Já reparou que, independentemente do país onde embarca ou da companhia aérea com que viaja, entra sempre no avião pelo mesmo lado? Esta rotina, aparentemente sem importância, esconde uma explicação que remonta a tradições antigas e a escolhas práticas que moldaram a aviação moderna.
O hábito de embarcar pelo lado esquerdo do avião tem raízes navais. Michael Oakley, editor da revista The Aviation Historian, explica que muitas práticas da aviação nasceram da navegação. Termos como leme, antepara, cockpit ou nós são herdados diretamente do mundo marítimo.
Da mesma forma, os aviões acabaram por adotar o conceito de bombordo. Tal como os navios se aproximam do cais com o lado esquerdo voltado para terra, as aeronaves passaram a receber os passageiros também pela esquerda, refere a AFAR.
Uma escolha que se tornou padrão
Segundo Oakley, esta opção não teve uma origem técnica absoluta, mas surgiu de forma prática e intuitiva. Era assim que se fazia nos navios, por isso fez sentido manter o mesmo lado nas aeronaves. Nos primórdios da aviação comercial, em que o embarque se fazia através de escadas colocadas no asfalto, tanto o lado direito como o esquerdo podiam ser utilizados. Ainda não havia uma regra universal.
Quando a United quis inverter tudo
Na década de 1930, a companhia norte-americana United Airlines adotou um modelo diferente. Os seus Boeing 247 tinham a porta para passageiros no lado direito. A ideia manteve-se mesmo quando passaram a operar aviões Douglas DC-3. A maioria das companhias, no entanto, optava já pela porta à esquerda. Com o tempo, e com o crescimento do tráfego aéreo, a padronização começou a impor-se como solução mais eficiente.
Organizar o caos
Bob van der Linden, curador do Museu Nacional do Ar e Espaço, nos Estados Unidos, citado pela mesma fonte, recorda que a crescente complexidade das operações em solo obrigou à criação de um sistema comum. O embarque pelo lado esquerdo facilitava a organização dos terminais e das equipas no terreno.
Com os aviões a seguir o mesmo procedimento, evitavam-se erros, atrasos e confusão nos portões de embarque. O lado direito ficava livre para tarefas técnicas, como abastecimento e carga.
O nascimento dos terminais modernos
Nos anos 1950, surgiram os terminais em estrela, modelo conhecido como pier finger. Aeroportos como os de Chicago, Amesterdão e Londres começaram a adotar este formato, com braços que se estendem a partir de uma zona central.
Este modelo tornava mais prático o acesso dos passageiros ao avião, e em breve surgiriam os famosos corredores telescópicos, os Jetways, que permitiam entrar diretamente no avião a partir do terminal.
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Piloto à esquerda, portão à esquerda
Matthew Burchette, curador no Museu do Voo, em Washington, explica que o facto de o piloto se sentar à esquerda no cockpit foi outro argumento a favor desta escolha. Com o portão também à esquerda, o piloto tem melhor visibilidade ao estacionar. Isso reduziu manobras perigosas e ajudou os aeroportos a funcionarem com maior rapidez e segurança. Um pequeno detalhe que, segundo a mesma fonte, tem um grande impacto operacional.
Dividir para agilizar
Michael Oakley reforça que, ao manter os passageiros e os serviços técnicos em lados opostos do avião, tudo corre melhor. Do lado esquerdo do avião circulam as pessoas, do lado direito trabalham as equipas de apoio. As refeições são carregadas, as malas entram no porão e os reabastecimentos são feitos sem interferência com o embarque dos passageiros. Cada equipa tem o seu espaço de trabalho.
Esta separação de tarefas tornou-se uma norma de eficiência. Evita que os passageiros atravessem zonas com maquinaria pesada ou carrinhos de carga, e reduz riscos de acidente ou atrasos no processo de descolagem. Quanto mais rápido e seguro for o embarque, mais eficaz será o aproveitamento dos voos. É uma questão de lógica e logística.
Uma prática que ficou
Desde então, a maioria das aeronaves passou a ser construída com porta do lado esquerdo. As exceções tornaram-se raras, e os aeroportos passaram a adaptar-se a essa configuração. Os fabricantes alinharam-se com o padrão internacional, que hoje praticamente não é questionado. Embarcar pela esquerda tornou-se a norma universal, refere ainda a APAR.
Ainda que tecnicamente fosse possível inverter este hábito, fazê-lo exigiria reformular terminais, reorganizar fluxos de passageiros e alterar procedimentos que já funcionam há décadas. Seria uma alteração complexa, cara e pouco justificável. Por isso, ninguém questiona verdadeiramente esta escolha.
Uma curiosidade que passa despercebida
A maioria dos passageiros não dá por isso, mas o lado por onde entra no avião foi decidido há muito tempo e tem raízes profundas. O que parece apenas um detalhe logístico é, afinal, fruto de história, conveniência e planeamento rigoroso. Tal como tantas outras coisas na aviação, este pequeno gesto não acontece por acaso. Embarcar pela esquerda é tradição, mas também é eficiência. E por isso continuará a ser assim.
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