A Alfaia – Associação Cultural, em Loulé, dá início à sua programação de artes visuais para 2026 com a exposição “Eclipse”, de Diogo Evangelista, com curadoria de Leonor Lloret. A mostra inaugura no próximo dia 16 de janeiro e foi concebida especificamente para o espaço da associação, apresentando uma obra original criada pelo artista para esta ocasião.
Segundo a Alfaia, “Eclipse” parte de um fenómeno astronómico raro e profundamente simbólico, surgindo num ano em que será possível observar, a 12 de agosto, um eclipse solar total. A associação recorda que o último eclipse total visível em território português ocorreu em 1916 e que o próximo apenas terá lugar em 2144, um intervalo temporal que convoca uma reflexão sobre a suspensão, a expectativa e a transformação da perceção.
Eclipse entre fenómeno astronómico e experiência simbólica
A exposição é atravessada por uma dimensão sensível e poética, expressa na citação de Michelangelo Antonioni, incluída no projeto curatorial:
“Gelo repentino. Silêncio diferente de todos os outros silêncios.
Luz térrea diferente de todas as outras luzes.
E depois o escuro. Imobilidade total.
Tudo aquilo em que consigo chegar a pensar é que durante o eclipse provavelmente se cerram os sentimentos.”
É nesta imobilidade, onde o contorno das coisas se difumina e a sombra ganha presença como mutação de um mundo interior, que Diogo Evangelista evoca o eclipse. Pensando o espaço específico da Alfaia e a luz solar intensa que caracteriza o Algarve, o artista convida o público a habitar o fenómeno tanto na sua dimensão astronómica como na sua condição simbólica de suspensão provisória da certeza.

O trabalho de Diogo Evangelista desenvolve-se em torno de temas como o desejo e a transformação, explorando o potencial animista da imaginação humana na apropriação de conceitos, imagens e ambientes. A sua prática cruza escultura, desenho, pintura e vídeo, explorando zonas intersticiais entre arte, ciência, realismo, ficção, tecnologia e natureza.
A obra apresenta-se como uma sombra intangível, uma imagem em movimento que transborda do seu suporte físico e se expande no tempo de quem a observa. No ponto em que o espaço se densifica e a distância se torna sensível, é proposto um exercício de cegueira deliberada, já presente no trabalho do artista, que permite perceber uma outra forma de luz: aquela que apenas se manifesta quando o mundo, por um instante, decide apagar-se.
Com “Eclipse”, a Alfaia inaugura um ano de programação dedicado à experimentação, ao pensamento crítico e à relação entre arte, espaço, perceção e performatividade, afirmando-se como um lugar de encontro entre práticas contemporâneas e o contexto singular do território algarvio. A exposição pode ser visitada até 14 de março e tem entrada livre.
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