue ao Caíque Bom Sucesso, uma embarcação de Olhão que atravessou o Atlântico para comunicar a vitória sobre os franceses.
Sabe-se que o caíque partiu de Olhão em 6 de julho de 1808, com 17 tripulantes, todos pescadores olhanenses. A viagem demorou mais de dois meses e a embarcação chegou ao Rio de Janeiro em 22 de setembro, sem mapas nem aparelhos modernos de orientação.
A viagem tornou-se lendária e valeu a Olhão uma distinção rara. Em reconhecimento pelo papel desempenhado na resistência à ocupação napoleónica, D. João elevou o lugar a Vila de Olhão da Restauração, por Alvará Régio de 15 de novembro de 1808.
Hoje, uma réplica do Caíque Bom Sucesso continua atracada na zona da marina, junto aos Mercados Municipais de Olhão, recordando a história dos habitantes que ajudaram a expulsar as tropas de Napoleão do Algarve
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